Por Rômulo Neves*
A China anunciou a isenção total de tarifas de importação para 53 países africanos a partir de 1º de maio deste ano – apenas Essuatíni, sem relações diplomáticas com Pequim, ficou de fora. A medida tem impacto global, pois envolve mercados que somam mais de 3 bilhões de pessoas. A decisão, apesar de unilateral, é benéfica a ambos. O ponto para o qual chamo atenção é o processo que a tornou viável: uma política externa que prioriza o continente e mantém a consistência, o foco e o propósito.
A espinha dorsal dessa política é o Fórum de Cooperação China-África, o FOCAC, evento trienal lançado em 2000, cuja 9ª edição ocorreu em setembro de 2024, em Pequim, onde a referida isenção foi decidida. O FOCAC é o primeiro esforço organizado de um país extrarregional para reunir em um mesmo evento todos os países africanos. A iniciativa da Cúpula da ASA (América do Sul-África), por exemplo, lançada em 2006 foi, em grande medida, inspirada no modelo chinês.
O FOCAC não começou com o status que tem hoje. Nas reuniões de 2000 e 2003, apesar de extensa participação africana, o nível de representação era majoritariamente ministerial, com poucos Chefes de Estado. Apenas em 2006, em sua 3ª edição, o FOCAC passou a contar com uma sessão de Cúpula, que à época já reuniu 35 Chefes de Estado africanos. Desde então, vem aumentando o nível de representatividade, tendo culminado, em 2024, com a presença de 51 Chefes de Estado africanos.
É verdade que a Europa, desde 1975; o Japão, desde 1993; e os EUA, desde 1997, organizam reuniões conjuntas de alto nível com os países africanos, mas de natureza diversa. No caso da Europa, se tratava de reunião que congregava também países do Caribe e Pacífico (ACP), no âmbito dos Acordos de Cotonou; no caso do Japão, a reunião da TICAD integrava organismos internacionais e, no início, o foco era majoritariamente cooperação. No caso dos EUA, se tratava de uma reunião empresarial, tendo ocorrido a primeira reunião organizada pelo governo apenas em 2014 e repetida apenas em 2022.
Hoje, todos esses atores, além de outros, como Índia, Turquia, Rússia, Arábia Saudita, República da Coreia e Itália, mantêm regularmente reuniões de alto nível com os países africanos conjuntamente. O modelo tem prós e contras, sendo o principal benefício a concentração em um curto espaço de diálogos de alto nível. As críticas ficam por conta do pouco espaço para os africanos individualmente em reuniões tão amplas e a dificuldade de seguimento das decisões, por razões orçamentárias ou procedimentais. Com a China, entretanto, esses problemas são vencidos por um estável e robusto acompanhamento e seguimento das decisões da reunião, consubstanciadas em um plano trienal. Além disso, Xi Jinping se reuniu bilateralmente com cada um dos presidentes que foram à China – todos os 51!
O esforço tem gerado resultados significativos. Se em 2000, por exemplo, a China era responsável por 4,3% das compras africanas – não estava tão distante da participação do Brasil naquele mercado –, atualmente, o país responde por mais de 25% das importações africanas, tendo tomado grande parte do mercado dos países europeus e dos EUA.
Pelo lado dos investimentos, o papel da China também evolui desde a criação do FOCAC: desde 2000, o país já atuou na construção de mais de 100 mil km de rodovias e de 13 mil km de ferrovias, incluindo sistemas de transporte urbano em Lagos, Adis Abeba e Kampala. A realidade no setor de infraestrutura se reproduz em outros, como saúde, educação e tecnologia.
Obviamente, as relações da China com a África não começaram com o FOCAC. Em 1955, durante a Conferência de Bandung, foram estabelecidas relações com o Egito, primeiro país africano a reconhecer a República Popular da China (RPCh), fundada em 1949. O período era de consolidação do novo Estado. Essa fase foi marcada pela visita do primeiro-ministro Zhou Enlai a dez países, em uma viagem de quase três meses – três meses inteiros!! – visitando e conhecendo os países africanos entre 1963 e 1964. O ponto de convergência era a luta anticolonial e o principal interesse chinês era o reconhecimento político, na campanha para a entrada na ONU como o único representante legítimo do país, para o qual contou com apoio decisivo dos africanos em 1971: 26 dos 41 países africanos no órgão à época votaram pela substituição de Taiwan pela RPCh na entidade e no Conselho de Segurança. Proporcionalmente, foi o maior apoio regional à decisão.
Paralelamente ao esforço político, já a partir de 1967, a China passaria a atuar no financiamento de infraestrutura, com o início das obras da Ferrovia Tanzânia-Zâmbia. Já na década de 1970, teria mais operações de cooperação técnica na África do que os EUA e, em 1978, já matinha relações diplomáticas com 43 dos então 50 países da África.
Não se trata, portanto, de uma relação nova, mas de muita dedicação, planejamento e execução com propósito. Fica a lição.
*Rômulo Neves é diplomata e está em seu terceiro posto no continente africano, como ministro-conselheiro na Embaixada em Kigali, Ruanda, desde agosto de 2025. É autor do livro “Política Externa do Brasil para a África desde 1822: Irmãos por parte de pai”.
Este texto foi publicado originalmente na revista China Hoje. Clique aqui, inscreva-se na nossa comunidade, receba gratuitamente uma assinatura digital e tenha acesso ao conteúdo completo.

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