Por Evandro Menezes de Carvalho (高文勇)*
Com o crescimento da classe média chinesa, o avanço tecnológico do país e uma infraestrutura de mobilidade sem paralelo, o turismo na China tornou-se um dos setores mais dinâmicos da economia. Trens de alta velocidade, aeroportos modernos, pagamentos digitais e plataformas de viagem altamente integradas criaram as condições para que milhões de pessoas circulem pelo país em busca de viagens de lazer. Segundo o Conselho Mundial de Viagens e Turismo, a China se consolida como uma das grandes forças globais do setor.
Mas o que mais chama atenção não é apenas o turismo tradicional, com visitas a monumentos, templos, museus e paisagens naturais. O fenômeno mais interessante é o crescimento do turismo de experiência. Nele, o turista não quer apenas fotografar destinos, ele quer senti-los de todas as formas possíveis. Certa vez, fui convidado para um jantar em Pequim no qual o menu havia sido escrito pelo próprio chef, em caligrafia chinesa, sobre um leque entregue a cada convidado. Cada prato era servido como uma pequena obra de arte, respeitando uma ordem cuidadosamente pensada de sabores, aromas, cores e histórias. Aquilo foi uma experiência para além da culinária. Mas, hoje, ela vai além. Há restaurantes que recriam ambientes do passado imperial chinês. Os clientes vestem trajes tradicionais, circulam por espaços inspirados nas dinastias antigas e jantam ao som de músicas tradicionais chinesas. Entra-se simbolicamente em outra época.
Entre os jovens chineses, especialmente na faixa dos 20 aos 35 anos, o turismo cultural ganha força. Viagens para assistir a danças folclóricas tradicionais, como a Yingge; visitas a vinícolas com passeios de trem pelos vinhedos; hospedagens em quartos que simulam antigos vagões; viagens que oferecem cursos de cerâmica; oficinas de caligrafia; aulas de penteados tradicionais; tudo isso viraliza nas redes sociais e, melhor, alimenta a economia local.
A experiência é vivida presencialmente, mas sua difusão ocorre digitalmente. Esse aspecto é decisivo. A economia da experiência na China não pode ser compreendida sem a integração entre cultura e tecnologia. Plataformas digitais, vídeos curtos e sistemas de recomendação ampliam a visibilidade dos destinos e transformam experiências locais em fenômenos nacionais. Uma aldeia, uma dança, uma receita regional ou uma história esquecida podem ganhar nova vida quando o turista mergulha de cabeça nela.
No ano passado, fiz uma visita ao Canal da Bandeira Vermelha (Hongqiqu Canal) construído na década de 1960 por cem mil pessoas da região de Linzhou, munidas apenas de martelos e furadeiras simples, para solucionar o grave problema de escassez de água. A construção deste canal artificial de 1,5 mil km levou quase 10 anos para ser concluída. Fizeram um memorial para contar a história daquela façanha da engenharia popular que se tornou símbolo de persistência, cooperação e superação. Hoje, o lugar recebe visitantes que percorrem as trilhas entre montanhas e árvores que margeiam o canal, ao mesmo tempo que uma narrativa cuidadosamente organizada sobre o esforço coletivo daquela população é contada, inclusive em uma peça de teatro encenada no local. À noite, assistimos a um espetáculo ao ar livre que recontava a história do canal de maneira lúdica, com recursos tecnológicos que nos impressionaram. Era entretenimento, mas também educação histórica e memória social.
Ao sair dali, pensei no Brasil. Temos uma riqueza histórica, cultural e natural imensa, mas ainda exploramos pouco a combinação entre memória, tecnologia, emoção e desenvolvimento local. Nossas cidades históricas, festas populares, comunidades tradicionais, patrimônios indígenas, quilombolas, sertanejos, ribeirinhos e imigrantes poderiam ser apresentados ao público de forma mais criativa, sem perder a autenticidade e mostrando os feitos da nossa gente.
A economia da experiência mostra que o futuro do turismo está em vender destinos que nos ofereçam novos sentidos e possibilidades de pensar a nossa vida e nosso futuro. A China compreendeu que a cultura é mais do que um ornamento para entreter. Quando bem articulada com a tecnologia, o planejamento público e a participação comunitária, ela é um recurso estratégico que gera renda, autoestima local e projeção internacional. Os destinos que as pessoas procuram são aqueles capazes de levá-las a novos pontos de partida. Arriscam ir fundo para dentro de si mesmas quando vão a outros lugares que as emocionem e as transformem.
*Editor Executivo-Chefe da revista China Hoje. Professor convidado da Universidade Politécnica de Macau e professor da Cátedra Wutong da Universidade de Língua e Cultura de Pequim.
Este texto foi publicado originalmente na revista China Hoje. Clique aqui, inscreva-se na nossa comunidade, receba gratuitamente uma assinatura digital e tenha acesso ao conteúdo completo.

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