Num barracão de dez metros quadrados com teto de zinco, numa comunidade de São Gonçalo, a cerca de 40 quilômetros do Rio de Janeiro, dezenas de crianças e adolescentes de quimonos gastos treinam jiu-jitsu. A mais de 18 mil quilômetros dali, numa academia no centro de Shanghai, um ex-aluno do mesmo tatame ensina a técnica a alunos chineses.
Renan Vieira, de 25 anos, mudou-se há dois meses para a China para dar aulas em tempo integral na BUSHIDO Gym. A trajetória dele virou referência para os jovens do projeto onde começou, num município marcado pela violência e pela falta de oportunidades. E ele não deve ser o último: um movimento de recrutamento já leva outros faixas-pretas da comunidade para o mercado chinês.
Do luto ao tatame
Renan tinha 10 anos quando perdeu o pai. Retraído, quase não falava nem brincava com outras crianças. A mãe trabalhava em turnos sem folga. Por indicação médica e da família, ele começou a treinar jiu-jitsu e, pelo esporte, chegou ao projeto social Vencedores em Cristo.
No início, faltava dinheiro até para o quimono: três ou quatro crianças dividiam o mesmo. “Eu ia para o treino só para poder jantar no projeto”, lembra ele, que diz ter feito isso para aliviar o peso sobre a mãe. O tatame virou rotina e projeto de vida. Renan chegou à faixa preta e, segundo seu relato, conquistou três títulos brasileiros pela Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu e uma prata no Campeonato Europeu da Federação Internacional de Jiu-Jitsu Brasileiro.
Em São Gonçalo, conta, cresceu ouvindo que o crime era o único caminho e vivendo com medo de assalto e de morrer. Em Shanghai, diz, consegue andar à noite pelas ruas com tranquilidade e trabalhar todos os dias com o que gosta.
Um projeto com 300 alunos
O Vencedores em Cristo foi criado em 2008 por Rogério Moura, hoje com 48 anos e professor de Renan. A ideia era ocupar crianças que estavam nas ruas, algumas já envolvidas com o tráfico. Hoje o projeto tem três polos e cerca de 300 alunos, da faixa branca à preta. Para Moura, o objetivo principal é formar bons cidadãos e mostrar que “o Jiu-jitsu dá oportunidade de vida e pode ser uma ferramenta de trabalho”. Muitos ex-alunos já dão aulas pelo Brasil e pelo exterior. A China abriu uma frente nova.
Por que a China busca professores brasileiros?
A popularidade do UFC e de lutadoras chinesas como Zhang Weili, campeã da organização, transformou o jiu-jitsu brasileiro numa tendência fitness nas grandes cidades chinesas. O crescimento gerou falta de instrutores faixa-preta qualificados.
Foi aí que entrou Saulo, empresário brasileiro que, segundo o relato, passou os últimos 14 anos montando uma rede de 22 academias de jiu-jitsu na China, entre elas a BUSHIDO Gym. Nos últimos dois anos, ele passou a recrutar os principais talentos do projeto de Moura.
Para Saulo, os professores brasileiros levam aos alunos chineses o valor da resiliência. Em troca, afirma, a China oferece a esses atletas “uma plataforma segura e digna para transformar uma década de garra em uma carreira”. Renan descreve a mudança como surreal. Elogia a educação das pessoas, os pontos turísticos e a dedicação dos alunos, e diz viver um estilo de vida que considerava impossível.
Para ele, o esporte pode funcionar como ponte cultural entre os dois países. A demanda pelo jiu-jitsu na China e na Ásia é alta, avalia, e repete o crescimento que a modalidade já teve na Europa e no Oriente Médio.







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