A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva para um quarto mandato é um feito inédito na história da democracia brasileira. Mas sua vitória adquire um significado que transcende a longevidade política de um presidente. As eleições de 2026 ocorreram em circunstâncias excepcionais, marcadas pela intensa polarização interna, pela força da direita no Congresso Nacional e, sobretudo, pela crescente projeção da disputa geopolítica entre os Estados Unidos e a China sobre a América Latina.
Lula não disputou apenas uma eleição contra Flávio Bolsonaro. Sua candidatura enfrentou um ambiente internacional no qual o governo de Donald Trump demonstrou clara preferência pela vitória de forças políticas latino-americanas alinhadas a Washington. Além disso, algumas big techs favoreceram o candidato da oposição por meio de seus algoritmos nada neutros. A derrota de Flávio Bolsonaro representa, portanto, um revés para a estratégia política de Trump na região e para as big techs que queriam um Brasil sem qualquer regulamentação no setor.
Desde que Washington voltou a invocar abertamente uma nova Doutrina Monroe em sua Estratégia de Segurança Nacional, publicada em 2025, a política norte-americana em relação à América Latina adquiriu contornos mais intervencionistas. Tarifas, sanções, restrições de vistos, pressões diplomáticas e econômicas e, no caso mais extremo da Venezuela, a ameaça e o emprego da força passaram a compor um repertório de instrumentos destinados a reafirmar a primazia dos Estados Unidos no chamado Hemisfério Ocidental.
O Brasil foi submetido a algumas dessas pressões. O governo Trump adotou medidas contra autoridades brasileiras, impôs tarifas elevadas e buscou transformar questões políticas e judiciais internas do Brasil em temas da relação bilateral. O objetivo político tornou-se progressivamente transparente: enfraquecer o governo Lula e favorecer as forças associadas à família Bolsonaro. O resultado eleitoral mostrou, porém, os limites dessa estratégia.
A pressão externa dos EUA não produziu o efeito esperado sobre as instituições brasileiras. O Supremo Tribunal Federal continuou julgando os processos sob sua competência. A economia brasileira não entrou em colapso em decorrência das medidas norte-americanas e até ampliou o seu comércio exterior com outros países. E, principalmente, uma parcela decisiva da sociedade reagiu à percepção de que a eleição envolvia algo maior do que a escolha entre dois candidatos: estava em discussão a capacidade do Brasil de tomar suas próprias decisões e ter um Presidente que governasse para o povo brasileiro, e não para a Casa Branca. É nesse contexto que se compreende uma das frases mais importantes de Lula durante a campanha: o Brasil não será o “quintal” de nenhum país.
No primeiro turno, Lula ficou atrás de Flávio Bolsonaro. Nem Lula nem o PT esperavam este resultado. Para piorar, lideranças importantes do Partido dos Trabalhadores tiveram desempenhos decepcionantes nas urnas, enquanto o PL (o partido da família Bolsonaro) obteve representação expressiva na Câmara dos Deputados e no Senado. Durante alguns dias, a esquerda brasileira pareceu desorientada. Foi então que ocorreu um fenômeno político inesperado.
No dia seguinte ao primeiro turno, estudantes da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, lideraram uma manifestação estudantil nas ruas em defesa da democracia e contra a extrema-direita. O movimento encontrou imediata ressonância entre jovens de outras cidades e passou a mobilizar pessoas em diferentes partes do país. Há uma diferença fundamental entre esse movimento e mobilizações tradicionais da esquerda brasileira em eleições anteriores. Ele não nasceu de uma convocação centralizada de um partido ou de um sindicato. A mobilização surgiu da decisão corajosa e espontânea da juventude brasileira que foi acompanhada por vários setores da sociedade.
Paralelamente, desenvolveu-se uma experiência inédita de mobilização digital. O deputado André Janones, que não é do PT, mas sim do partido Rede, articulou uma multidão de apoiadores, conhecida como “Exército do Lula”, que buscou organizar a atuação de mais de 10 milhões de pessoas por meio de um único canal no Whatsapp. Em vez de simplesmente produzir conteúdo, a estratégia procurava orientar diariamente os participantes sobre como ampliar determinadas mensagens e evitar alimentar os mecanismos de engajamento da extrema-direita. Por fim, vale mencionar a mobilização de eleitores idosos. Imagens de brasileiros com mais de 80 ou 90 anos comparecendo às urnas adquiriram enorme força simbólica. Muitos daqueles eleitores haviam vivido períodos autoritários da história brasileira e decidiram participar de uma eleição percebida como decisiva para o futuro democrático do país e para as próximas gerações.
