O valor das experiências

Emoção e conexão pessoal estão na base do desejo do consumidor

Por Yuan Yuan

Um jantar no restaurante Shuyanfu em Chengdu, capital da Província de Sichuan, é como fazer uma imersão na história. A experiência vai bem além do programa convencional de comer fora; é um banquete à moda antiga – um mergulho multissensorial nos esplendores do passado imperial chinês.

A jornada começa muito antes de o primeiro prato ser servido. Os convidados normalmente chegam duas horas antes para serem transformados; o restaurante oferece um guarda-roupa com mais de 400 conjuntos de trajes tradicionais hanfu e dispõe de profissionais que complementam isso com intervenções em estilo e maquiagem. Após uma sessão no estúdio fotográfico do local, os clientes entram em um salão onde é servida a culinária de Sichuan, acompanhada por instrumentos musicais tradicionais chineses. Da decoração aos garçons, cada detalhe é cuidadosamente pensado para oferecer um autêntico sabor “antigo”.

Lu Jun, diretor de marketing do restaurante, disse ao Chengdu Business Daily que esse programa imersivo tem se mostrado excepcionalmente popular. Apesar do preço premium de 1.100 yuans (US$ 150 por pessoa), o Shuyanfu sempre lota em
suas três sessões diárias.

Restaurantes no estilo antigo estão proliferando nas grandes cidades da China. Embora esses locais estejam entre os que cobram preços mais altos, raramente ficam vazios.

A mudança macro – O boom desses restaurantes é parte de uma mudança maior nos padrões de consumo da China: passou-se da compra de produtos para a compra de experiências. Essa “economia da experiência” deixou de ser uma tendência de nicho; é uma evolução estrutural impulsionada por uma crescente demanda por consumo personalizado e com ressonância emocional.

Embora atividades práticas como a colheita de chá e as oficinas de caligrafia façam parte há muito tempo do lazer chinês, as ofertas de hoje são fundamentalmente diferentes. A experiência moderna, estimulada pelos avanços em realidade aumentada e realidade virtual, é bem mais interativa e sofisticada tecnologicamente.

“À medida que o PIB per capita supera o limite de US$ 10 mil, as necessidades materiais básicas das pessoas passam a ser amplamente atendidas”, disse Zhang Yi, CEO da iiMedia Research, à agência Xinhua. “Nesse contexto, o consumo inevitavelmente se desloca e há então uma busca por satisfação emocional e psicológica.” A China até já superou esse limiar, com seu PIB per capita passando de US$ 10 mil em 2021 para mais de US$ 13 mil em 2025.

As implicações financeiras dessa mudança são impressionantes. De acordo com um relatório anual de desempenho de 2025, o mercado de experiências da China envolveu 18,4 trilhões de yuans (US$ 2,68 trilhões) – um aumento de 22,6% em relação ao ano anterior, superando a média global em mais de 7 pontos percentuais. Além disso, a iiMedia Research prevê que o valor de mercado da economia emocional ultrapassará 4,5 trilhões de yuans (US$ 618 bilhões) até 2029, quase dobrando seu valor de 2024. A economia da experiência, ao satisfazer necessidades emocionais, está intimamente relacionada à economia emocional.

Os formuladores de políticas movem-se tão rápido quanto os mercados. Em janeiro, o Escritório Geral do Conselho de Estado divulgou um plano estratégico que tem como alvo específico os “serviços baseados em emoções e experiências”, encarados como novos motores de crescimento. Regiões como as províncias de Hubei e Jiangxi adotaram a medida incomum de codificar termos como “valor emocional” em seus relatórios oficiais de trabalho, sinalizando um compromisso estatal com essa nova fronteira.

Essa transformação vem também remodelando outras paisagens, além da mesa de jantar. De centros urbanos a resorts rurais, o foco agora está no “espetáculo”. Um bom exemplo é Ao Longo do Rio Amarelo, uma apresentação épica imersiva de grande escala em um resort de Dezhou, Província de Shandong.

Essa produção de 70 min virou um marco do turismo regional. “Além do nosso elenco de 200 atores profissionais, montamos mais de 140 telas holográficas retráteis e 30 palcos mecânicos elevados, para criar um espaço de performance fluido e dinâmico”, disse Liu Yan, funcionário do resort, à Xinhua. O investimento valeu a pena: desde sua estreia em maio de 2025, o espetáculo atraiu quase 200 mil visitantes e elevou significativamente as taxas de ocupação dos hotéis temáticos dos arredores.

A economia da experiência também está requisitando os espaços “cotidianos” da cidade. Em 4 de abril, o Conjunto de Solistas do Conservatório Estatal Tchaikovsky de Moscou apresentou um concerto pouco convencional no alto dos telhados de um bairro histórico no distrito de Hongkou, em Xangai. Casas muito bem restauradas, no estilo das tradicionais casas de alameda, formaram um cenário autêntico e envolvente para instrumentistas de cordas de classe mundial.

A apresentação atraiu uma multidão de moradores e turistas, que se reuniram em pé, em várias fileiras, nos becos estreitos. O arranjo adaptado do clássico hino O Dique (The Bund) ecoou pelas paredes de alvenaria e despertou uma onda de nostalgia coletiva, com muitas pessoas na plateia cantarolando o hino para acompanhar os solistas.

