O presidente chinês, Xi Jinping, participará da 18ª Cúpula dos BRICS, que a Índia sedia em Nova Délhi nos dias 12 e 13 de setembro, segundo anunciou nesta quinta-feira um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China.
O bloco, que nasceu com cinco países fundadores e hoje reúne 11 membros e 10 países parceiros, é uma das principais plataformas de cooperação entre mercados emergentes e países em desenvolvimento. O Brasil, membro fundador, sediou a cúpula anterior, a 17ª, no Rio de Janeiro em 2025 — ocasião em que os líderes assinaram a Declaração do Rio de Janeiro, hoje uma referência nas discussões do bloco sobre reforma dos organismos financeiros internacionais.
Por que o Brasil aparece na conversa sobre os BRICS?
A Declaração do Rio de Janeiro pede que qualquer novo cálculo de cotas do Fundo Monetário Internacional (FMI) amplie a participação das economias emergentes e defende mudanças na estrutura acionária do Banco Mundial em favor dos países em desenvolvimento.
Para Marcos Cordeiro Pires, professor de ciências políticas e econômicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), o BRICS é uma plataforma de grande potencial, na qual as diferenças entre os membros funcionam como um ativo, não como obstáculo. Segundo ele, o grupo amplia a voz dos países do Sul Global por melhor governança, mais segurança e direito ao desenvolvimento, em um momento de mudanças profundas na ordem internacional.
Já para Mohamed Hussein, primeiro vice-chefe do Serviço de Informação do Estado do Egito, a China busca o maior denominador comum de cooperação por meio do diálogo entre iguais, construindo consenso em torno de interesses compartilhados dentro do bloco.
Duas décadas de cúpulas construindo o bloco
Xi participou de sua primeira cúpula internacional como presidente chinês em março de 2013, na quinta edição do encontro dos BRICS, em Durban, na África do Sul. Na ocasião, defendeu a integração de mercados, uma rede financeira multicamada, conectividade por terra, ar e mar, e mais intercâmbio cultural entre os países do bloco.
Dois anos depois, na sétima cúpula, em Ufa, na Rússia, Xi propôs a construção de uma parceria voltada à paz mundial, ao desenvolvimento comum, ao diálogo entre civilizações e a uma governança econômica global mais eficaz.
Em 2017, quando a China presidiu o bloco, Xi lançou na cúpula de Xiamen o modelo de cooperação “BRICS Plus”, pensado para incluir mais mercados emergentes e países em desenvolvimento nas iniciativas do grupo.
Já em outubro de 2024, a 16ª cúpula, em Kazan, na Rússia, marcou o primeiro encontro presencial dos líderes do bloco desde sua expansão. Xi propôs então orientar os BRICS para a paz, a inovação, o desenvolvimento verde, a justiça e um intercâmbio mais próximo entre os povos dos países-membros.
Hoje, o grupo reúne 11 países-membros e 10 países parceiros, e responde por quase metade da população mundial, cerca de 30% da economia global e um quinto do comércio internacional.
Um banco próprio e um centro de inovação na China
Além dos discursos, a China aponta resultados concretos como parte do legado de Xi à frente da cooperação dos BRICS. Um deles é o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o banco do bloco, cuja criação foi puxada pessoalmente por Xi. Até o fim de 2025, o NDB havia aprovado 139 projetos, com financiamento total de cerca de 43 bilhões de dólares, em áreas como energia verde, infraestrutura de transporte e acesso à água potável em países do Sul Global.
Outro é o centro de inovação da Nova Revolução Industrial dos BRICS, criado em Xiamen, no sudeste da China, a partir de um anúncio de Xi na 12ª cúpula do bloco, em novembro de 2020. Desde então, o centro já viabilizou mais de 100 projetos de cooperação, com investimento total superior a 62 bilhões de yuans (cerca de 9,2 bilhões de dólares), além de um programa de bolsas voltado a indústrias emergentes.
Em julho, o polo também deu início ao “BRICS Go-Global Express”, um novo canal para empresas chinesas se expandirem para mercados do bloco no exterior. O evento de lançamento teve como foco a Nigéria, que se tornou país parceiro dos BRICS no ano passado.
Uma agenda de desenvolvimento que se soma aos BRICS
Em 2021, Xi propôs a Iniciativa de Desenvolvimento Global durante o debate geral da 76ª sessão da Assembleia Geral da ONU. Cinco anos depois, a iniciativa reforça o mecanismo de cooperação dos BRICS e ajuda a colocar o desenvolvimento no centro da agenda internacional.
A China também lançou, nos últimos anos, iniciativas para ampliar a cooperação dos BRICS em recursos do mar profundo, economia digital, indústrias verdes e energia limpa, além de novos programas em inteligência artificial e educação digital.
O que observar a seguir
Além da presença de Xi, a cúpula de Nova Délhi deve reunir outros líderes do bloco em meio a um cenário internacional de tensões comerciais e disputas geopolíticas. Para o Brasil, o encontro é uma oportunidade de acompanhar se a Declaração do Rio de Janeiro, aprovada na cúpula do ano passado, avança nas negociações sobre a reforma do FMI e do Banco Mundial — ou se fica apenas no papel.







0 comentários