Por tudo isso, seria insuficiente interpretar o resultado como uma vitória do PT e dos partidos que o apoiaram. Lula foi o candidato, mas a mobilização social que emergiu entre os dois turnos ultrapassou os partidos. O resultado do segundo turno mostrou que, em última instância, é o povo quem é dono da política e do país. Nesse sentido, a mensagem das urnas também pode ser lida em termos de soberania: o território brasileiro pertence aos brasileiros, e as escolhas estratégicas do Brasil devem ser tomadas no Brasil.
Aqui reside um dilema importante para a política externa norte-americana em relação ao Brasil. Os Estados Unidos possuem legítimos interesses econômicos e estratégicos na América Latina. O problema surge quando a defesa desses interesses passa a ser percebida pelas sociedades latino-americanas como uma tentativa de determinar suas escolhas políticas internas. Tarifas, sanções e pressões podem produzir resultados imediatos em países mais vulneráveis. Mas também podem gerar um efeito contrário: transformar a autonomia nacional em tema eleitoral e estimular sentimentos de resistência à própria influência norte-americana.
Esse risco torna-se ainda maior quando Washington apresenta sua disputa com Pequim como uma escolha binária: ou os países latino-americanos estão com os Estados Unidos ou com a China. Para o Brasil, essa alternativa é artificial. A China é o principal parceiro comercial do Brasil e um mercado indispensável para setores fundamentais da economia. Os Estados Unidos, por sua vez, continuam sendo uma fonte importante de investimentos, tecnologia e financiamento. O interesse brasileiro não consiste em substituir uma dependência por outra. Assim, seria equivocado interpretar a reeleição de Lula como garantia permanente das relações sino-brasileiras ou imaginar que uma futura vitória da extrema-direita significaria necessariamente o colapso dessas relações.
A relação entre Brasil e China adquiriu fundamentos estruturais. O Brasil fornece soja, minério de ferro, petróleo, carnes e outros produtos fundamentais para a economia chinesa. A China fornece ao Brasil máquinas, equipamentos, produtos industriais, tecnologias e bens de capital. Mais importante ainda, a relação bilateral deixou de ser apenas comercial. Empresas chinesas investem em energia, infraestrutura, mineração, indústria, tecnologia e no setor automobilístico. BYD e Great Wall Motor, por exemplo, não estão simplesmente vendendo automóveis chineses no mercado brasileiro. Ao instalar capacidade produtiva no país, contratar trabalhadores, desenvolver fornecedores e pagar impostos, essas empresas passam a integrar o próprio ecossistema industrial brasileiro.
A reeleição de Lula pode ser decisiva para aprofundar esta relação com a China. Para isso, é necessário distinguir a “China econômica” da “China estratégica”. Agricultura, mineração tradicional, petróleo, manufatura, veículos elétricos e grande parte das energias renováveis dependem fundamentalmente da complementaridade econômica. São relações altamente resilientes. A situação muda em setores como ferrovias, portos, logística e transmissão de eletricidade, pois envolvem infraestrutura estratégica. E torna-se ainda mais sensível quando chegamos às telecomunicações, à inteligência artificial, à computação em nuvem, aos semicondutores, às tecnologias espaciais e aos minerais críticos. É nesses setores que a competição entre os Estados Unidos e a China deverá se intensificar. O Brasil estará no centro dessa disputa.
A reeleição de Lula não significa que o Brasil tenha feito uma escolha geopolítica a favor da China. Seu significado é outro. O eleitor brasileiro rejeitou, nesta eleição, a ideia de que a inserção internacional do país deva ser determinada pelo alinhamento automático a uma grande potência, no caso, os EUA, como era desejo do Flavio Bolsonaro. Isso preserva uma tradição fundamental da política externa brasileira: a busca por autonomia.
Para os Estados Unidos, o resultado da eleição deveria provocar reflexão. Uma América Latina mais autônoma não precisa ser uma América Latina antiamericana. E uma política norte-americana que procure impor alinhamentos por meio de sanções, tarifas e interferência política pode acabar produzindo exatamente o que pretende evitar: sociedades mais desconfiadas de Washington e mais determinadas a diversificar suas relações internacionais.
A eleição brasileira de 2026 deixa, portanto, uma mensagem que interessa muito além das fronteiras do país. O Brasil continuará negociando com Washington. Continuará aprofundando sua relação econômica com Pequim. Continuará participando dos BRICS. Continuará dialogando com a Europa, a Ásia, a África e a América Latina. Mas pretende fazer essas escolhas de acordo com seus próprios interesses. A reeleição de Lula não elimina as profundas divisões políticas no Brasil. A direita permanece muito forte no Congresso e o novo governo enfrentará dificuldades para executar sua agenda. Mas uma nova geração de cidadãos já deixou claro que o radicalismo político extremista, que dissemina ódio e fake news, terá sempre de enfrentar a soberania popular e as leis do país.
Por Evandro Menezes de Carvalho. Professor Convidado da Universidade Politécnica de Macau (UPM) e Professor Associado da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF).







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