Por He Jialu
No dia 7 de abril, em Brasília, antes mesmo do início do concerto daquela noite, uma longa fila já se formava à porta do Teatro Poupex. Apesar do calor intenso, nada conseguia deter a expectativa dos brasilienses por esse espetáculo musical.
Naquela noite, o que se apresentava ali era o concerto especial do “Ano da Cultura China-Brasil”, realizado em conjunto pela Orquestra Sinfônica Nacional da China e pela Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro.
Embora já soubesse que o povo brasileiro ama a música e que ela é parte indispensável de suas vidas, “a intensidade de sua paixão superou todas as minhas expectativas”, admitiu Meng Zhaohao, o oboé principal associado da Orquestra Sinfônica Nacional da China, antes do início do espetáculo.
2026 é o “Ano da Cultura China-Brasil”. Os dois países vêm promovendo uma série de atividades culturais, com formatos variados e conteúdos ricos, que demonstram a diversidade e a criatividade de suas respectivas culturas e contribuem para aprofundar o entendimento mútuo entre seus povos.
A música é uma linguagem universal que transcende fronteiras. Essa celebração musical, apresentada em conjunto pelas duas orquestras sinfônicas, é, sem dúvida, uma das expressões mais envolventes dessa série de intercâmbio.
Um encontro de corações
“Viajar através do oceano para se apresentar em outro hemisfério é realmente cansativo, mas o entusiasmo do público brasileiro me faz aceitar de bom grado todo o cansaço da jornada. Tudo valeu a pena”, refletiu Yao Liang, violinista da Orquestra Sinfônica Nacional da China.
Para celebrar o Ano da Cultura China-Brasil, a Camareta da Orquestra Sinfônica da China viajou de 7 a 11 de abril para a capital brasileira, Brasília, e para duas cidades históricas da cultura brasileira, Natal e Fortaleza, onde se apresentou em conjunto com a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro.
A característica mais marcante dos concertos foi a alternância entre clássicos folclóricos de ambos os países, interpretados pelos músicos das duas nações. Até os ensaios, os músicos ainda conheciam pouco os contextos históricos e as técnicas de interpretação das peças folclóricas do outro país.
Durante os ensaios, os músicos dos dois países trocaram informações intensamente, fizeram verdadeiras “aulas de recuperação” e buscaram conhecer as histórias por trás das músicas.
Embora a barreira idiomática tenha causado dificuldades, felizmente todos eram músicos: bastava colocar a partitura à frente e fazer uma demonstração para que as técnicas fossem imediatamente compreendidas. Feng Dan, pianista principal da Orquestra Sinfônica Nacional da China, disse: “A partitura e a música são nossa linguagem universal”.
Nessa apresentação, a orquestra brasileira selecionou cuidadosamente clássicos que representam a cultura local, como Aquarela do Brasil e Batuque, enquanto o lado chinês trouxe peças folclóricas tradicionais como Os Amantes da Borboleta (Liang Zhu) e A Dança Frenética da Serpente Dourada (Jin She Kuang Wu).
A música brasileira é conhecida por seus ritmos marcantes e variações rítmicas, enquanto a música chinesa valoriza a expressão de emoções delicadas e sutis, de belas paisagens sonoras e de histórias comoventes. Como disse Yao Liang: “Talvez isso seja uma complementaridade cultural; podemos aprender e nos inspirar mutuamente”.
Quando a peça solo para violino Os Amantes da Borboleta terminou, o público reagiu calorosamente, levantando-se para aplaudir e expressando seu amor pela obra. A música permitiu que eles sentissem a busca do amor, a resistência ao destino e o anseio por uma vida melhor dos protagonistas da história.
Um diálogo de almas foi completado entre palco e plateia através das cordas, e sob os aplausos calorosos e prolongados de toda a plateia, testemunhou-se a força imponente da música como ponte cultural.
O sucesso desse espetáculo deveu-se não apenas à interpretação apaixonada dos músicos de ambos os países, mas também à atitude aberta e calorosa do público brasileiro, e aos seus aplausos e elogios generosos. Palco e plateia entregaram-se mutuamente, e ambos saíram recompensados.
“O intercâmbio cultural é a comunicação de coração para coração entre os povos dos dois países, fazendo com que todos passem do conhecimento à compreensão, de amigos a parceiros”, disse Meng Zhaohao.
Reciprocidade, uma jornada de duas mãos
Como diz o ditado, “Bem com bem se paga”. Enquanto a música chinesa atravessava os oceanos, a música brasileira também florescia com encanto deslumbrante no Oriente antigo e moderno. De 10 a 21 de abril, a Orquestra Forte de Copacabana, do Rio de Janeiro, veio à China para uma série de turnês musicais, adicionando cor ao “Ano da Cultura China-Brasil”.
“O que mais me impressionou foi ver robôs tocando piano. Isso foi realmente incrível!” No dia 14 de abril, durante o espetáculo especial do “Ano da Cultura China-Brasil” na Universidade Renmin da China, dois robôs tocavam piano em um dos lados do palco, acompanhando a música Como Desejado (Ru Yuan), o que deixou uma forte impressão em Eduardo, baixista da Orquestra Forte de Copacabana.
Anteriormente, a Orquestra Forte de Copacabana já havia vindo em turnê pela China diversas vezes, e por isso os músicos da banda aprenderam espontaneamente várias canções em chinês, sendo Como Desejado uma delas, cantada em conjunto com os estudantes da Renmin.
Outra apresentação memorável da Orquestra Forte de Copacabana ocorreu no dia 10 de abril, quando, no trecho de Juyongguan da Grande Muralha, cantaram Jasmine (Mo Li Hua) junto com os estudantes da Renmin. A vocalista Michelle Gondim, com pronúncia em chinês impecável, conquistou aplausos repetidos do público que parou para assistir.
