Por Jussara Goyano
A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas tentou, mais uma vez, responder a uma pergunta que se repete desde o Acordo de Paris, em 2015: quem vai pagar a conta da transição para um mundo com menos CO2 e de que forma isso será feito sem aprofundar desigualdades? A resposta ainda está longe de ser completa, mas o evento, realizado em Belém do Pará, progrediu em pontos concretos – sobretudo na criação de instrumentos financeiros contra a crise climática e na montagem de uma agenda prática de ações para os próximos dez anos. No coração da Amazônia, o encontro ainda foi além desses compromissos: deu um aceno à floresta e à sua importância, lançou um olhar mais generoso aos povos originários da região e em todo o mundo, deu uma demonstração clara de que o centro de gravidade da política climática internacional começa a se deslocar em direção ao Sul global. Nesse movimento, Brasil e China surgem como dois polos decisivos.
O chamado “Pacote de Belém”, um conjunto de 29 medidas aprovadas por consenso que reorganiza prioridades, destrava parte do financiamento climático, aborda desde regras para medir e reportar emissões até parâmetros para avaliar a vulnerabilidade de países e cidades às mudanças do clima. Há diretrizes para que bancos multilaterais incorporem o risco climático em suas carteiras, recomendações para que os fluxos financeiros globais sejam compatíveis com a meta de manter o aquecimento em 1,5°C e mecanismos para que países em desenvolvimento tenham mais acesso a recursos com juros menores e prazos mais longos.
Isso pode soar distante do cotidiano de quem apenas vivencia o caos climático e espera soluções drásticas, mas é justamente esse arranjo regulatório que define se um projeto de energia solar no Nordeste brasileiro ou de mobilidade elétrica em Pequim será considerado atraente ou arriscado para grandes investidores internacionais, ampliando o olhar sobre questões importantes na mitigação do aquecimento global, como o apoio à transição da matriz energética para fontes limpas e renováveis.
Um dos eixos centrais desse pacote é o compromisso político de triplicar, até 2035, os recursos destinados à adaptação às mudanças climáticas em países vulneráveis. Na prática, significa justamente reconhecer o que está a olhos nus dos cidadãos medianos – que o mundo já está vivendo os efeitos do aquecimento global e que não basta reduzir emissões; é preciso ajudar populações inteiras a lidar com secas, enchentes, ondas de calor e perdas agrícolas. Nesse novo cenário de financiamento, a China ocupa posição de destaque: diante da meta de alcançar dezenas de bilhões de dólares anuais para adaptação, a criação de mecanismos específicos para saúde, agricultura e cidades resilientes, surge o desenho de um “roteiro Baku–Belém” que tenta coordenar bancos multilaterais, governos e capital privado em torno da transição verde.
Esse movimento é especialmente relevante para América Latina, África e Ásia, regiões onde a vulnerabilidade climática costuma andar de mãos dadas com falta de infraestrutura e restrições orçamentárias. Quando a COP30 reconhece que investimentos em saneamento básico, sistemas de alerta precoce, obras de contenção de encostas, irrigação inteligente e redes de saúde são também políticas climáticas, ela amplia o escopo do debate e cria oportunidades de cooperação concreta. Para Brasil e China, que já participam conjuntamente de bancos de desenvolvimento e fóruns de coordenação Sul-Sul, abre-se um campo vasto para projetos compartilhados em terceiros países, combinando know-how técnico chinês, experiência social brasileira e recursos multilaterais orientados pela conferência.
Nações de ação – É nesse terreno que a relação Brasil-China ganha relevo. A China, líder mundial em energias renováveis, tecnologia solar, eólica e baterias e ao mesmo tempo ainda o maior emissor global, tem ampliado seu papel de financiador de projetos verdes no Sul global. É um país que não cruza os braços, como afirmou, nos dias que antecederam a conferência, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun.
