China avança em robótica e IA aberta e abre espaço ao Brasil

Especialistas defendem que o país diversifique fornecedores de infraestrutura para aproveitar a tecnologia chinesa
Por Redação
Visitantes na Feira de Hannover 2026, em Hannover, Alemanha, em 20 de abril de 2026. A Feira de Hannover 2026, principal feira industrial da Alemanha, começou na segunda-feira com inteligência artificial (IA) industrial e robôs humanóides como protagonistas pela primeira vez. Realizado sob o tema "Pense em Tecnologia para o Futuro", o evento de cinco dias atrai cerca de 2.900 expositores de mais de 50 países e regiões. (Xinhua/Zhang Haofu)

Os avanços da China em inteligência artificial — modelos abertos, infraestrutura computacional, robótica e aplicação da tecnologia na economia — abrem novas oportunidades de cooperação com o Brasil. A avaliação é de especialistas brasileiros reunidos nesta quarta-feira no seminário “Brasil, China e a Governança da Inteligência Artificial”, promovido pelo Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) e pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI).

Para Diogo Cortiz, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e pesquisador sênior do NIC.br, a liderança chinesa em um segmento específico já não é hipótese. “Hoje a China está na vanguarda da robótica”, afirmou, citando a presença de dezenas de empresas chinesas dedicadas a robôs humanoides.

Cortiz relatou sua participação recente em uma conferência de IA em Xangai, que reuniu mais de 300 mil visitantes ao longo de vários dias, com empresas de diferentes setores apresentando seus serviços.

Por que a robótica chinesa está à frente?

Além da robótica, o pesquisador destacou o avanço chinês em modelos de linguagem. Segundo ele, havia a expectativa de que o país estivesse atrasado nessa corrida, mas a chegada de modelos com capacidades comparáveis às de concorrentes ocidentais, disponibilizados de forma aberta, mudou esse cenário.

Para Cortiz, o diferencial não está necessariamente em quem desenvolve a tecnologia primeiro, mas em quem consegue adotá-la e transformar sua economia a partir dela, um recado direto para países como o Brasil, que ainda discute como se posicionar diante da corrida global por IA.

Infraestrutura: por que o Brasil aposta em dois fornecedores

Cortiz avaliou de forma positiva a decisão do Brasil de adquirir duas infraestruturas de computação para IA, uma de origem chinesa e outra americana. Segundo ele, a diversificação de fornecedores prepara o ecossistema nacional para lidar com uma tecnologia — a infraestrutura chinesa — que deve estar bastante avançada daqui a cinco ou dez anos.

O pesquisador também chamou atenção para as diferenças entre os modelos de supercomputação: cada fornecedor tem softwares, sistemas operacionais e middleware próprios, o que torna relevante, na visão dele, abrir diálogo também com a tecnologia chinesa nessa camada.

O que vem a seguir: soberania e transferência de tecnologia

O seminário também tratou da iniciativa “AI Plus”, incorporada ao mais recente plano quinquenal chinês para estender a inteligência artificial a diferentes setores da economia — um movimento que, segundo os especialistas, ilustra como Pequim trata a adoção da tecnologia como prioridade de Estado, não apenas como aposta de mercado.

Cortiz foi direto ao tratar do tema da soberania tecnológica: “Se não tivermos uma infraestrutura computacional, não teremos soberania alguma”. Para ele, sem essa base, o país sequer tem ponto de partida para treinar seus próprios modelos ou adotar tecnologias abertas em escala.

García defendeu que a cooperação com a China vá além da compra de equipamentos e inclua transferência de tecnologia, treinamento de engenheiros brasileiros e apoio à indústria local — os próximos passos que devem pautar a relação entre os dois países no campo da inteligência artificial.

Publicado em: 03/09/2026

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