A nova bússola: Vivências, e não apenas lugares turísticos, impulsionam o mercado chinês de turismo

Por Tao Zihui

Ao final do feriado prolongado do Dia do Trabalhador de 2026, o registro oficial feito pelo Ministério dos Transportes da China em 5 de maio parecia, à primeira vista, retratar um crescimento constante, previsível. De 1º a 5 de maio, o tráfego inter-regional de passageiros atingiu impressionantes 1,525 bilhão de viagens, com uma média diária de 305 milhões de viagens e um aumento de 4% em relação ao ano anterior. Para entender melhor o sentido dessa escala descomunal, basta dizer que o número de viagens nesses cinco dias equivale a mais de quatro vezes a população dos Estados Unidos.

E por trás dessa agitada multidão há um ponto de virada, sutil, mas inegável, na lógica do lazer chinês. Na noite de 5 de maio, no Aeroporto Internacional Chengdu Shuangliu, em Chengdu, Província de Sichuan, um estudante de pós-graduação de 25 anos, de sobrenome Du, compartilhava com amigos alguns destaques de sua viagem. Ele mostrou-lhes uma lembrança física: um ingresso de um show no Parque Esportivo do Lago Dong’an, em Chengdu. Seu testemunho sobre o Dia do Trabalhador, como declarou à Beijing Review, foi curto e assertivo: havia assistido por três noites consecutivas às apresentações de Nicholas Tse – um cantor, ator e ícone pop asiático de Hong Kong que desfruta de enorme popularidade nas regiões de língua chinesa – e depois passara uma manhã na Cidade Internacional de Animação de Tianfu, em Chengdu, assistindo desfiles de robôs gigantes, seguidos por sessões à meia-noite de chuanchuan apimentados (iguarias no espeto) às margens do rio Jinjiang, que atravessa a cidade.

Não houve caminhadas por locais históricos superlotados, nem horas na fila para conseguir uma foto imperdível. Cada centavo gasto havia sido ajustado com precisão aos seus interesses pessoais e àquilo que para ele exercia forte apelo emocional.

Du faz parte de uma pequena fatia da vasta população que viaja no feriado, mas representa a vanguarda. À medida que a Geração Z, no momento o motor indiscutível do consumo chinês, começa a reorganizar os megadados à própria imagem, cristaliza-se uma nova lógica da economia dos feriados, que é baseada em certeza e conexão.

Nascer do sol na área panorâmica da Montanha Mingsha e da Fonte Crescente, em Dunhuang, Província de Gansu. (XINHUA/ Revista China Hoje)

Cidade pequena, alma grande – Enquanto os feriados anteriores do Dia do Trabalhador tinham foco principalmente em atrações tradicionais e circuitos turísticos estabelecidos, o de 2026 será lembrado pela “expansão descendente”. A tendência do turismo reverso, isto é, de escolher destinos fora do radar em vez dos monumentos e marcos famosos, promove uma remodelação fundamental na ecologia do mercado.

Às 6h30 do dia 4 de maio, enquanto grande parte do país dormia, na Feira de Niutouya, no distrito de Beidaihe, em Qinhuangdao, Província de Hebei, norte da China, já se ouvia a cacofonia de sons da atividade comercial. Tradicionalmente, essas daji (feiras rurais) são mercados temporários onde os moradores locais comercializam produtos frescos e gêneros de primeira necessidade, e mostram um bom retrato da vida no norte da China. Embora Beidaihe seja historicamente famosa como um refúgio à beira-mar para a elite, este ano, a Feira de Niutouya se tornou, surpreendentemente, um local badalado.

Jovens influenciadores com seus celulares equipados com câmeras gimbal e gente de fora da cidade arrastando malas: eram essas as novas caras da feira. O ar ficou preenchido por sotaques poliglotas de Pequim, Tianjin e do nordeste da China. As filas para youbing (roscas gigantes de massa frita) se estendiam a perder de vista, com jovens turistas segurando celulares no alto para capturar o espetáculo de um doce dourado maior que uma bacia tomando forma.

“Sempre achei que Beidaihe tinha a ver apenas com a praia e com frutos do mar caros”, disse Gao Lei, que veio de Pequim com a família, à Beijing Review. “Mas essa feira foi a maior surpresa. Um bolo frito custa apenas 1 yuan (US$ 0,15). E você pode comer de uma ponta à outra deste lugar por menos de 50 yuans (US$ 7 dólares). É só alegria.”

Este lugar não tem cenários preparados, apenas a vibração fragrante e autêntica da vida local. Ainda assim, é justamente essa vibração local que vem se tornando o luxo mais procurado nas viagens modernas. Um relatório sobre o consumo de 5 de maio da Meituan, uma das principais plataformas de serviços online da China, confirma a mudança: durante o feriado, as buscas por “recomendações de comidas locais” em seu aplicativo aumentaram 122%.