Turistas e moradores participam de um evento de passeio pelos jardins na cidade de Tulufan (Turpan), Região Autônoma Uigur de Xinjiang. (Revista China Hoje)

Imersão industrial – A economia da experiência também está transformando as fábricas. Em Haikou, Província de Hainan, a fábrica do Coconut Palm Group passou por uma transformação radical, de polo funcional de manufatura para um vibrante local nas redes sociais. Desde o feriado do Festival da Primavera de 2026, os tours de experiência industrial tiveram forte ganho de popularidade, com multidões de moradores e turistas se aglomerando nas suas linhas de produção para testemunhar pessoalmente a coreografia rítmica encenada pelas operações de engarrafamento e embalagem.

Em toda a China, o turismo industrial está transformando sítios históricos em destinos de lazer de alto padrão. Em Qingdao, Shandong, a histórica Cervejaria Tsingtao vem há muito tempo ditando o ritmo, ao integrar adegas centenárias a salas de degustação imersivas e museus digitais (veja reportagem à pág. 32) .

“Consumidores modernos não são mais meros compradores; são testemunhas”, observa um relatório recente da Xinhua sobre a revitalização das indústrias. Ao convidar o público a conhecer seus “bastidores”, as indústrias tradicionais vêm garantindo novas fontes de receita e, mais importante, estimulando a confiança na marca por meio da transparência.

Visita à fábrica do Coconut Palm Group de Hainan, em Haikou, Província de Hainan. (Revista China Hoje)

Tranquilidade tátil – Além da grande escala do turismo imersivo, a economia da experiência está criando um espaço mais tranquilo e intimista por meio de atividades de artesanato prático.

No último ano, popularizou-se um artesanato que envolve o meticuloso arranjo de continhas de plástico em padrões. O que era um hobby de nicho evoluiu para um santuário meditativo muito apreciado por jovens urbanos.

Wang Luyi, 24 anos, morador de Shenyang, Província de Liaoning, passou a frequentar regularmente um estúdio local de bricolagem. “Isso me ajuda a esquecer todo o resto”, disse Wang à Xinhua. “Quando estou focado nas contas, a pressão dos
prazos simplesmente desaparece.”

O aumento da demanda provocou rápida transformação no cenário varejista. Dados da esfera digital confirmam essa tendência popular. No gigante do comércio eletrônico Taobao, as vendas de materiais da pixel art (arte em pixels) ultrapassaram 100 milhões de yuans (US$ 14,5 milhões) em 2025. Ao mesmo tempo, um relatório sobre tendências, realizado pela plataforma de estilo de vida RedNote (Xiaohongshu), classificou a pixel art com miçangas, junto com o crochê e joias feitas à mão, como um dos 10 hobbies mais “imprevistos” do ano, e as discussões relacionadas com esses hobbies nas redes sociais ultrapassaram 23 milhões de postagens.

Essa mudança cultural também se reflete na esfera corporativa. De acordo com a Qichacha, plataforma líder em dados empresariais, foram registradas em 2025 nada menos que 6.955 novas empresas envolvidas com artesanato – um aumento de 31% em relação ao ano anterior.

A combinação do patrimônio cultural imaterial com o artesanato também se tornou um dos motores da economia da experiência. No distrito de Shexian, Província de Anhui, as tradicionais lanternas em forma de peixe, antes vistas como um “artesanato rústico” que era praticado durante o Festival da Primavera, evoluiu para um ecossistema sofisticado e impulsionado pela experiência. Em vez de serem apenas uma parte do desfile do Festival da Primavera, as lanternas em forma de peixe são agora a âncora de uma rede de pousadas-butique, gastronomia temática e excursões de estudo monitoradas. Ao integrar folclore antigo com hospitalidade moderna, Shexian provou que o patrimônio pode ser um motor local de crescimento, vibrante e sustentável.

No entanto, para muitos da geração mais jovem, o verdadeiro valor do patrimônio histórico não está no espetáculo, mas no silêncio. Em Chengdu, um estudante universitário idoso chamado Xiao Zhong mostrou um lado mais pessoal dessa mudança econômica. Xiao investiu mais de 5.000 yuans (US$ 730) em um curso de 16 aulas para dominar a arte de fazer contas de laca, uma forma de patrimônio cultural imaterial.

O processo envolve um exercício extremo de paciência: seiva natural é aplicada em dezenas de camadas sobre um núcleo de madeira, que é então meticulosamente esculpido e polido para revelar padrões iridescentes e sinuosos.

Enquanto alguns jovens estudantes, em viagens de estudo, se agrupam em torno dele em seu estúdio nos fins de semana, Xiao permanece focado no ritmo tátil de seu trabalho. Em um mundo digital acelerado, ele descobriu o auge do luxo: a capacidade de desacelerar.

“Aqui, na fusão de laca bruta com areia e água”, disse Xiao ao Chengdu Business Daily, “consigo ouvir o som do tempo.”


Este texto foi publicado originalmente na revista China Hoje. Clique aqui, inscreva-se na nossa comunidade, receba gratuitamente uma assinatura digital e tenha acesso ao conteúdo completo.

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