Por Rafael Henrique Zerbetto
Em uma manhã de maio deste ano, jornalistas começaram a se aglomerar numa sala de hospital em Pequim para presenciar um acontecimento importante. Diante deles, uma equipe médica conversava com Wang Zhiming, paciente paraplégico que comemorava um ano desde a cirurgia que lhe deu a esperança de voltar a andar: foi no dia 16 de maio de 2025 que ele passou por uma cirurgia de estimulação elétrica na medula e no cérebro.
“Há um ano, realizamos, em um paciente com paraplegia por lesão medular, o registro de mais de 100 canais de sinais de EEG com o dispositivo ‘Beinao-1’. Ao mesmo tempo, combinamos a estimulação da coluna dorsal com o treinamento de exoesqueleto para que ele alcançasse a posição de pé e a marcha. Hoje marca exatamente o acompanhamento pós-operatório de um ano desse paciente,” explica o neurocirurgião Zhao Guoguang, diretor do Hospital Xuanwu da Universidade de Medicina da Capital e principal referência chinesa em pesquisas sobre interface cérebro-máquina e estimulação cerebral profunda.
Um ano depois, o progresso de Wang é visível. Primeiro caminhou pela sala usando um exoesqueleto. Depois, com o auxílio de órteses, conseguiu caminhar apoiando-se em um andador e, por fim, em muletas.
Natural da Província de Gansu, no noroeste da China, Wang perdeu os movimentos das pernas em um acidente, e ano após ano ia perdendo também a esperança de voltar a andar. Foi então que ele, ao pesquisar sobre terapias experimentais, ficou sabendo do trabalho desenvolvido pela equipe de Zhao.
“Como o ferimento era grave – as pernas não se moviam, não sentiam nada – eu senti que precisava tentar. Na verdade, eu estava bem animado, pensava que depois da cirurgia conseguiria me levantar e andar imediatamente, voltar a ser como era antes, recorda-se Wang. “A primeira vez que me animei foi no quarto dia após a cirurgia. Quando ligaram o estimulador elétrico, senti uma corrente nas pernas. Era a primeira vez em cinco anos, desde o acidente, que eu sentia algo nas pernas. Fiquei muito emocionado.”

Tudo começou no Brasil – O Programa Andar de Novo (Walk Again Project), que trouxe esperança para Wang e vários outros pacientes, resulta de uma parceria entre o Hospital Xuanwu, da China, com a Associação Alberto Santos Dumont para Apoio à Pesquisa (AASDAP), instituição brasileira fundada pelo neurocientista Miguel Nicolelis.
“Miguel Nicolelis, o ‘pai da Interface Cérebro-Máquina’, agraciado com o Prêmio da Amizade do Governo Chinês, estabeleceu uma parceria com o Departamento de Neurocirurgia do Hospital Xuanwu, impulsionando de forma pioneira a implementação do ‘Programa Andar de Novo’ na China e inaugurando na Ásia a exploração do tratamento por interface cérebro-máquina para lesões medulares completas”, explica Zhao.
Nascido em São Paulo em 1961, o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis é pioneiro nas pesquisas em interface cérebro máquina, tecnologia que permite a interação entre cérebro e computador, e no desenvolvimento de neuropróteses. Sem condições de desenvolver suas pesquisas no Brasil, onde pesquisas com implantes cerebrais eram consideradas arriscadas demais, Nicolelis foi para os EUA, onde lecionou na Universidade Duke de 1994 a 2021. Lá ele fundou e dirigiu, por vinte anos, o Centro de Neuroengenharia.
Mas a consagração de Nicolelis como um dos mais importantes cientistas da atualidade resulta do Programa Andar de Novo, que conseguiu a façanha de colocar um voluntário paraplégico, o brasileiro Juliano Pinto, para dar o pontapé inicial da Copa do Mundo FIFA de 2014, no Brasil, usando um exoesqueleto robótico controlado por sinais cerebrais.
Um estudo recente conduzido no Hospital Xuanwu constatou que a eficácia do tratamento pode ser maior que a prevista inicialmente: a aplicação de um protocolo de neurorreabilitação desenvolvido pela equipe do projeto no Brasil, sob a liderança de Nicolelis, possibilitou a recuperação parcial dos movimentos das pernas de pacientes paraplégicos crônicos na China, e foram constatados sinais de reversão da atrofia cerebral causada pela lesão medular, fenômeno até então visto como improvável.
Ao falar sobre a cooperação China-Brasil, Zhao afirma que sua equipe foi ao Brasil estagiar na equipe de Nicolelis, que também veio muitas vezes à China para ministrar cursos e conhecer de perto os trabalhos desenvolvidos no país. “O treino de reabilitação, a coleta de sinais não invasivos da interface cérebro-máquina, incluindo o logotipo, os equipamentos, os treinos… Eu transferi tudo o que Nicolelis me ensinou em São Paulo para Pequim. Estabelecemos no Hospital Xuanwu o Laboratório Caminhada Plena; na porta tem os logotipos do nosso hospital e da nossa instituição parceira no Brasil,” afirma o cientista.
A contribuição de Nicolelis para o desenvolvimento da neuroengenharia chinesa foi tão grande que o governo do país decidiu homenageá-lo com o Prêmio da Amizade do Governo Chinês, a mais alta condecoração oferecida a profissionais estrangeiros.

