Um espelho, não um modelo

Iniciativas viáveis de erradicação da pobreza em uma região remota da China servem de exemplo para o Brasil

Por Filipe Porto

Sou do Brasil, um país onde a pobreza não é apenas parte da nossa história, mas ainda faz parte do nosso presente. Cresci cercado por ela. Estava nas ruas, nas notícias, nas pequenas negociações diárias o que as pessoas faziam para sobreviver. A desigualdade era tão presente que acabava se tornando parte do fundo do cenário, mesmo quando tentávamos não deixar que fosse.

Durante anos, estudei a China a distância, como pesquisador de relações internacionais por mais de uma década, lendo planos quinquenais, analisando relatórios de desenvolvimento e tentando entender o que possibilitou ao país uma transformação tão rápida e em larga escala. Mas, em janeiro de 2024, essa distância desapareceu. Fiz uma transição de carreira para o jornalismo, juntando-me ao Grupo de Comunicações Internacionais da China como consultor editorial estrangeiro. Meu papel mudou: deixei de apenas analisar a China para também ajudar a contar suas histórias.

Essa transição de carreira se tornou especialmente significativa quando visitei a Prefeitura Autônoma da Etnia Lisu de Nujiang, na Província de Yunnan, sudoeste da China, durante o Fórum Internacional sobre Governança da Pobreza e Desenvolvimento Global de 2025. O que encontrei ali foi mais do que estudos de caso ou métricas de sucesso. Encontrei histórias que me pareceram profundamente familiares para um brasileiro. E vi também abordagens que desafiaram o que eu pensava ser possível.

De fora, a erradicação da pobreza na China costuma ser resumida em números. Quase 800 milhões de pessoas saíram da pobreza até 2021, como parte da primeira meta centenária do país de construir uma sociedade moderadamente próspera em todos os aspectos, coincidindo com o centenário da fundação do Partido Comunista da China naquele mesmo ano. Regiões inteiras foram transformadas por meio de infraestrutura, políticas sociais e planejamento de longo prazo.

Mas os números, por si sós, não mostram o que se sente ao caminhar por uma escola onde todos os alunos recebem refeições gratuitas. Ou ao conhecer mulheres que agora ganham a vida costurando bolas de beisebol ou tecendo tecidos étnicos tradicionais que são vendidos no exterior. Esses são os momentos que humanizam as estatísticas. Em Nujiang, vi a política se transformar em ação. Vi a diferença entre imaginar soluções e vivê-las.

Especiarias, café, ciência e empreendedorismo – Na vila de Shangjiang, em Lushui, visitei o Parque Industrial de Especiarias Verdes de Nujiang. Ele é administrado pela China Communications Construction Co., a CCCC, e ocupa 664 ha, dos quais 65 já estão desenvolvidos. Mas este não é um parque industrial típico. Ele foi projetado segundo um modelo espacial que integra produção, pesquisa, turismo e mercado em um só lugar.

O destaque é o cardamomo vermelho, valorizado por sua versatilidade em petiscos, cosméticos e medicina tradicional. Em 2024, gerou 2,29 bilhões de yuans (US$ 315 milhões) em receita. Mas não é a única cultura próspera da terra. Mais de 140 variedades de especiarias são cultivadas no parque, além de uma crescente indústria local de café.

Vindo do Brasil, uma potência na produção de café, eu fiquei genuinamente impressionado com o sabor do café de Yunnan. É o melhor que já experimentei fora do Brasil até agora. O que chama ainda mais atenção é a criatividade em torno dele. Os produtores não vendem apenas grãos ou pó; desenvolveram aperitivos e até mel de café. Esse tipo de inovação transforma um produto em plataforma, e criatividade em renda.

Falando em inovação, vale destacar a função do parque: não é apenas plantar e colher. Trata-se de criar um ecossistema colaborativo onde agricultores, cientistas, empresas e turistas têm espaço. O parque trabalha em parceria com a Academia Chinesa de Ciências Agrícolas Tropicais para desenvolver novas variedades, melhorar a produtividade e ensinar métodos sustentáveis.

Mais de mil pessoas trabalham ali, muitas em regime de meio período, permitindo participação flexível. Há também um centro de treinamento, uma incubadora de startups e infraestrutura que apoia o desenvolvimento de pequenos negócios. Visitantes podem caminhar pelos campos, provar as especiarias e ver de perto como a indústria rural pode prosperar quando é inclusiva. Para o Brasil, onde o desenvolvimento rural muitas vezes sofre com fragmentação e infraestrutura precária, esse modelo é inspirador e extremamente relevante. Não se trata apenas de cultivar. É sobre repensar como comunidades e economias podem crescer juntas.

