Sempre que viaja ao exterior, o que mais fascina o presidente chinês Xi Jinping são as civilizações criadas por diferentes povos, segundo ele mesmo já disse. O Egito, berço de uma das civilizações mais antigas do mundo, ocupa lugar especial nessa fascinação, e a poucos dias de sua segunda visita de Estado ao país, o Nilo deve testemunhar novos capítulos de intercâmbio entre as duas civilizações milenares.
Uma jornada pelas civilizações
Na primeira visita, em 2016, Xi foi a Luxor, cidade às margens do Nilo descrita como um dos maiores museus a céu aberto do mundo. Sob o céu noturno, ele e o presidente egípcio Abdel-Fattah al-Sisi percorreram um antigo templo trocando reflexões sobre as duas civilizações, conectadas, há mais de 2 mil anos, pela Rota da Seda, por onde circulavam não só porcelanas e vidros, mas também conhecimento e ideias.
Na mesma visita, os dois líderes lançaram o Ano Cultural China-Egito no icônico Templo de Luxor, a primeira vez que a China promoveu esse tipo de iniciativa com um país árabe, abrindo caminho para anos de intercâmbio cultural entre a China, o Egito e o mundo árabe.
Museu Egípcio e recorde de público em Xangai
Em 1º de novembro de 2025, o Grande Museu Egípcio abriu as portas como um dos maiores acervos de relíquias antigas do mundo, marco nos esforços do Egito para preservar e exibir seu patrimônio. Xi enviou um representante especial para a cerimônia de abertura e uma mensagem de congratulações a Sisi, na qual disse acreditar que o museu deixaria uma marca importante na história cultural egípcia.
Na mensagem, Xi também destacou o intercâmbio cultural entre os dois países, citando uma grande exposição sobre o Egito Antigo no Museu de Xangai. A mostra, em cartaz entre julho de 2024 e agosto de 2025, foi a maior e mais completa exibição de artefatos egípcios já realizada fora do Egito na Ásia, e recebeu 2,77 milhões de visitantes, recorde mundial de público pago para uma exposição especial em museu.
O interesse é recíproco: o Egito foi um dos primeiros países árabes e africanos a introduzir o ensino de mandarim, em 1958, e hoje mantém um percurso completo de ensino do idioma, do primário ao doutorado.
Escavações conjuntas revelam novos segredos
Xi também tem acompanhado projetos arqueológicos conjuntos entre China e Egito, incluindo a exploração dos mistérios das pirâmides de Saqqara, ao sul do Cairo. A primeira missão arqueológica conjunta dos dois países começou em 2018, no complexo do Templo de Montu, de 3 mil anos, na região do Templo de Karnak, em Luxor e, em janeiro deste ano, revelou um lago sagrado até então desconhecido, além de outros artefatos.
Segundo Mohamed Abdel-Badie, chefe do setor de antiguidades egípcias no Conselho Supremo de Antiguidades do Egito, as descobertas mostram um modelo moderno de cooperação internacional, prova viva de que “cultura e história podem falar uma língua comum”. Parte dos artefatos encontrados foi exibida na mostra do Museu de Xangai.
Um modelo de diálogo entre civilizações
Em 2014, na sede da Unesco em Paris, Xi defendeu que diferentes civilizações se respeitem e vivam em harmonia, transformando o intercâmbio entre elas em ponte de amizade entre os povos. Em 2023, propôs a Iniciativa de Civilização Global, que busca aproximar povos de diferentes países e promover o aprendizado mútuo entre civilizações, proposta que ganhou reconhecimento no mundo árabe e além dele.
Segundo Ahmed Kandil, chefe da unidade de relações internacionais do centro egípcio Al-Ahram, China e Egito hoje compartilham convergência estratégica em temas como reforma da governança global, apoio a uma ordem mundial multipolar, respeito a diferentes caminhos de desenvolvimento e não interferência em assuntos internos de outros países.
Em maio, Xi e Sisi trocaram mensagens para marcar os 70 anos de relações bilaterais entre China e Egito. Xi disse que os dois países devem tirar sabedoria e força da história e reforçar o compromisso conjunto com a paz, o desenvolvimento e a cooperação. Como o próprio presidente chinês já resumiu, a amizade entre as duas civilizações milenares deve seguir avançando “como o Nilo”.







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