Uma mão robótica pegou um pincel de caligrafia, mergulhou na tinta e escreveu “fu”, caractere chinês que significa boa sorte, sobre um papel vermelho, para a alegria do público. A cena, que já foi apenas atração de eventos, hoje descreve bem para onde a robótica chinesa está indo: na Feira Internacional de Comércio de Serviços da China (CIFTIS), encerrada no domingo em Pequim, o robô Galbot G1 — que viralizou ao dobrar roupas em vídeo durante o Gala do Festival da Primavera deste ano — trabalhava como atendente de um quiosque de conveniência sem funcionários, do tipo que já opera no Palácio de Verão de Pequim e teve sua primeira loja fora da China aberta em Hong Kong em 1º de setembro. Outros robôs na feira carimbavam cartões-postais, preparavam panquecas e faziam arte em espuma de café.
Apesar da novidade, ainda há uma distância grande entre a demonstração e o uso real: o treinamento. Segundo Zhu Kai, diretor do Centro de Treinamento em Inteligência Corporificada de Shijingshan, os embarques domésticos de robôs humanoides na China chegaram a 23 mil unidades no primeiro semestre deste ano — mas menos de 5% deles operam de forma estável em linhas de produção reais, e dados multimodais de alta qualidade, coletados de robôs reais, não chegam nem a 1% da demanda da indústria. É para fechar essa lacuna que existe o centro de Zhu, a poucos passos da feira, no Parque Shougang: nele, quase 270 robôs treinam tarefas domésticas, cuidados e trabalho de fábrica, gerando cerca de 20 milhões de registros de dados por ano. Na abertura da feira, em 9 de setembro, a China reconheceu formalmente uma nova ocupação para os humanos por trás desse trabalho: técnico de aplicação de robôs de inteligência corporificada, com as profissões de coletor de dados e treinador de robôs.
As ferramentas de coleta também mudaram: em vez de operar as máquinas como marionetes a partir de consoles de laboratório, os coletores agora usam equipamentos como o EgoCapture, da fabricante de realidade virtual NOLO, que registra 360 graus de operações humanas reais direto no cenário de trabalho. O dado em si virou mercadoria — durante a feira, foi lançada a primeira plataforma chinesa de nível setorial voltada a serviços internacionais de dados de inteligência corporificada, e o distrito de Shijingshan, em Pequim, já registrou o primeiro conjunto de dados 3D de alta qualidade da China para treinamento de grandes modelos, dentro da meta de reunir 100 conjuntos de dados industriais até 2028.
Os robôs já geram receita fora da China: a startup pequinesa Anyverse Dynamics fechou um contrato de 500 milhões de iuanes (cerca de 74,7 milhões de dólares) com o grupo de tecnologia verde Envision, e o primeiro lote de seus semi-humanoides K15 chegou este mês a uma fábrica de baterias da Envision na França, para trabalho autônomo de carga e descarga. Para a indústria, as máquinas são só parte do negócio — o treinamento e os serviços que as mantêm funcionando no exterior devem ser, cada vez mais, o centro do comércio de serviços chinês no futuro.







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