Por Lucia Marina dos Santos*
A emergência climática e as desigualdades socioeconômicas impõem um urgente reposicionamento das estratégias de desenvolvimento no século XXI. Enfrentar tais desafios exige um novo paradigma baseado na justiça social, sustentabilidade e solidariedade entre os povos. Nesse contexto, uma delegação de parlamentares e lideranças do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) realizou uma visita inédita à China com o objetivo de fortalecer parcerias para o desenvolvimento rural sustentável, segurança alimentar e intercâmbio tecnológico.
Como deputada e militante do MST, entendo que superar a crise ambiental e social requer a articulação entre ação popular e políticas públicas eficazes. No Brasil, o Partido dos Trabalhadores (PT) tem protagonizado iniciativas voltadas à inclusão social e à valorização da agricultura familiar. O MST, por sua vez, representa uma das principais forças organizadas na luta pela democratização da terra e por práticas agroecológicas.
A China tem se projetado como uma potência que busca integrar crescimento econômico com responsabilidade ambiental. Em sua obra Governança da China, o presidente Xi Jinping enfatiza a segurança alimentar e a transição ecológica como bases para a estabilidade social — princípios que dialogam com a atuação do MST na produção de alimentos saudáveis, no respeito aos ciclos naturais e na geração de renda para famílias agricultoras.
Historicamente, a relação entre os governos chinês e brasileiro, especialmente durante os mandatos petistas, tem sido marcada pelo respeito mútuo e pela cooperação. Desde a visita do presidente Lula à China em 2004 e a criação do Fórum de Diálogo China-Brasil, os laços bilaterais se intensificaram, inclusive na agricultura. Hoje, a China é o principal parceiro comercial agrícola do Brasil, demonstrando interesse crescente na agricultura familiar, especialmente em áreas como bioinsumos e produção sustentável.
Em março deste ano, foi dado mais um passo importante nesta caminhada conjunta: uma visita à China da delegação de parlamentares representantes do MST, da qual fiz parte, ao lado dos deputados Rosa Amorim (PT-PE), Mauro Rubem (PT-GO), Missias do MST (PT-CE) e Goura Nataraj (PDT-PR) e dos vereadores Edilson do MST (PT-PE) e Tito do MST (PT-PA). A convite da Universidade Normal do Leste da China, realizamos atividades formativas, culturais e institucionais com foco em temas como mecanização agrícola, produção de bioinsumos e estratégias de enfrentamento à crise climática.
Durante a visita, dialogamos com lideranças acadêmicas e políticas, como Dilma Rousseff, presidenta do Novo Banco de Desenvolvimento, representantes do Partido Comunista da China, da Frente Única do Governo de Xangai e do Centro de Cooperação Econômica. Visitamos o Parque Industrial de Novas Mídias de Guizhou e o Instituto de Pesquisa em Reciclagem Orgânica da Universidade Agrícola da China, que atua no aproveitamento de resíduos orgânicos para produção de fertilizantes e arroz ecológico.
Um dos resultados mais promissores foi o fortalecimento da cooperação com a Universidade Agrícola da China para introdução de máquinas agrícolas de pequeno porte no Brasil, com a perspectiva de instalação de fábricas em território nacional por meio de joint ventures. Tais iniciativas podem gerar empregos, baratear a produção e impulsionar a industrialização rural.
A parceria com a Universidade de Brasília e o Consórcio Nordeste, que viabilizou a doação de 31 máquinas para assentamentos do MST, evidencia a qualidade dos equipamentos chineses e serve como modelo para novas ações. A mecanização da agricultura familiar brasileira — hoje presente em apenas 14% das propriedades, contra 87% na China — pode ser revolucionada por essas iniciativas.
Também discutimos a cooperação em bioinsumos, especialmente os derivados de resíduos urbanos, campo em que o Brasil já possui avanços em pesquisas microbiológicas. Outro ponto estratégico foi o debate sobre a abertura do mercado chinês para produtos da agricultura familiar brasileira, como mel, frutas nativas, cafés especiais e fitoterápicos. A criação de uma logística específica para a pequena produção e a ampliação das parcerias entre universidades, institutos de pesquisa e cooperativas foram temas recorrentes.
Essas experiências reforçam a importância da diplomacia popular e da cooperação entre países do Sul Global. Alianças como essa traduzem uma visão de mundo que recusa a dicotomia entre progresso e sustentabilidade. A união entre os saberes populares do MST e os avanços técnicos da China pode contribuir para um futuro onde o desenvolvimento seja, acima de tudo, humano, justo e ambientalmente responsável.
Este texto foi publicado originalmente na revista China Hoje. Clique aqui, inscreva-se na nossa comunidade, receba gratuitamente uma assinatura digital e tenha acesso ao conteúdo completo.
*Lucia Marina dos Santos, a Marina do MST, formada em assistência social e mestre em Desenvolvimento Terriotrial pela UNESP, é deputada estadual pelo Rio de Janeiro.

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