Essa onda de turismo reverso não é mais um caso isolado. Dados da Meituan mostram também que o crescimento do tráfego de passageiros foi mais acelerado em cidades pequenas e médias.

Curiosamente, mais de um quarto dos usuários utilizou o Xiaotuan, o planejador de viagens com IA da Meituan, especificamente para encontrar destinos de nicho e pouco lotados.

Os números contam a história. As reservas de hotéis em Jingdezhen, a lendária cidade de porcelana da China na Província de Jiangxi, aumentaram 36%, e Yibin, conhecida como a Cidade das Bebidas Alcoólicas de Sichuan, registrou aumento de 27%. Datong, um bastião cultural histórico na província de Shanxi, viu seu número subir 26%.

De acordo com uma pesquisa publicada pela Qunar, grande agência de viagens online, os viajantes agora priorizam o interesse pessoal e a qualidade da experiência em lugar do ranking de popularidade online.

No aplicativo 12306, a plataforma chinesa de reservas de trens, os bilhetes para rotas quentes de curta distância esgotavam-se em segundos, e muitas vezes se mostravam mais difíceis de conseguir que os de longa distância.

Os jovens chineses em particular buscam agora extrair novas experiências de cidades conhecidas ou curtir um relaxamento em ritmo mais lento em cidades vizinhas. “O objetivo de um feriado não é viajar mil km para ficar olhando a parte de trás da cabeça de outra pessoa; é para se desligar da rotina e saborear a própria vida”, disse Du.

“O consumo baseado em experiências ao longo de toda a cadeia, abrangendo alimentação, hospedagem, viagens, compras e entretenimento, e a integração de negócios, cultura, turismo, esportes e exposições, são a força que estimula a vitalidade mais profunda da demanda interna”, disse Dong Yu, vice-diretor executivo do Instituto Chinês de Planejamento de Desenvolvimento da Universidade Tsinghua, à agência Xinhua.

Barcos cruzam as águas próximas à Ilha Phoenix, em Sanya, Província de Hainan. (Revista China Hoje)

Novos marcos psicológicos – Essa busca por experiências deslocou o motor do consumo da ênfase em localidades para a ênfase em eventos. Um jogo de futebol, uma apresentação teatral ou um concerto além fronteiras, são esses os novos destinos.

Apresentações e eventos esportivos estão se tornando marcos psicológicos. As pessoas estão deixando de visitar um lugar e passaram a viajar movidas por um evento. Dados da Meituan revelam que durante o feriado do Dia do Trabalhador os pedidos relacionados a shows e eventos esportivos aumentaram 88% e 185%, respectivamente.

Na Província de Jiangsu, o fervor inesperado pelas partidas da liga local amadora de futebol, a Su Chao, promoveu um aumento de 40% nos pedidos de pratos da culinária Huaiyang, uma das quatro grandes tradições culinárias da China, originária desta província. Em Nanjing, a capital provincial, as buscas pelo icônico pote tradicional de vermicelli (macarrão em fios muito finos) de Nanjing aumentaram 30%. Enquanto isso, em Luzhou, Sichuan, o Festival de Música Super Galaxy Left Bank foi o único responsável por aumentar em 40% as reservas de hotéis e pousadas locais

Esse boom estimulado pelo conteúdo se estendeu até às telonas. De acordo com a Administração de Cinema da China, em 5 de maio, a bilheteria do feriado havia alcançado 758 milhões de yuans (US$ 111 milhões), com mais de 18,91 milhões de ingressos vendidos. O modelo Film Plus está evoluindo: os roadshows permitem que o público interaja com os criadores, transformando locais de filmagem em pontos de encontro para experiências.

Essa tendência também está se tornando global. Com o lançamento da MAISEAT, a plataforma internacional de ingressos Damai da gigante do comércio eletrônico Alibaba, a participação em eventos além fronteiras foi extremamente facilitada. Zheng Xiaobo, chefe das operações internacionais da Damai, disse à Beijing Review que eles começaram nos mercados do Sudeste Asiático, Japão e República da Coreia, “trazendo para o mundo sua expertise em serviços de ingressos e em capacidades tecnológicas, comprovadas no mercado chinês”.

O que há com certeza – Enquanto as pequenas cidades domésticas prosperam graças ao seu fator de atenuação, a sutil mudança nas viagens ao exterior este ano é impulsionada por um luxo diferente: a segurança. A China registrou um aumento nas viagens transfronteiriças durante o feriado do Dia do Trabalhador, com quase 11,3 milhões de viagens, graças também a um aumento no número de visitantes internacionais, incluindo os que entraram sem visto.

A média das travessias de fronteira foi de cerca de 2,26 milhões por dia nos cinco dias de feriado, um aumento de 3,5% em relação ao ano anterior e com um pico em 2 de maio, informou a Administração Nacional de Imigração em 6 de maio.

