“Economia solo” cresce na China com 123 milhões morando sozinhos

Queda nos casamentos e jovens que viajam sem companhia levam o varejo a apostar em porções individuais, mas a conta costuma sair mais cara
Por Redação
Mulher leva seu cachorro de estimação para participar de um evento temático sobre animais de estimação em Yinchuan, Região Autônoma da Etnia Hui de Ningxia, no noroeste da China, em 26 de setembro. (Xinhua/Yang Zhisen)

Um número crescente de jovens chineses está escolhendo morar sozinho ou viajar por conta própria. O movimento deu origem ao que já é chamado na China de “economia solo”, um mercado voltado ao consumo individual.

Os números ajudam a explicar a tendência. Segundo o Ministério dos Assuntos Civis, os registros de casamento caíram de 13,5 milhões de casais em 2013 para 6,8 milhões em 2025, praticamente a metade. No primeiro trimestre de 2026, foram cerca de 1,7 milhão de registros, queda de 6% em relação ao mesmo período do ano anterior.

O relatório Nova Era da Vida em Solitário, do Instituto de Pesquisa Beike, estima que 123 milhões de pessoas viviam sozinhas no país em 2024. A projeção é que esse grupo chegue a algo entre 150 milhões e 200 milhões até 2030.

Comprar menos, mas melhor

Xia Xiaosen, criadora de conteúdo que mora com o gato em Dalian, na província de Liaoning, no nordeste da China, mudou a forma de fazer compras. Em vez de levar grandes quantidades, prefere porções menores de produtos frescos e de melhor qualidade. “É isso que a economia solo significa para mim: comprar menos, mas melhor”, resume.

Eletrodomésticos inteligentes também viraram parte da rotina dela. Aspirador robô, lava-louças e aparelhos automáticos para cuidar do animal de estimação ajudam a dar conta das tarefas da casa.

A mudança aparece ainda no jeito de viajar. Xue Xue, formada em uma universidade chinesa e com mestrado no Reino Unido, passou boa parte do último ano e meio viajando sozinha pela China. Segundo ela, viajar sem companhia permite focar nas próprias necessidades e emoções, sem ter de se adaptar aos outros, e trouxe uma sensação de liberdade que não sentia havia muito tempo.

O varejo se adapta à economia solo

Wu Yifei, gerente de marketing de um centro comercial em Xiamen, na província de Fujian, no leste do país, conta que o consumo individual passou de demanda de nicho a parte do plano de negócios da empresa a partir de 2024.

O novo supermercado do centro ampliou a oferta de alimentos frescos em porções individuais, refeições prontas e mantimentos em embalagens pequenas, além de produtos de beleza e para pets. As áreas de refeição e de comida para viagem foram redesenhadas para quem faz compras ou come sozinho.

Depois da reformulação, as vendas nas categorias de comida pronta e porções individuais aumentaram seis vezes, segundo Wu. A adaptação, porém, tem custo. Embalagens menores costumam ter preço por unidade mais alto, por causa de mão de obra, embalagem e controle de frescor. Para tornar os valores mais aceitáveis, o supermercado passou a oferecer faixas de preço, com opções de entrada, como porções individuais de carne mais baratas, ao lado de produtos premium.

Wu aponta ainda desafios operacionais da economia solo: porções menores exigem controle de estoque mais preciso e aumentam a pressão para reduzir o desperdício. Na avaliação dela, muitos produtos e serviços ainda são pensados para famílias ou grupos, e os varejistas seguem ajustando oferta, preços e cadeias de suprimento.

Por que sai mais caro

Para Zuo Si, professora assistente da Faculdade Antai de Economia e Administração da Universidade Jiao Tong de Shanghai, a estrutura de custos do consumo na economia solo é mais complexa do que parece. O principal problema, segundo ela, é o descompasso entre oferta e demanda: os consumidores ainda não encontram produtos adequados, e os fabricantes ainda se ajustam ao novo padrão.

Xue sente isso nas viagens. Hospedagem e refeições pesam mais para quem viaja sozinho, já que não há com quem dividir o quarto nem como aproveitar descontos de grupo. Em cidades menores, diz ela, faltam pratos em porção individual, o que encarece a experiência de provar comidas diferentes.

Zuo prevê que a economia solo vai continuar a redesenhar produtos e serviços, com mais peso para praticidade, rapidez e consumo ligado a situações específicas. As plataformas digitais, acrescenta, usam cada vez mais algoritmos de recomendação para conectar necessidades individuais aos produtos certos. “Fabricantes e consumidores ainda estão se encontrando, mas a demanda é real e crescente”, afirma.

Publicado em: 14/10/2026

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