Crianças, natureza e… ação!

Entre capivaras, pandas e micos-leões-dourados surge a nova fronteira da amizade Brasil-China
Por Redação
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Por Wang Jinxu

Na noite de 13 de junho, o calor tomava conta de Pequim, mas a Galeria de Arte Jintai estava cheia de crianças que corriam e brincavam pelo espaço. Um menino brasileiro e uma menina chinesa, com idades entre 3 e 5 anos, subiram ao palco para uma apresentação de jiu-jitsu brasileiro. A dupla mirim encantou todo o público com sua performance cativante.

Era uma noite especial do Festival de Cinema Brasileiro em Pequim, e as duas crianças fizeram a abertura oficial da sessão do filme infantil “Thiago & Ísis e os Biomas do Brasil”.

Voltado para o público infantil de 3 a 8 anos, o filme tem como tema central a preservação da biodiversidade e dos biomas brasileiros. A intenção original do diretor ao criar a obra era fazer com que as crianças brasileiras conhecessem as espécies nativas de seu próprio país.

Contudo, como parte da programação do Ano Cultural Brasil-China 2026, o filme ganhou um novo significado ao ser exibido na China: ele abre uma janela para que as crianças chinesas entrem em contato com o Brasil do outro lado do planeta, descubram animais icônicos como o mico-leão-dourado, e mergulhem em ecossistemas singulares, como a Floresta Amazônica e o Pantanal. Ou seja, a mostra faz com que o Brasil seja visto pelos olhos da próxima geração chinesa.

A voz entre dois mundos

“É a capivara!” – uma voz de criança ecoou na sala de cinema, quando os personagens Thiago e Ísis vivem uma aventura e encontram uma capivara DJ comandando uma festa no Pantanal. A menina imediatamente reconheceu o animal.

Nos últimos anos, a capivara se tornou um ícone da cultura popular na China. Sua aparência fofa e seu temperamento tranquilo conquistaram o público chinês e geraram uma verdadeira febre entre as pessoas.

“Conhecemos a capivara por vídeos curtos que mostravam esses animais tomando banho de pomelo num zoológico do Japão”, contou Hu Naihe, que levou a filha para assistir ao filme. “Minha filha adora capivaras. Temos bonecos, ímãs de geladeira e vários produtos com esse animal. Mas foi a primeira vez que descobrimos que a capivara vive no Brasil.”

Por meio do filme, a filha de Hu, aluna da escola primária Fangcaodi, aprendeu sobre o habitat e os hábitos da capivara, além dos esforços de conservação realizados pelo Brasil, e mal podia esperar para compartilhar tudo com os seus amigos da turma.

No local da exibição, ela até encontrou um professor da escola. Pensou que, caso o professor passasse um trabalho escolar sobre as capivaras, poderia fazê‑lo junto com os amigos, exatamente como os fantoches de Thiago e Ísis fazem no longa. Após assistir ao filme, ela se sentiu confiante para tirar uma boa nota nessa eventual tarefa escolar.

João Amorim, diretor do filme, contou com à jornalista da China Hoje que a experiência mais especial durante o festival de cinema foi assistir ao filme junto com as crianças chinesas e observar suas reações: “Já participei de muitos festivais, mas esse contato direto com as crianças chinesas tornou a experiência diferente e muito emocionante. Foi a confirmação de que uma história profundamente brasileira pode viajar e estabelecer uma conexão verdadeira com o público da China.”

Embora já soubesse que a capivara havia se tornado um fenômeno internacional, o diretor não tinha percebido a dimensão do carinho dos chineses pelo animal até visitar o país. Ele já deu à capivara um papel central em sua próxima produção, Ho-Ho e o Som do Brasil, uma coprodução entre Brasil e China que vem sendo preparada há mais de dois anos.

A série conta a história de Ho-Ho, um panda chinês que vem ao Brasil para colecionar sons, conhecer ritmos brasileiros e criar uma nova música para compartilhar com seus amigos na China. Capy, uma capivara inteligente, racional e muito brasileira, é uma das protagonistas.

“As crianças só cuidam daquilo de que gostam – e, para gostar, primeiro é preciso conhecer. O audiovisual tem justamente esse poder: despertar a curiosidade, criar uma relação afetiva com a natureza e transformar conhecimento em memória e emoção. Não queremos apenas transmitir informações. Queremos fazer com que as crianças se apaixonem pela natureza e sintam vontade de protegê-la”, acrescentou o diretor. “E o carinho do público chinês pela capivara reforça ainda mais a possibilidade de o animal funcionar como uma ponte afetiva entre os dois países.”

Aprofundando os laços

Os intercâmbios cinematográficos entre China e Brasil vêm se aprofundando nos últimos anos. A exibição, na China, do filme de animação “Thiago & Ísis e os Biomas do Brasil” pode ser considerada um reflexo vívido do crescente contato cultural entre os dois países.