No entanto, para viagens ao exterior de longa distância, a história é mais complexa. Tian Yuan, residente em Pequim, planejava ir a Singapura em 2 de maio. No entanto, duas semanas antes da partida, a companhia aérea cancelou seu voo não uma vez, mas duas. Quando conseguiu reservar outra passagem, os preços já haviam ultrapassado seu orçamento, disse ele à Beijing Review.

A experiência de Tian não é única. Segundo a Flight Manager, uma plataforma líder de serviços de dados de viagens aéreas, em 15 de abril, a taxa de cancelamento de voos internacionais regulares durante o feriado do Dia de Maio de 2026 era de 7,4%, um aumento significativo em relação ao ano anterior.

Quando cancelamentos de voos, aumento dos preços das passagens e flutuações geopolíticas convergem, ocorre uma mudança profunda: as pessoas não estão mais apenas planejando uma viagem; estão avaliando um risco.

Nas plataformas das redes sociais chinesas, a antiga febre viral de multidões em pontos pitorescos deu lugar a avaliações de segurança nas viagens transfronteiriças. Em vez de apenas querer saber qual destino tem o pôr do sol mais deslumbrante, os viajantes chineses estão avaliando seriamente os riscos de segurança e a confiabilidade das rotas aéreas ao planejar viagens ao exterior.

Essa mudança nas escolhas de viagem está remodelando os padrões do turismo global. Para evitar incertezas, viajantes racionais preferem destinos de curta distância, mais frequentes e confiáveis em termos de segurança. Os dados sobre viagens ao exterior do Airbnb no Dia do Trabalhador revelam que as buscas relacionadas à República da Coreia aumentaram cinco vezes e as do Vietnã dobraram, em comparação com o feriado do ano passado. Esses países próximos, com voos curtos, serviços estáveis e perfis de segurança fortes, emergiram como as escolhas internacionais mais procuradas em 2026 – até agora.

A segmentação do consumidor também ficou mais diferenciada. Dados da agência de viagens chinesa online Fliggy mostram que viajantes de luxo ainda preferem destinos europeus de longa distância, como Itália e França, cuja infraestrutura turística bem desenvolvida garante maior certeza psicológica e tem apelo duradouro. Enquanto isso, as reservas para escapadas de nicho como Uzbequistão, Mongólia e Sri Lanka mais que dobraram, atraindo viajantes ansiosos para evitar as multidões e buscar experiências novas e fora do comum.

Entre as ondas e o deserto – A revolução na lógica dos feriados também se manifesta tanto no norte quantono sul da China. No sul, Gu Wei, morador de Pequim, levou sua família a Wanning, Hainan, para mergulhar nas ondas. No Iate Clube Internacional Shimei Bay, os mercados costeiros se misturavam a concertos na praia. Um representante do Escritório de Cultura e Turismo de Wanning disse à Beijing Review que o surfe e os mercados da moda continuam sendo as principais escolhas de jovens viajantes, enquanto os passeios científicos e as viagens familiares de estudos ao jardim botânico tropical se tornaram a forma preferida pelas famílias para uma conexão com a natureza.

No noroeste, à beira do deserto de Tengger, no distrito de Minqin, Província de Gansu, um grupo diferente de jovens passou as férias plantando árvores. Inspirados pelo reality show de sucesso Vire um Fazendeiro, que foca em jovens retornando à terra para praticar a cultura agrária, levas de jovens seguiram para o deserto. Dados da Meituan mostram que esse turismo de plantio de árvores gerou um aumento de 79% nas ordens de serviços locais em Minqin.

Viajantes estão redefinindo o real valor de uma experiência significativa. As descobertas da Meituan identificam dois grupos de viajantes em rápido crescimento. Os focados em momentos dignos de fotos aumentaram as reservas de serviços de maquiagem e styling em 106%, enquanto os buscadores de aventura aumentaram as buscas por surfe, montanhismo e passeios em rios. Em ambos os grupos, as pessoas não viajam mais apenas para fazer check-in em um local, mas para viver experiências pessoais e gratificantes.

O amadurecimento de um gigante – Esse longo relatório sobre o Dia do Trabalhador sinaliza claramente que o consumidor chinês está se tornando amplamente racional. Essa racionalidade não é uma recusa em gastar, mas uma questão de realizar um consumo mais preciso. “Agora priorizo descontos de pagamento e benefícios para membros. Não vou mais pagar por truques e falsas promessas”, disse Du. Para ele e milhões de outros, o feriado não é mais uma explosão efêmera de excessos, mas uma extensão dos momentos de relaxamento vividos no cotidiano.

Os dados da Meituan capturam uma imagem comovente: jovens que não conseguiram passagem de trem, pedindo à IA rotas alternativas para chegar aos destinos desejados. No fim, eles sempre acham um jeito. Essa energia fluida e essa confiança inabalável são as cores mais autênticas da atual economia turística chinesa.


Este texto foi publicado originalmente na revista China Hoje. Clique aqui, inscreva-se na nossa comunidade, receba gratuitamente uma assinatura digital e tenha acesso ao conteúdo completo.

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