A voz melodiosa flutuava sobre as muralhas antigas e imponentes; os jovens brasileiros dançavam com entusiasmo, e sua performance era ao mesmo tempo apaixonada e contagiante; os estudantes da Renmin também foram contagiados pelo entusiasmo dos jovens brasileiros, cantando em voz alta para transmitir suas calorosas boas-vindas aos visitantes que vieram de longe.
O significado musical de Jasmine foi perfeitamente interpretado nesse espetáculo ao ar livre: a cultura chinesa possui tanto a autoconfiança de uma flor cujos ramos perfumados são elogiados por todos, quanto a magnanimidade de abraçar a diversidade e celebrar a beleza compartilhada. Acompanhada pela brisa suave da muralha, a canção flutuava para longe – era o eco da amizade sino-brasileira.
Durante a turnê na China, os jovens brasileiros da Orquestra Forte de Copacabana também visitaram a Universidade de Petróleo da China (Pequim), onde conversaram diretamente com os estudantes chineses. Os dois grupos demonstraram grande interesse pela cultura e pela história um do outro.
Como disse o maestro Luís, “embora estejamos separados por milhares de quilômetros, esse intercâmbio mostra que, na verdade, temos muito em comum. Acredito que a China e o Brasil serão bons amigos”.
A Universidade de Petróleo da China (Pequim) mantém cooperação científica e tecnológica com diversas universidades brasileiras há quase vinte anos, e em 2024 inaugurou o Centro de Inovação Tecnológica China-Brasil e a Escola de Engenheiros de Excelência China-Brasil.
O secretário do Comitê do Partido Comunista da China na Universidade, Liu Tongqi, observou: “A cooperação científica e tecnológica é o intercâmbio de forças duras entre os dois países, enquanto o intercâmbio cultural pode aumentar a temperatura da cooperação científica, permitindo que ela avance mais profundamente e mais longe”.
A Orquestra Forte de Copacabana não foi a única orquestra brasileira que veio à China para enriquecer o “Ano da Cultura China-Brasil”. De 28 de abril a 6 de maio, a Orquestra Juvenil do Estado da Bahia iniciou sua turnê de 2026 pela China, apresentando quatro concertos espetaculares para o público chinês em Pequim, Xi’an, Tianjin e Shenzhen.
Sua performance fundiu o estilo norte-americano com ritmos latino-americanos, apresentando cuidadosamente um repertório diverso com o tema “Continente Americano”, permitindo que o público chinês sentisse plenamente o charme único da música brasileira.
O intercâmbio cultural, como um chuvisco silencioso e suave, é uma das formas mais naturais e impregnáveis para estabelecer a sintonia entre os corações dos diferentes povos.
Yan Qiaorong, tradutora da versão chinesa de O Povo Brasileiro: A formação e sentido do Brasil, já disse que a cultura é a forma de intercâmbio mais profunda e a mais capaz de aprofundar o conhecimento mútuo. Só conhecendo os costumes, a história e a cultura do outro é possível respeitar melhor um ao outro e estabelecer confiança.
A série de atividades de intercâmbio do “Ano da Cultura China-Brasil” atraiu a participação de numerosos grupos artísticos, artistas e público. Isso não apenas exibiu o charme cultural de cada país, mas também construiu uma plataforma de diálogo amigável e igualitária, onde as partes puderam conhecer-se de forma mais autêntica e calorosa através de trocas, cara a cara, emitindo dúvidas e buscando respostas do ponto de vista individual — algo que toca mais profundamente o coração do que notícias indiretas.
Muitas vezes, a primeira impressão que as pessoas têm de outra cultura é exatamente construída através da música, do cinema, da literatura e da arte.
Felipe Porto, jovem comunicador brasileiro, compareceu ao espetáculo da Orquestra Juvenil do Estado da Bahia em Shenzhen e disse: “O que mais me impressionou foi ver a reação do público chinês ao espetáculo. Mesmo que a língua ou o contexto cultural sejam diferentes, muitos ficaram profundamente emocionados e aplaudiram calorosamente ao final. O entusiasmo do público chinês deixou uma forte impressão nos músicos brasileiros”.
Nessa série de apresentações do “Ano da Cultura China-Brasil”, os estilos musicais dos dois países têm suas próprias características, mas tanto os músicos no palco quanto o público na plateia deixaram fortes impressões uns nos outros.
A música pode transmitir emoções universais e estabelecer conexões verdadeiras entre povos de diferentes países e etnias. Nesse tipo de intercâmbio, as pessoas são tocadas pela busca comum pela verdade, bondade e beleza, e também são impressionadas por diferentes expressões culturais.
Essa ressonância natural desperta a curiosidade pelo outro, encorajando ambos os lados a explorar novos campos, promovendo assim a cooperação de longo prazo em outros setores.
E, em meio a essa série de atividades, os jovens artistas chineses e brasileiros já se tornaram a principal força do intercâmbio cultural. Por meio de encontros amistosos e presenciais, eles estabeleceram profundas amizades transnacionais, dando novo impulso ao desenvolvimento das relações amistosas e pacíficas entre China e Brasil.
O entendimento e o respeito mútuos entre eles também desempenharão um papel crucial na cooperação e na prosperidade compartilhada entre os dois países em diversos setores no futuro.
Este texto foi publicado originalmente na revista China Hoje. Clique aqui, inscreva-se na nossa comunidade, receba gratuitamente uma assinatura digital e tenha acesso ao conteúdo completo.







0 comentários