Um número crescente de jovens chineses está escolhendo morar sozinho ou viajar por conta própria. O movimento deu origem ao que já é chamado na China de “economia solo”, um mercado voltado ao consumo individual.
Os números ajudam a explicar a tendência. Segundo o Ministério dos Assuntos Civis, os registros de casamento caíram de 13,5 milhões de casais em 2013 para 6,8 milhões em 2025, praticamente a metade. No primeiro trimestre de 2026, foram cerca de 1,7 milhão de registros, queda de 6% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O relatório Nova Era da Vida em Solitário, do Instituto de Pesquisa Beike, estima que 123 milhões de pessoas viviam sozinhas no país em 2024. A projeção é que esse grupo chegue a algo entre 150 milhões e 200 milhões até 2030.
Comprar menos, mas melhor
Xia Xiaosen, criadora de conteúdo que mora com o gato em Dalian, na província de Liaoning, no nordeste da China, mudou a forma de fazer compras. Em vez de levar grandes quantidades, prefere porções menores de produtos frescos e de melhor qualidade. “É isso que a economia solo significa para mim: comprar menos, mas melhor”, resume.
Eletrodomésticos inteligentes também viraram parte da rotina dela. Aspirador robô, lava-louças e aparelhos automáticos para cuidar do animal de estimação ajudam a dar conta das tarefas da casa.
A mudança aparece ainda no jeito de viajar. Xue Xue, formada em uma universidade chinesa e com mestrado no Reino Unido, passou boa parte do último ano e meio viajando sozinha pela China. Segundo ela, viajar sem companhia permite focar nas próprias necessidades e emoções, sem ter de se adaptar aos outros, e trouxe uma sensação de liberdade que não sentia havia muito tempo.
O varejo se adapta à economia solo
Wu Yifei, gerente de marketing de um centro comercial em Xiamen, na província de Fujian, no leste do país, conta que o consumo individual passou de demanda de nicho a parte do plano de negócios da empresa a partir de 2024.
O novo supermercado do centro ampliou a oferta de alimentos frescos em porções individuais, refeições prontas e mantimentos em embalagens pequenas, além de produtos de beleza e para pets. As áreas de refeição e de comida para viagem foram redesenhadas para quem faz compras ou come sozinho.
Depois da reformulação, as vendas nas categorias de comida pronta e porções individuais aumentaram seis vezes, segundo Wu. A adaptação, porém, tem custo. Embalagens menores costumam ter preço por unidade mais alto, por causa de mão de obra, embalagem e controle de frescor. Para tornar os valores mais aceitáveis, o supermercado passou a oferecer faixas de preço, com opções de entrada, como porções individuais de carne mais baratas, ao lado de produtos premium.
Wu aponta ainda desafios operacionais da economia solo: porções menores exigem controle de estoque mais preciso e aumentam a pressão para reduzir o desperdício. Na avaliação dela, muitos produtos e serviços ainda são pensados para famílias ou grupos, e os varejistas seguem ajustando oferta, preços e cadeias de suprimento.
Por que sai mais caro
Para Zuo Si, professora assistente da Faculdade Antai de Economia e Administração da Universidade Jiao Tong de Shanghai, a estrutura de custos do consumo na economia solo é mais complexa do que parece. O principal problema, segundo ela, é o descompasso entre oferta e demanda: os consumidores ainda não encontram produtos adequados, e os fabricantes ainda se ajustam ao novo padrão.
Xue sente isso nas viagens. Hospedagem e refeições pesam mais para quem viaja sozinho, já que não há com quem dividir o quarto nem como aproveitar descontos de grupo. Em cidades menores, diz ela, faltam pratos em porção individual, o que encarece a experiência de provar comidas diferentes.
Zuo prevê que a economia solo vai continuar a redesenhar produtos e serviços, com mais peso para praticidade, rapidez e consumo ligado a situações específicas. As plataformas digitais, acrescenta, usam cada vez mais algoritmos de recomendação para conectar necessidades individuais aos produtos certos. “Fabricantes e consumidores ainda estão se encontrando, mas a demanda é real e crescente”, afirma.







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