Civilizações em construção: Como a formação do Brasil é vista na China

Por Redação
A cerimônia de lançamento da edição em chinês de O Povo Brasileiro: A formação e o sentido do Brasil, em Pequim, em 9 de abril. (WEI YAO)
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China e Brasil estão celebrando conjuntamente 2026 como seu Ano da Cultura, e uma profunda ponte literária está sendo construída de um hemisfério a outro. A edição em língua chinesa de O Povo Brasileiro: A formação e o sentido do Brasil, monumental obra do saudoso Darcy Ribeiro, chega oficialmente ao público chinês e abre caminho para um profundo mergulho na alma de uma nação em busca de sua identidade. Darcy Ribeiro, figura legendária do Brasil do século XX, é homenageado como um dos mais influentes pensadores, educadores, escritores e políticos do país. Ele dedicou três décadas a escrever esse livro seminal.

Comparecer ao lançamento da edição chinesa em 9 de abril em Pequim fez parte da primeira visita à China de José Ronaldo Alves da Cunha, presidente da Fundação Darcy Ribeiro, e de Gisele Jacon de Araújo Moreira, vice-presidente da fundação e respeitada antropóloga. Em entrevista para China Hoje, ambos abordaram não apenas a importância crucial desse livro na definição do caráter nacional do Brasil, mas a expectativa de ambos em relação à sua viagem pela China.

“Esta visita é a realização de um sonho”, disse Ronaldo da Cunha. “Caminhar por um parque, observar a cultura, sentir a atmosfera desta terra; tudo me tocou profundamente.” Sua viagem de três semanas também levou os dois a Xangai, Suzhou, na Província de Jiangsu, Xi’an, na Província de Shaanxi, e à Região Administrativa Especial de Macau. Para acrescentar uma camada de visão local ambos contaram com o auxílio de Rafael Zerbetto, pesquisador brasileiro e ganhador do Prêmio de Amizade do Governo Chinês, a mais alta honraria conferida a especialistas internacionais por sua contribuição ao desenvolvimento da China.

No lançamento do livro, Zerbetto destacou o impulso que orientou Darcy Ribeiro na escrita de O Povo Brasileiro: seu esforço determinado para articular a narrativa do Brasil em seus próprios termos, isento das imposições de teorias estrangeiras, e para resgatar as vozes silenciadas dentro de sua história, particularmente as dos povos indígenas e dos africanos escravizados. “Darcy Ribeiro dedicou a vida inteira a este livro, um testemunho profundo de seu amor pelo Brasil”, afirmou Zerbetto.

Um novo povo

Publicado em 1995, O Povo Brasileiro é amplamente aclamado no Brasil como o guia definitivo para a identidade nacional. Gisele Moreira articulou sucintamente a questão essencial do livro, um enigma persistente que incomodava Darcy Ribeiro: “Por que um país tão vasto e criativo como o Brasil permaneceu empacado no atraso e na desigualdade por tanto tempo?” A explicação de Gisele Moreira para a abordagem de Darcy destaca sua exploração multifacetada da gênese do Basil. “Esse livro explica a gestação de um povo, o povo brasileiro”, afirma Gisele. A tese central defendida por Darcy coloca os brasileiros como um “novo povo”, um amálgama vibrante nascido da fusão de indígenas, africanos e vertentes culturais ibéricas. Essa síntese, enfatiza ela, gerou um processo tumultuado, cheio de violência e dificuldades, embora seja precisamente essa confluência que forjou uma identidade nacional singular.

Darcy caracteriza os brasileiros como um povo aberto ao futuro e ainda em estado de construção. “Não temos um passado a reverenciar, mas possuímos os próprios instrumentos culturais para construir o futuro que desejamos”, afirma Gisele.

Ronaldo da Cunha compartilha um detalhe de particular interesse para os leitores chineses: o crescente fascínio que ele sente pelas obras do prestigioso escritor chinês Lu Xun (1881-1936), que ajudou a introduzir a literatura chinesa na era moderna com contos como A Verdadeira História de Ah Q e O Diário de Um Louco. “Tornei-me leitor devotado de Lu Xun, do qual não conhecia nada antes”, declarou. “Agora que li suas obras e conheço detalhes de sua vida, fiquei totalmente cativado.”