Guo declarou que os chineses constituem uma “nação de ação” no enfrentamento climático. A afirmação, publicada pela imprensa chinesa, ecoou entre delegações diplomáticas em Belém porque refletia uma postura mais assertiva: a China busca liderar um novo modelo de cooperação para o problema. Para Guo, o 10º aniversário do Acordo de Paris, celebrado em 2025, marca uma “fase decisiva” da governança climática global.
O Brasil, por sua vez, chega a Belém com uma das matrizes elétricas mais limpas do planeta, uma agenda de reindustrialização verde e a principal floresta tropical do mundo sob sua responsabilidade. Quando negociadores discutem linhas de crédito para infraestruturas de baixo carbono, cadeias produtivas livres de desmatamento e fundos para proteger florestas tropicais, é dessa convergência que estão falando – ainda que nem sempre de forma explícita.
No escopo prático da COP30, surge, então, a chamada Agenda de Ação, uma espécie de vitrine e, ao mesmo tempo, laboratório de soluções concretas conduzidas por governos, empresas, cidades, organizações da sociedade civil, povos indígenas e instituições financeiras. Ao fim da conferência, foram registrados 117 Planos de Aceleração de Soluções, que vão de compromissos setoriais de descarbonização da indústria a programas de restauração florestal, projetos de agricultura de baixo carbono, redes de cidades resilientes e iniciativas de inovação tecnológica.
Alguns exemplos ajudam a ilustrar esse mosaico: redes de hospitais que se comprometem a reduzir sua pegada de carbono e, ao mesmo tempo, reforçar a preparação para ondas de calor; empresas do setor de aço e cimento que assumem metas de neutralidade de emissões; coalizões de cidades que prometem ampliar o transporte coletivo elétrico; associações de pequenos agricultores que aderem a programas de plantio direto e recuperação de solo; povos indígenas que apresentam protocolos próprios de consulta e participação em projetos de bioeconomia. Em muitos desses casos, a presença de instituições financeiras – bancos de desenvolvimento, fundos soberanos, gestoras de ativos – não é apenas de patrocinador, mas de parceiro que se compromete a ajustar critérios de risco e retorno para viabilizar iniciativas de longo prazo.
Na cerimônia de encerramento, o presidente da COP30, o diplomata brasileiro André Corrêa do Lago, sintetizou esse espírito ao afirmar que Belém não deveria ser lembrada como “o fim de uma conferência”, mas como o início de uma década em que o desafio principal será transformar promessas em entrega. Em comunicado paralelo, a secretaria da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima destacou que “a cooperação climática continua viva”, uma maneira diplomática de reconhecer que, apesar das divergências, o sistema multilateral ainda é capaz de produzir consensos mínimos. As duas mensagens ecoam bem o sentimento predominante na conferência: a consciência de que há avanços reais, mas também um caminho longo pela frente – e de que a janela para manter o aquecimento em 1,5°C permanece estreita.
Do ponto de vista brasileiro, sediar a COP no Pará teve um efeito concreto: colocou a Amazônia e os povos que ali vivem no centro do debate. O governo federal anunciou durante o encontro a homologação de novas Terras Indígenas e o avanço em processos de demarcação, deixando claro que a política ambiental e climática passa, necessariamente, pela garantia de direitos territoriais. Organizações indígenas aproveitaram a visibilidade do evento para reforçar uma mensagem que vem se consolidando na literatura científica: proteger territórios tradicionais é uma das formas mais eficientes e baratas de conservar florestas e manter estoques de carbono intactos.
Esse movimento dialoga diretamente com iniciativas lançadas em Belém para financiar a proteção de florestas tropicais. Entre elas, ganhou destaque a Tropical Forests Forever Facility, um mecanismo desenhado para captar recursos públicos e privados e destiná-los à conservação de grandes áreas contínuas de floresta em países amazônicos, africanos e asiáticos. Apesar de ainda estar em fase inicial, o desenho do fundo indica a busca por modelos mais modernos de financiamento, baseados em resultados e em parcerias com comunidades locais. Para a China, que já vem sinalizando interesse em ampliar seu portfólio de investimentos verdes em países em desenvolvimento, instrumentos como esse oferecem uma porta de entrada estruturada para apoiar a proteção da biodiversidade e, ao mesmo tempo, garantir estabilidade climática – um bem público global do qual sua própria economia depende.
