No domingo, o trem de alta velocidade G3998 partiu da cidade de Ruijin, na província de Jiangxi (leste da China), rumo a Yan’an, na província de Shaanxi (noroeste do país) — a primeira vez que as duas cidades, ambas marcos da história revolucionária chinesa, ficam ligadas por uma linha direta de alta velocidade. O trajeto de 1.857 km, que antes exigia até 22 horas e múltiplas baldeações, agora é percorrido em cerca de 11 horas.
Ruijin e Yan’an estão separadas por mais de 1.300 km em linha reta, mas conectadas pela Longa Marcha: há mais de 90 anos, o Exército Vermelho partiu de Ruijin e percorreu 12.500 km em condições extremas até alcançar o norte de Shaanxi. Entre os mais de 86 mil soldados que iniciaram a marcha em outubro de 1934 estava Liu Jinchang, avô de Liu Ying, hoje com 67 anos, que embarcou no trem de domingo seguindo o mesmo trajeto que o avô nunca completou.
Liu nunca conheceu o avô, mas passou anos reconstruindo sua história — em 2014, encontrou o nome dele gravado em um memorial dedicado a mais de mil soldados caídos de sua cidade natal, Yudu, também em Jiangxi. “Estou terminando a jornada que ele não pôde completar”, disse Liu, ao descrever a viagem como um fechamento pessoal.
A bordo do trem também estavam outros descendentes de veteranos do Exército Vermelho, cada um carregando fotografias, medalhas e memórias de família. Um deles é Wang Wanping, neto de um veterano, que hoje leciona havia anos em uma escola primária de Ruijin inspirado pelos ensinamentos do avô.
Uma linha que também é corredor econômico
O novo trecho é peça de uma rede maior: no fim de 2025, entrou em operação a ferrovia de alta velocidade Xi’an–Yan’an, e em 30 de junho de 2026 começou a operar o trecho Xi’an–Shiyan, completando o corredor Wuhan–Xi’an. Juntas, essas linhas encurtaram a distância entre o noroeste e o centro da China e abriram, agora, a passagem direta entre Ruijin e Yan’an.
Segundo Wang Tao, pesquisador da Academia de Liderança Executiva da China, em Yan’an, a nova linha funciona como uma artéria econômica entre o leste e os polos urbanos do noroeste, além de facilitar o acesso de turistas nacionais e estrangeiros aos dois principais sítios da Longa Marcha.
Autoridades locais já se movimentam para aproveitar a nova conexão: Ruijin enviou uma delegação de turismo à Yan’an no mesmo domingo, e Yan’an enviaria uma comitiva de volta na segunda-feira para assinar um acordo de cooperação. Segundo Yu Qiumei, vice-diretora do órgão de cultura e turismo de Ruijin, uma viagem que em 2022 levava um dia inteiro — com trem, voo e carro — agora pode ser feita observando a paisagem, com chegada a Yan’an ainda de dia.
No primeiro semestre deste ano, a estação ferroviária de Yan’an já registrava alta de mais de 30% nas chegadas e partidas de passageiros em relação ao ano anterior, segundo a operadora estatal China Railway Nanchang Group.







0 comentários