De robôs que fazem sanduíche a joias que conectam casais à distância, a edição deste ano da IFA Berlim — uma das maiores feiras de eletrônicos de consumo e eletrodomésticos do mundo — deu um retrato de um futuro próximo cada vez mais moldado pela inovação chinesa.
Dos mais de 1.900 expositores no evento de cinco dias, quase metade veio da China, tornando sua presença difícil de ignorar em qualquer canto do pavilhão. Mais relevante que o volume, foi uma mudança mais ampla na forma como essas empresas inovam: elas estão levando tecnologias do protótipo de laboratório para a aplicação comercial em menos tempo, construindo ecossistemas domésticos interconectados e desenvolvendo tecnologia de consumo cada vez mais personalizada.
Robôs saindo do laboratório para a vida real na IFA
Os robôs humanoides ofereceram talvez o sinal mais evidente dessa mudança. No estande da Unitree Robotics, humanoides se movimentaram em formação ao ritmo de música, enquanto outro cumpriu uma tarefa bem mais corriqueira: preparar um sanduíche, pegando fatias de pão, adicionando alface e empilhando as camadas com cuidado. Ao lado, os robôs em formato de panda da Dobot Robotics dançavam de um lado para o outro, atraindo visitantes com seus movimentos lúdicos.
No estande da PrimeBOT na IFA, um humanoide de 88 centímetros de altura, o PrimeBOT Q1, chamou atenção com uma sequência fluida de golpes de artes marciais. Ao lado, o PrimeBOT T1 demonstrou outra capacidade: em poucos segundos, passou de uma postura humanoide bípede para uma configuração de quatro pernas, surpreendendo o público.
Para Zou Jiyuan, diretor de marketing para mercados internacionais da PrimeBOT, a China está movendo os robôs rapidamente do laboratório para os mercados industrial e de consumo — um ritmo que ele atribui à base manufatureira extensa e às cadeias de suprimento bem desenvolvidas do país, que permitem às empresas de robótica encurtar ciclos de desenvolvimento, reduzir custos e iterar produtos mais rápido.
Da casa inteligente ao ecossistema conectado
O esforço para aproximar a tecnologia do cotidiano foi além da robótica. No setor de eletrodomésticos, empresas chinesas apresentaram não apenas produtos mais inteligentes, mas ambientes de convivência inteiros construídos ao redor deles.
A TCL transformou seu estande na IFA em uma prévia da casa do futuro: telas grandes, óculos de realidade aumentada que trazem conteúdo digital diretamente ao campo de visão, um ar-condicionado com IA que ajusta o conforto do ambiente conforme as condições do cômodo e uma máquina de lavar que identifica o tipo de tecido e o tamanho da carga para adaptar o ciclo de lavagem.
Segundo Daniel Sun, CTO da TCL Industries, o que a empresa apresenta é mais do que uma coleção de produtos inteligentes — é uma visão de como as pessoas podem viver na era da IA, com diferentes dispositivos funcionando em conjunto ao redor de necessidades reais do dia a dia. Ele destacou que essa mudança de produtos isolados para experiências baseadas em cenários reflete uma evolução mais ampla da indústria chinesa de eletrodomésticos, que hoje combina escala de manufatura com design, software e integração de sistemas.
A Hisense seguiu abordagem semelhante, com um sistema doméstico com IA que conecta TVs, geladeiras, ares-condicionados e outros aparelhos. Em uma demonstração, um pedido simples — “quero assistir ao jogo hoje à noite” — fez o sistema coordenar iluminação, temperatura do ambiente e um lembrete de pedido de comida por delivery.
Para Yan Ronghua, responsável pelas operações internacionais de portfólio da Hisense Global Commercial Center, as empresas chinesas estão ativamente redefinindo como a tecnologia pode remodelar o cotidiano das pessoas — uma marca registrada desta edição da IFA.
Inovação em nichos na IFA: personalização como nova fronteira
Além de robôs e casas conectadas, empresas chinesas também avançaram sobre nichos mais específicos do consumo tecnológico. No estande da marca de joalheria inteligente TOTWOO da IFA, a inovação chinesa ganhou uma expressão mais íntima: pulseiras e colares conectados por Bluetooth a um aplicativo, que transformam um simples toque em um sinal capaz de atravessar a distância — ao tocar em uma peça, a peça correspondente acende e vibra em resposta.
Wang Jieming, fundador e CEO da TOTWOO, descreveu essa aposta em espaços de alta carga emocional como parte de uma tendência mais ampla: apoiadas em cadeias de suprimento de hardware maduras e avanços em IA, marcas chinesas estão indo além de categorias consagradas como smartphones e eletrodomésticos.
Para Ye Can, responsável pela operação europeia da WeBranding Global — consultoria que ajuda empresas chinesas a se internacionalizarem —, a competitividade dessas empresas vem da combinação entre força de cadeia de suprimentos, inovação tecnológica e eficiência operacional. Segundo ele, a mudança também reflete uma transformação mais profunda: empresas chinesas estão deixando de apenas vender produtos no exterior para construir marcas e presença de longo prazo em mercados globais.
Além da IFA, os robôs chineses, já chegaram ao Brasil?
Chegaram — e por dois caminhos diferentes. A Unitree, protagonista dos números de dança e artes marciais na IFA, já tem seus produtos no país desde 2024, importados pela empresa catarinense Gohobby: o primeiro humanoide multitarefas da marca foi comprado pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), e o cão-robô Go2 já apareceu até nas redes sociais do DJ Alok.
Mais recente é a chegada de outra fabricante chinesa de robôs ao mercado brasileiro: a AiMOGA, braço de robótica da montadora Chery, anunciou em agosto que vai vender o humanoide Mornine — usado como atendente em concessionárias das marcas Omoda e Jaecoo — e o cão-robô Argos, voltado ao público final, a partir do quarto trimestre de 2026. Os dois produtos já têm homologação da Anatel para comercialização no país.







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