Se a floresta ocupou lugar central, o foco exclusivo em áreas naturais ficou para trás. Um dos avanços de narrativa na COP30 foi justamente integrar clima, desenvolvimento e inclusão social. Documentos oficiais e declarações públicas insistiram em termos como “transição justa” e “justiça climática”, destacando que políticas climáticas só serão sustentáveis se levarem em conta desigualdades históricas e impactos diferenciados sobre grupos vulneráveis. Em Belém, isso se traduziu em painéis e compromissos voltados para agricultura familiar, periferias urbanas, populações ribeirinhas e trabalhadores de setores intensivos em carbono, como o petróleo e a mineração.
É nesse ponto que o diálogo Brasil-China volta a aparecer. Os dois países lidam com desafios semelhantes: desenvolver infraestrutura, reduzir pobreza e, ao mesmo tempo, cortar emissões. Ambos sabem que qualquer transição rápida demais, que ignore impactos sociais, corre o risco de gerar resistências internas e retrocessos. Ao investir em energias renováveis, mobilidade elétrica, modernização industrial e adaptação rural, a China construiu um know-how técnico e financeiro que pode ser adaptado a realidades tropicais. O Brasil, por sua vez, oferece uma experiência singular em políticas sociais, programas de combate ao desmatamento e mecanismos de participação de comunidades locais. A COP30, ao trazer esses temas para o centro do palco, cria uma agenda comum que pode orientar a cooperação bilateral nos próximos anos.
Apesar do clima de otimismo moderado, as pendências ficaram evidentes. Não houve acordo para incluir no texto final um compromisso claro de eliminação progressiva dos combustíveis fósseis. A fórmula negociada mantém linguagem genérica sobre reduzir o uso de petróleo, gás e carvão, sem estabelecer cronogramas ou metas vinculantes. Em termos práticos, significa que a pressão por uma transição energética mais rápida continuará acontecendo fora da sala principal de negociações, impulsionada por mercados, decisões empresariais e políticas nacionais. Para países como o Brasil e a China, grandes atores tanto na produção quanto no consumo de energia, essa ambiguidade abre espaço para interpretações distintas, mas também aumenta a responsabilidade de mostrar, na prática, que é possível crescer com menos carbono.
Outra lacuna foi a ausência de um roteiro global robusto para zerar o desmatamento em escala planetária. Embora o Brasil tenha chegado à conferência com números em queda na Amazônia e com propostas para liderar, ao lado de outros países tropicais, uma coalizão em defesa das florestas, o texto final ficou aquém das expectativas de organizações ambientais. De novo, o efeito é ambíguo: de um lado, frustração; de outro, uma oportunidade para iniciativas voluntárias e coalizões para países avançarem de forma mais rápida do que o consenso possível entre quase 200 nações.

Nesse cenário híbrido de avanços e limitações, a disputa por recursos ganha ainda mais relevância. As decisões da COP30 reforçam que o financiamento climático não será uma espécie de “fundo perdido” eterno, mas um campo no qual se combinam políticas públicas, negócios, inovação tecnológica e diplomacia. Para o Brasil, o desafio é transformar o capital político de ter sediado a conferência em projeto de longo prazo: criar um pipeline robusto de projetos financiáveis em energias renováveis, infraestrutura resiliente, restauração de paisagens e cadeias produtivas sustentáveis. Para a China, a oportunidade está em consolidar sua posição como grande provedora de tecnologia, equipamentos e crédito para essa transição, em condições que respondam às preocupações de soberania e desenvolvimento dos parceiros.