Essa conexão pessoal é parte de um dinâmico intercâmbio literário, com destacados intelectuais brasileiros engajados com a moderna literatura chinesa, enquanto leitores chineses, por meio de obras como O Povo Brasileiro, ganham uma compreensão mais íntima da história e do espírito nacional do Brasil.

Quando questionado sobre qual seria o valor de dedicar tempo a introduzir a história da formação do Brasil a um país distante, Ronaldo ofereceu um ponto de vista atraente ao afirmar: “Esse livro encurta distâncias. Ele transforma o que seria uma vasta divisão geográfica na intimidade de uma vizinhança”.

Zerbetto, endossando sua opinião, foi direto ao ponto: “Ler esse livro é enriquecer culturalmente. Você é levado a compreender diferentes perspectivas, diferentes visões de mundo; esse é o propósito da literatura. Deparar com pontos de vista diferentes é transformador, leva você a questionar o que sabe e lhe permite compreender o mundo mais profundamente.”

Proximidade cultural

Em 2026, China e Brasil promoveram uma série de atividades para marcar seu Ano da Cultura. Esta designação vai além de um gesto diplomático e serve como um reconhecimento do papel vital que a cultura desempenha no sentido de incentivar uma conexão genuína.

“A proximidade cultural é a conexão mais íntima, sensível e respeitosa que pode existir entre povos diferentes”, disse Ronaldo da Cunha. Ele acrescentou que a tradução para o chinês de O Povo Brasileiro é oportuna, e permite que os leitores chineses percebam o Brasil não como mero parceiro econômico, mas como uma civilização rica com sua própria narrativa cultural distinta.

Zerbetto, com sua vasta experiência de vida na China, acrescentou outra dimensão importante. Segundo ele, muito da literatura sobre o Brasil disponível na China se origina de autores americanos ou europeus – “isto é, aqueles que nos colonizaram, que enxergam o Sul Global com as próprias lentes. Nessas fontes, as nossas vozes, as nossas maneiras de nos apresentarmos estão ausentes”.

Ele argumenta que traduzir clássicos brasileiros, permitindo que leitores chineses ouçam o Brasil falando com a própria voz, é o melhor alicerce para um diálogo equitativo. Esse sentimento foi ecoado por Ronaldo da Cunha, que destaca o respeito cultural que começa com o ato fundamental de permitir que outros articulem as coisas com as próprias narrativas.

O Povo Brasileiro, diferentemente de muitos relatos históricos, pulsa com um otimismo pelo que está à frente. Ronaldo da Cunha ressalta esse espírito voltado para adiante e enfatiza: “Este livro contém um desejo de futuro. Esse desejo de futuro é nossa capacidade de autotransformação, nossa capacidade de assumir nosso destino com as próprias mãos, tanto individual quanto coletivamente”.

Suas expectativas para a geração mais jovem, que carrega o peso do futuro, são profundamente humanistas. “A coisa mais importante para as pessoas jovens hoje, tanto na China quanto no Brasil, é ter uma boa perspectiva de vida. Acredito que, mesmo sem grandes missões, viver de maneira pacífica e ética, e ter bons relacionamentos com os outros, estão na essência do que as pessoas que desejam a paz realmente querem”, disse ele.

Zerbetto, refletindo sobre o potencial de aprendizagem mútua entre as duas civilizações, reafirmou características nacionais essenciais. “O Brasil é uma civilização em construção, portanto mais aberta àquilo que vem de fora; a China é uma civilização estabelecida ao longo de milênios, com uma organização mais tradicional”, observou. “No entanto, ambas enfrentam o mesmo desafio: como absorver elementos externos benéficos sem perder as próprias características.”

Com o Ano da Cultura China-Brasil agora em vigor, o diálogo entre essas duas nações está em foco. O lançamento de O Povo Brasileiro em chinês não só apresenta aos leitores chineses um retrato vívido de um Brasil complexo e voltado para o futuro, como permite que figuras como Ronaldo da Cunha e Gisele Moreira experimentem pessoalmente a profundidade e a inclusividade da China.

Neste estimulante encontro de civilizações, duas nações separadas por vastos oceanos estão trabalhando para se tornarem vizinhos. Essa talvez seja a razão mais fundamental para buscar a aprendizagem cultural mútua.

Este texto foi publicado originalmente na revista China Hoje. Clique aqui, inscreva-se na nossa comunidade, receba gratuitamente uma assinatura digital e tenha acesso ao conteúdo completo.

Publicado em: 21/09/2026

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