A segunda onda

2017 aponta para um investimento recorde das empresas chinesas no Brasil.

Até meados do século XX as relações econômicas brasileiras se ancoravam na Europa, principalmente na França. A partir do final da II Guerra Mundial, teve início um longo período de hegemonia cultural e empresarial dos Estados Unidos, com a chegada de diversas empresas multinacionais norte-americanas. Agora, em pleno século XXI, o país da vez é a China. Desde 2009, a relação entre os dois países vem crescendo, embora o fluxo de investimentos seja muito maior vindo da Ásia do que partindo do nosso continente. Nos últimos anos, a  China passou a ser o maior destino das exportações brasileiras, para quem vendemos basicamente minério de ferro, soja e petróleo, enquanto os chineses enviam para cá produtos manufaturados, bens de consumo, máquinas, partes e peças de bens do setor eletrônico.

Mas agora, o capital chinês tem de-mons-trado interesse em adquirir ou participar mais ativamente de empresas brasileiras. O valor pago em aquisições feitas apenas até o mês de abril deste ano chegou a US$ 5,67 bilhões segundo a consultoria londrina Dealogic (veja  quadro). Com isso, o país asiático ficou à frente de todos os outros investidores, com 37,5% do total de aquisições. Isso já é praticamente a metade do que foi investido em todo o ano de 2016, com um valor de US$ 11,92 bilhões. Para se ter uma ideia do avanço chinês, vale lembrar que em 2015 as compras de empresas brasileiras foram de apenas US$ 4,9 bilhões, de acordo com a mesma fonte.

Números crescentes

Entre os anos de 2007 e 2013, segundo pesquisa feita pelo Conselho Empresarial Brasil China (CEBC) para o biênio 2014/2016 e publicada recentemente, em 2017, o total de investimentos da China no Brasil contabilizou cerca de US$ 28,3 bilhões dos US$ 56,5 bilhões que haviam sido anunciados. Tímidos no início, o crescimento dos valores se deu a partir de 2010, quando as empresas chinesas passaram a enxergar o Brasil como um mercado de potencial, participando principalmente de empresas que contribuíam com o mercado interno, como petróleo e gás. Nos anos seguintes, o mercado chinês passou a explorar outros setores da economia brasileira, em especial o de máquinas e equipamentos, aparelhos eletrônicos e automotivos, com a chegada inclusive de montadoras asiáticas, como a Chery, e expansão nas áreas de eletrônicos e comunicação, como Huawey e Lenovo.

Os dados da pesquisa mostram que a prioridade dos investimentos chineses para o período citado está na área de infraestrutura, principalmente de energia e agronegócios. Os principais exemplos dessa afirmação são a chegada da State Grid que comprou a Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL), uma das principais empresas do setor e que possui cerca de 9,1 milhões de clientes em 679 cidades em São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraná; e da China Three Gorges, que arrematou hidrelétricas que pertenciam  à Companhia Energética de São Paulo (CESP), empresa estatal e maior produtora de energia elétrica do estado, além de ativos da Duke Energy, companhia norte-americana que atuava no Brasil.

De acordo com a professora Lia Baker Valls Pereira, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV-IBRE), os investimentos em petróleo e gás diminuíram recentemente, mas isso pode ser explicado  pelas dificuldades que o setor passou no Brasil com os escândalos na Petrobras. “Por outro lado, o interesse maior no setor financeiro expressaria uma estratégia de elevar o grau de internacionalização das empresas chinesas e de passar a constituir uma fonte relevante nos países como ofertante de crédito”, explica a pesquisadora. “Da mesma forma, o setor de serviços mostra a estratégia de passar a atuar nos setores com maior potencial de crescimento à medida que a participação da manufatura de produto tende a cair em todo o mundo”, completa ela.

A estratégia chinesa continuou nos anos seguintes com investimentos no setor de serviços, em especial na área financeira, e também de internet, com a chegada da gigante Baidu ao Brasil. “É possível ver aqui um raciocínio bem lógico dos investimentos chineses no Brasil, partindo primeiro atrás de commodities, passando na sequência para a manufatura, e agora mais focado em serviços e comunicação”, concorda o Country Manager da Baidu no Brasil, Yan Di. “Foram três ondas de investimentos bem definidas durante todos este período. Agora, começamos a ver uma procura maior na área de tecnologia e comunicação”, completa o executivo.