Tecelagem Dulong: cultura como meio de vida – Com uma população de pouco mais de 7.300 pessoas, os Drung são um dos grupos étnicos menos numerosos entre os 56 reconhecidos na China. Eles vivem principalmente em Nujiang.

Ao visitar a comunidade Drung, esperava conhecer uma tradição. Não esperava ver como essa tradição estava sendo transformada em um ofício moderno, geradora de renda e com alcance global.

O povo Drung sempre passou adiante a arte da tecelagem, com cada tecido contando uma história por meio de cores, texturas e técnicas. Mas, até recentemente, esses tecidos raramente saíam da região. Isso começou a mudar em outubro de 2024, quando a empresa Zhimeng, com apoio local, passou a trabalhar com líderes comunitários e parceiros do governo para transformar a tecelagem em uma fonte viável de renda.

Até agora, mais de 3,5 mil m de tecido foram produzidos, com preços entre 80 yuans (US$ 11) e 150 yuans (US$ 21) por metro. Cerca de 110 mulheres atuam como artesãs, construindo renda com habilidades enraizadas em sua identidade étnica.

Como compartilhou com orgulho Huang Jieying, primeira secretária da comunidade Tuanjie, no subdistrito de Liuku, em Lushui, onde vivem pessoas de sete etnias, incluindo os Drung: “A Starbucks demonstrou interesse em incorporar elementos Drung em seus produtos. Uma parceria já está em fase
de seleção”, disse ela.

Esse não é apenas um projeto econômico. É empoderamento cultural. Aqui, tecer conecta passado e presente, orgulho e profissão. As mulheres que conheci não estavam apenas preservando uma tradição. Estavam transformando-a em futuro. E o que mais me marcou foi que a dignidade estava em toda parte – não como conceito abstrato, mas visível nas mãos que moldam esses padrões e nas redes que as apoiam.

Um sistema educacional mais justo e inteligente – Na Escola Secundária Minzu, em Lushui, vi o que significa investir em educação – não apenas em prédios ou currículo, mas na vida dos estudantes. Fundada em 1986, a escola atende mais de 1,3 mil alunos, dos quais 99% pertencem a grupos étnicos minoritários como os Lisu e os Drung.

A mensalidade e as refeições são totalmente gratuitas, para que nenhum aluno fique para trás por motivos financeiros. Só isso já é impressionante. Mas o que chamou minha atenção foi como a tecnologia é usada, não para substituir educadores, mas para apoiá-los.

Com apoio da CCCC e da empresa chinesa de tecnologia da informação iFLYTEK, a escola adotou soluções de sala de aula inteligente – feedback de aprendizagem em tempo real, planos de ensino personalizados e instrução multimídia. Os professores conseguem identificar rapidamente onde um aluno está com dificuldades e ajustar a aula.

Os estudantes interagem com assistentes baseados em inteligência artificial, tablets e plataformas digitais que acompanham o progresso e sugerem estratégias de estudo. Essa visita me lembrou de que tecnologia e cuidado humano podem coexistir. Que uma educação enraizada no orgulho cultural não é um luxo, mas uma necessidade.

Um espelho, não um modelo – Enquanto passava por essas escolas, fábricas e oficinas, eu pensava no Brasil. A geografia é diferente, mas os desafios são parecidos. O que a China oferece não é uma solução pronta, mas um exemplo do que é possível quando visão, coordenação e continuidade se encontram.

Saí de Nujiang me sentindo mais conectado, não só à China, mas ao Brasil. O que vi ali não foi perfeição, mas progresso. Não foram slogans, mas estratégias. Como jornalista, estou comprometido em contar essas histórias com empatia e clareza. Como brasileiro, carrego uma esperança
silenciosa de que também possamos aprender, adaptar e construir.

Combater a pobreza não é um momento. É um processo, que exige honestidade, imaginação e uma visão compartilhada de dignidade. Nujiang me lembrou de que a transformação é possível quando pessoas e políticas se alinham. E que compartilhar essas histórias não é apenas relatar mudanças. É ajudar a fazê-las acontecer.

Este texto foi publicado originalmente na revista China Hoje. Clique aqui, inscreva-se na nossa comunidade, receba gratuitamente uma assinatura digital e tenha acesso ao conteúdo completo.

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