A conferência também deixou lições sobre governança e participação. A presença recorde de povos indígenas, movimentos sociais, representantes de governos locais e empresas mostrou que o multilateralismo clássico, centrado apenas em delegações nacionais, já não dá conta da complexidade do tema. Ainda que a sala de plenária continue sendo o espaço formal de decisão, é nas dezenas de pavilhões, side events e encontros paralelos que nascem muitas das iniciativas que depois se transformam em políticas públicas ou investimentos. A Agenda de Ação, com seus 117 planos, é um reflexo desse ecossistema mais distribuído: ela reconhece que cidades, estados, empresas e comunidades têm poder real de implementação e podem, em muitos casos, andar mais rápido que as chancelarias.
Visões – Para o público acostumado a acompanhar a relação bilateral entre Brasil e China, sobretudo sob a ótica do comércio e dos grandes projetos de infraestrutura entre os dois países, a COP30 oferece uma lente complementar. Ela mostra que o diálogo entre Brasília e Pequim não se resume a soja, minério de ferro e obras de transporte, mas inclui cada vez mais temas como hidrogênio verde, cadeias produtivas de baixo carbono, tecnologias de monitoramento ambiental, proteção de florestas e financiamento climático. Em vez de uma agenda à parte, a cooperação verde tende a se tornar o fio condutor das próximas décadas, influenciando decisões em áreas como energia, agronegócio e indústria.
Belém, assim, pode ser vista não apenas como a cidade que recebeu uma conferência internacional, mas como o ponto de partida de uma narrativa em que a Amazônia deixa de ser tratada como periferia e passa a ocupar o centro da discussão sobre o futuro do planeta. Ao escolher a região como sede, a diplomacia climática envia uma mensagem simbólica e prática: sem as florestas tropicais, sem os rios amazônicos, sem os povos que os protegem, não haverá meta de carbono que se sustente. E, ao mesmo tempo, sem financiamento, sem tecnologia e sem cooperação internacional, países em desenvolvimento não terão condições de arcar sozinhos com o custo dessa proteção.
A COP30 não resolveu esse dilema, mas deu passos importantes ao construir instrumentos, organizar planos e alinhar expectativas. O balanço é, inevitavelmente, incompleto: há vitórias a celebrar, lacunas a preencher e promessas a cobrar. Para o Brasil, resta agora transformar o capital político de Belém em políticas consistentes, projetos maduros e segurança regulatória. Para a China, o desafio é converter sua capacidade financeira e tecnológica em parcerias que respeitem a realidade local e contribuam para um desenvolvimento efetivamente sustentável.
No fim das contas, o que se desenha a partir de Belém é a possibilidade de um novo eixo verde global, em que Brasil e China atuam, não como antagonistas, mas como coprodutores de soluções. Se esse potencial vai se concretizar ou não dependerá das escolhas feitas nos próximos anos – nas salas de negociação, mas também nos gabinetes de governo, nas diretorias de empresas e nas comunidades que vivem na linha de frente da crise climática. A COP30 acendeu os refletores sobre esse caminho. Cabe agora a esses atores, inclusive aos dois gigantes que dão nome a esta revista, decidir se vão caminhar na direção indicada ou deixar que a história passe ao lado.
Para o cidadão comum, a mensagem final talvez seja menos abstrata do que parece: as decisões tomadas em Belém terão impacto direto na forma como produtos serão produzidos, energia será gerada, cidades serão planejadas e florestas serão valorizadas nos próximos anos.
Já história da relação entre Brasil e China já passou pela geopolítica, pela diplomacia e pela economia; a partir da COP30, passa também pela capacidade de, juntos, ajudarem a escrever um capítulo mais estável para o clima do planeta.
Este texto foi publicado originalmente na revista China Hoje. Clique aqui, inscreva-se na nossa comunidade, receba gratuitamente uma assinatura digital e tenha acesso ao conteúdo completo.

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