De fora para dentro

“O crescimento dos investimentos chineses no mundo fazem parte da diretriz do governo batizado de Going Out, que acontece desde 1999”, explica a professora Lia. De acordo com a pesquisadora, em um primeiro momento, o dinheiro foi usado, principalmente, para aquisições e fusões, algo que acontece até o momento na América Latina. A partir de 2013/2014, porém, algumas questões passaram a orientar as diretrizes da política externa chinesa: o acúmulo de reservas internacionais lastreadas com títulos do governo dos Estados Unidos com uma baixa taxa de retorno e a procura por investimentos mais rentáveis; a consolidação da diretriz de que a internacionalização das empresas chinesas é um dos fatores para impulsionar a economia da própria China; e o motor do crescimento econômico está na capacidade do país asiático de participar como um dos principais atores nas inovações tecnológicas. “Na América Latina, que é um celeiro de oferta de recursos naturais essencial para o crescimento chinês, os investimentos em infraestrutura que facilitem o escoamento de produtos (também entrada de produtos chineses) continuam sendo prioritários. No entanto, a mudança de um modelo de meras aquisições e fusões para um modelo de investimentos em novas áreas levou a uma diversificação da carteira de investimentos chineses, em especial em países como o Brasil”, afirma a professora Lia.

O Brasil acabou sendo uma escolha natural para os investimentos chineses na América Latina. “A questão não é só chegar ao país e se instalar, é preciso fortalecer os dois lados, aproximar a cultura e economia”, conta In Hsieh, CEO da China-Brazil Internet Promotion Agency (CBIPA), uma entidade criada aqui no Brasil para promover negócios nas áreas de de tecnologia, comunicação e internet. De acordo com o executivo, mesmo com a distância que existe entre os dois países, a chegada do dinheiro chinês ao Brasil é uma estratégia sem volta e que dará resultados importantes para ambos. “Acreditamos que esse é um investimento estratégico de longo prazo que trará um grande retorno”, completa.

Para In Hsieh, um dos fatores que pode explicar essa voracidade chinesa pelas empresas brasileiras está na característica do jovem empreendedor local. “A atitude das startups locais é um motor de investimentos, algo que se valoriza muito no modelo de negócios chineses”, afirma o CEO da CBIPA. “Podemos citar o exemplo da parceria da DiDi com a 99, que foi consolidada no início de 2017 como um desses exemplos de negócios que interessam muito ao mercado asiático”, completa.

Para a professora Lia Pereira, outro fator que deve ser levado em consideração é o potencial que o Brasil oferece. “Existe uma orientação de incrementar os fluxos de investimentos chineses para o mundo. O Brasil, no contexto da América Latina, é um país grande com estrutura diversificada. O México, por exemplo, possui grandes laços com os Estados Unidos, não sendo tão interessante”, conta.

A pesquisa do CEBC também cita pontos importantes que mostram o por quê do interesse chinês pelo Brasil. A desvalorização do real tornou os ativos locais mais atrativos, principalmente quando se pensa em longo prazo, mesmo depois de uma crise econômica forte, como a que aconteceu no Brasil em 2016 e que ainda se estende para este ano. “O investimento direto não visa o ganho imediato e, sob esse aspecto, o que tornava a economia brasileira atrativa não mudou”, explica a professora Lia. No entanto, de acordo com a pesquisadora, em momentos de instabilidade política é esperado que investidores se retraiam, pois o cenário da governança e das regras passam também a ficar instáveis. Porém, ela acredita que o ímpeto chinês não deve arrefecer, pelo menos, no médio prazo. “A América do Sul tem recursos estratégicos minerais e agrícolas que interessam à China. Além disso, alguns países têm mercados internos atrativos para a expansão das empresas de manufaturas e de serviços chinesas, além de parcerias possíveis em projetos de inovação/absorção tecnológica, que é uma das prioridades atuais da China”, finaliza ela.

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