Olhando para trás, durante as mostras paralelas do Festival de Cinema dos BRICS, em 2017, “Nise – O Coração da Loucura” tornou-se um dos primeiros filmes brasileiros lançados comercialmente nos cinemas chineses. Em 2024, nove filmes chineses populares também foram exibidos na tela do Cine Odeon no Rio de Janeiro, durante o Festival de Cinema Chinês.

No mesmo ano, o Brasil participou como país convidado de honra da 14ª Edição do Festival Internacional de Cinema de Pequim, com uma semana de cinema brasileiro, elevando os intercâmbios audiovisuais bilaterais a um novo patamar.

Em 2026, aproveitando a importante oportunidade proporcionada pelo Ano Cultural China‑Brasil, os dois países realizaram um número recorde de atividades voltadas ao cinema. As exibições aconteceram em diversas cidades, entre elas Pequim, Xangai, Changsha, Hangzhou, Suzhou, Changzhou, Tianjin, Chengdu, Kunming, Macau e Guangzhou. Os eventos variaram de grandes festivais internacionais de cinema a sessões de debate de menor porte.

O avanço do projeto de animação coproduzido por China e Brasil “Ho‑Ho e o Som do Brasil” marca a passagem da cooperação bilateral da simples exibição de filmes importados para uma nova fase de criação conjunta.

O diretor destacou o potencial ilimitado da cooperação audiovisual, especialmente nos segmentos de animação e produção infantil. Sua equipe, a Amorim Filmes, mantém um projeto de longo prazo com parceiros chineses, que inclui quatro temporadas da série e o desenvolvimento do longa-metragem “Amazônica”.

Além das produções audiovisuais, ele defende a ampliação do intercâmbio acadêmico e profissional, por meio de parcerias entre universidades de cinema, trocas de estudantes, roteiristas e animadores dos dois países.

O intercâmbio cinematográfico entre os dois países revela, por outro ângulo, a trajetória das relações sino-brasileiras: com base na cooperação prática no setor econômico e comercial, os intercâmbios culturais bilaterais também ganham cada vez mais profundidade.

Essa conexão não se limita à colaboração profissional no setor audiovisual, mas também cria um elo que aproxima os povos e fortalece os vínculos afetivos entre os dois países.

Uma ligação que vai além do filme

Yuan Xikun, o primeiro “Mestre da Arte para o Meio Ambiente” designado pelas Nações Unidas e renomado artista chinês, também esteve presente no evento. Para ele, a proteção ambiental, a arte e a inocência infantil não têm fronteiras.

Segundo Yuan, a arte é o veículo de comunicação mais suave e poderoso para a conservação ecológica, e a sétima arte, o cinema, constitui um meio excelente para atingir o público em geral e tocar o coração dos jovens.

Tanto a China quanto o Brasil são grandes potências em recursos ecológicos. Ambos atribuem grande importância à proteção da biodiversidade e à construção de uma civilização ecológica, compartilhando conceitos de desenvolvimento e afinidades culturais muito semelhantes.

“Diante da importante oportunidade do Ano Cultural China‑Brasil, esse tipo de intercâmbio audiovisual voltado para o público jovem e centrado no tema ecológico vai muito além de uma simples exibição de filmes: é uma prática viva de aprendizado mútuo entre civilizações e de aproximação entre os dois povos”, disse Yuan à China Hoje.

Nesta primeira viagem à China, o diretor João Amorim impressionou-se diante das iniciativas ambientais aqui: a recuperação e a limpeza dos rios, a arborização das cidades e o investimento em infraestrutura e qualidade de vida.

“Acima de tudo, a China me deu esperança no futuro. Em um momento no qual grande parte do mundo parece cada vez mais orientada para o conflito e para soluções militares, encontrei na China uma demonstração de que a cooperação, o planejamento e o desenvolvimento são possíveis. Talvez essa tenha sido a experiência mais marcante de toda a viagem”, disse ele.

Ao falar sobre a ligação entre China e Brasil, o diretor João Amorim enfatizou: “Brasil e China têm histórias marcadas por lutas pela soberania e contra diferentes formas de dominação externa. Temos muito mais em comum do que normalmente imaginamos”.

Ao fim da viagem, o diretor estava completamente apaixonado pela China: “Já estou ansioso para retornar. E meu desejo é que essa relação com o país e com o cinema chinês continue pelo resto da minha vida.”

Mais do que exibir filmes, o intercâmbio audiovisual do Ano Cultural China‑Brasil planta sementes de compreensão mútua entre as novas gerações. Com projetos de coprodução já em andamento, a amizade entre China e Brasil continuará ganhando novas imagens, sons e histórias nas telas dos dois países.

Este texto foi publicado originalmente na revista China Hoje. Clique aqui, inscreva-se na nossa comunidade, receba gratuitamente uma assinatura digital e tenha acesso ao conteúdo completo.

Publicado em: 21/09/2026

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