Um programa que muda vidas – O acidente de Wang teve um impacto enorme em sua vida pessoal: “Antes eu gostava de jogar sinuca, basquete, essas coisas. Depois do acidente não conseguia mais. Se eu me recuperar bem, o que eu realmente espero é conseguir andar sem o auxílio de órteses. Isso melhoraria muito a minha vida.”
A lesão medular de Wang também impactou a rotina de sua família, pois ele precisava de ajuda até para atividades simples que ele antes fazia sozinho, como ir ao banheiro ou tomar banho. Sua esposa precisou largar o emprego para não deixá-lo sozinho em casa. “Agora ficou muito mais fácil, eu consigo fazer a maior parte das coisas sozinho, minha esposa voltou a trabalhar, nossa rotina praticamente voltou ao que era antes do acidente.
“Até ficar sentado era difícil. Eu tentava sentar sozinho, mas não ficava estável”, recorda Wang. “Agora, em casa, com o auxílio de órteses, consigo lavar o rosto, escovar os dentes, limpar a mesa, pegar algo num lugar alto, ir para um quarto, sair para o portão do condomínio — tudo isso eu consigo fazer sozinho. Antes eu não sentia nada abaixo do umbigo. Agora sinto na região da virilha.”
A recuperação também tem impacto positivo nas vidas do paciente e de seus familiares: “Minha recuperação está cada vez melhor e isso deixa meus pais muito felizes. Também tenho um avô, já bem idoso; na época ele ficou muito triste com o acidente e muito abalado ao me ver na cadeira de rodas. Mas quando ele me viu apoiado nas órteses, me levantando e andando de novo, ele também ficou muito contente.”
Voltar a andar exige muita dedicação: o treinamento diário de Wang costuma levar entre quatro e cinco horas. A interface cérebro-máquina é feita por eletroencefalograma (EEG): eletrodos registram a atividade elétrica do cérebro e a convertem em comandos a serem executados pelo equipamento. “Conecto o EEG à interface cérebro-máquina para me exercitar com o exoesqueleto”, esclarece Wang.
Segundo Zhao, o estudo em interface cérebro-máquina desenvolvido no Hospital Xuanwu foi o primeiro Ensaio Clínico Aleatorizado Controlado realizado na China, feito com 14 pacientes paraplégicos. Após nove meses de treinamento, metade deles teve sua lesão medular melhorada do nível HA (o mais grave) para HC. “Os pacientes apresentaram melhora inicial das funções, incluindo problemas motores e de eliminação (urina/fezes).”
Tecnologia pode ter muitas outras aplicações – Fazer paraplégicos andarem foi apenas o pontapé inicial das possibilidades abertas pelo uso médico da interface cérebro-máquina: o Hospital Xuanwu também está aplicando a tecnologia ao tratamento de afasia causada por esclerose lateral amiotrófica, hemiplegia e tetraplegia por lesão medular. Além disso, a doença mais comum baseada em anomalias elétricas cerebrais é a epilepsia. “Na China, temos cerca de 10 milhões de pacientes epilépticos, sendo que mais de 3 milhões têm epilepsia refratária a medicamentos. Por isso estamos pesquisando como fazer para cessar crises epilépticas”, afirma Zhao Guoguang. “Com o aprofundamento do conhecimento em neurociência, isso não se limitará à epilepsia — incluirá problemas de memória, comportamentos obsessivos, quadros graves de depressão e outras doenças psiquiátricas.”
A inclusão da interface cérebro-máquina na lista das seis grandes indústrias do futuro que o governo chinês decidiu priorizar nos próximos quinze anos é um sinal claro de que o país compreende a importância do desenvolvimento dessa tecnologia. “Através do cultivo, pretende-se formar uma nova base industrial no futuro. Embora essa tecnologia ainda esteja num estágio inicial, sua curva de crescimento no futuro será exponencial, por isso damos muita importância a ela no nível político”, explica Zhao Wenjing, pesquisadora adjunta do Centro Nacional de Informática.
Ela afirma que as pesquisas em interface cérebro-máquina começaram na área médica, com o objetivo de ajudar pacientes a recuperar a saúde, mas seu escopo de aplicação é bem mais amplo: “Neste momento, o campo de aplicação se expande completamente. Por exemplo, em uma fábrica do futuro, um trabalhador pode usar um dispositivo de interface cérebro-máquina e circular pelos corredores controlando as máquinas ao redor. Dessa forma é possível produzir, monitorar e também aumentar a eficiência da colaboração homem-máquina.”
Para além da indústria, Wenjing prevê cenários de aplicação em nossa vida diária. “Com um dispositivo não invasivo de interface cérebro-máquina não invasivo, podemos pensar em acender a luz e a luz se acende. Se quisermos controlar a temperatura do ar-condicionado para 26 graus, ela se ajusta para 26 graus. Penso em ligar a televisão e ela liga. É uma ideia bem futurista, mas com o amadurecimento contínuo dessa tecnologia na China, junto com sua implementação em escala industrial e a expansão contínua dos cenários de aplicação, isso não está longe de acontecer.”
Este texto foi publicado originalmente na revista China Hoje. Clique aqui, inscreva-se na nossa comunidade, receba gratuitamente uma assinatura digital e tenha acesso ao conteúdo completo.

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