A emergência de um novo sistema de pensamento chinês

Por Evandro Carvalho
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Por Evandro Menezes de Carvalho (高文勇)*

No final do seu discurso na Conferência Mundial sobre Inteligência Artificial, realizada em Xangai no dia 17 de julho de 2026, quando foi anunciada a criação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO, na sigla em inglês), o presidente Xi Jinping disse: “Como observaram os antigos chineses: ‘Aquele que enxerga com clareza muda conforme os tempos; aquele que possui sabedoria formula suas medidas de acordo com as circunstâncias’”. Em chinês: “明者因时而变,智者随事而制”. Esta máxima pode ser encontrada no livro Yantie Lun (Discursos sobre o Sal e o Ferro), obra atribuída a Huan Kuan. Em 81 a.C., o regente Huo Guang convocou eruditos confucionistas para debater com oficiais do governo se deveriam continuar as políticas do imperador anterior, que impusera o monopólio sobre o sal e o ferro. Os dois lados divergiam sobre o tema que envolvia economia, comércio, defesa do território e bem-estar da população. Há dois milênios os chineses debatem esses temas.

A sabedoria chinesa é um recurso intelectual que orienta o país em seus processos de adaptação e de criação institucionais. O passado importa tanto quanto (ou talvez até mais do que) o futuro. Uma raiz cultural sólida e profunda tem servido como porto seguro de onde se parte e para onde se volta. Os chineses têm, por isso, um bom senso de direção. Não à toa inventaram a bússola. Hoje o mundo quer entender a modernização chinesa. Para compreendê-la, é preciso entender a cultura chinesa.

Durante a celebração do centenário de fundação do Partido Comunista da China, em 1º de julho de 2021, Xi Jinping declarou que o Partido “deve continuar a adaptar os princípios básicos do marxismo às realidades específicas da China e à sua rica cultura tradicional”. Este pensamento foi reafirmado no 20º Congresso Nacional do Partido, realizado em outubro de 2022, e ficou conhecido como “Duas Integrações”. Na ocasião, disse o presidente chinês: “Devemos manter a confiança em nossa história e cultura, fazer com que o passado sirva ao presente e desenvolver o novo a partir do antigo. Devemos integrar a essência do marxismo com o melhor da rica cultura tradicional chinesa e com os valores comuns que nosso povo aplica intuitivamente em seu dia a dia”. A primeira integração consiste na adaptação do marxismo às realidades concretas da China, impedindo que ele seja aplicado como uma fórmula estrangeira e abstrata. A segunda integração incorpora as contribuições da excelente cultura tradicional chinesa, prevenindo que a modernização chinesa seja confundida com ocidentalização.

Em 2023, um encontro nacional sobre o trabalho de comunicação pública e cultura, realizado em Beijing, apresentou o “Pensamento de Xi Jinping sobre Cultura”, que adere às “Duas Integrações”. Por meio dele, entendemos, por exemplo, por que a modernização chinesa é material e espiritual. O projeto do socialismo com características chinesas para uma nova era visa não apenas a uma sociedade materialmente rica, mas também culturalmente evoluída. Ao mesmo tempo em que o governo chinês erradicou a extrema pobreza e alcançou níveis moderados de desenvolvimento, também busca promover o florescimento espiritual e intelectual do povo por meio de campanhas de leitura, e do estímulo à construção e visitação de bibliotecas e museus.

Ainda a partir das Duas Integrações, entende-se a raiz filosófica da relação entre o ser humano e a natureza na modernização chinesa. Em 2005, Xi Jinping declarou que “águas limpas e montanhas verdes são tão valiosas quanto montanhas de ouro e prata”. Nascia a teoria das Duas Montanhas que encontra eco no conceito clássico de Tian Ren He Yi (天人合一), que se traduz como “fusão entre o Céu (Natureza) e a Humanidade”. Xi Jinping utiliza a dialética materialista para resolver a aparente contradição entre o desenvolvimento econômico e a preservação ambiental. Dialética que, aliás, tem origem mais remota: o yin-yang. A introdução do conceito de Civilização Ecológica na reforma da Constituição de 2018 e o novo Código Ecológico e Ambiental da China, em vigor desde 15 de agosto deste ano de 2026, são medidas práticas na implementação da teoria das Duas Montanhas.

Por fim, outro exemplo: a modernização chinesa baseia-se na aprendizagem mútua entre civilizações apoiada no conceito de Comunidade de Destino Comum. Para apreciar a beleza filosófica desta ideia, devemos retornar ao pensamento clássico chinês, preocupado com o equilíbrio, a coexistência e a rejeição de extremos. A expressão prática desta ideia é a Iniciativa Cinturão e Rota.

A China está deixando de ser objeto das teorias da modernidade e afirmando-se como sujeito de um novo pensamento sistêmico para o século XXI.

*Editor Executivo-Chefe da revista China Hoje. Professor convidado da Universidade Politécnica de Macau e professor da Cátedra Wutong da Universidade de Língua e Cultura de Pequim.

Este texto foi publicado originalmente na revista China Hoje. Clique aqui, inscreva-se na nossa comunidade, receba gratuitamente uma assinatura digital e tenha acesso ao conteúdo completo.

Publicado em: 21/09/2026

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