Arte e elegância dos leques chineses

Acessório indispensável e de uso universal, o leque chinês é um patrimônio cultural do país

Há muitos episódios e histórias sobre leques nos registros históricos, na literatura e nas lendas da China. Alguns são conhecidos, como o do leque de penas de ganso de Zhuge Liang, famoso estrategista militar do Período dos Três Reinos (220-280), ou o do leque de folha de bananeira que pertencia à Princesa Leque de Ferro, personagem ficcional da clássica novela Peregrinação ao Oeste. Em muitas pinturas antigas, as beldades mais sedutoras podem ser vistas ostentando um leque circular. Esses exemplos refletem a importância cultural dos leques chineses. Até hoje, muitas pessoas gostam de utilizar um leque quando se vestem com trajes tradicionais chineses, como um ornamento adicional. Ao longo dos milênios, os leques chineses têm evoluído de um acessório de uso cotidiano para um artefato que incorpora a essência de várias formas de arte e artesanato, assim como um elemento da cultura folclórica.

A cultura do leque

Os leques são populares em todos os segmentos do povo chinês, de imperadores a homens de letras e pessoas comuns. Os diferentes tipos de leque serviam como indicadores de status. Por exemplo, homens de letras preferiam leques dobráveis; estrategistas militares e taoístas preferiam leques de penas; moças de famílias nobres gostavam de leques circulares, enquanto as pessoas comuns costumavam usar leques de folhas de palma.

A razão da evolução dos leques, passando de acessórios para obras de arte, está em grande medida relacionada com os homens de letras, que gostavam de usar os leques como se fossem telas para obras de arte ou para escrever poesia, e presenteavam-nos a seus amigos em ocasiões especiais. Portanto, passaram a buscar a melhor decoração para os leques, que emergiram então como obras de arte, combinando várias formas de expressão, como poesia, caligrafia, pintura, gravura e bordados.

Faz parte da cultura chinesa conceber desenhos de leques ou escrever poemas a respeito deles, além das variações sobre o que pintar ou escrever sobre os leques de papel. Há uma história a respeito de Wang Xizhi (303-361), um personagem muito conhecido por sua maestria na caligrafia chinesa. Considerado um dos maiores calígrafos chineses da história, suas obras exerceram uma grande influência nas gerações futuras, apesar de que suas obras tenham se perdido e existam apenas réplicas da dinastia Tang (618-907), preservadas até hoje. Dizem que uma vez Wang viu uma senhora idosa vendendo leques. Como era final do verão, os negócios dela não estavam indo bem. Ela parecia preocupada e Wang decidiu ajudá-la. Escreveu alguns caracteres sobre cada um dos leques e sugeriu que a mulher aumentasse o seu preço. Ao verem a caligrafia de Wang naqueles leques, as pessoas passaram a disputa-los, e logo foram vendidos.

A pintura em leques popularizou-se na dinastia Tang, e ganhou maior popularidade ainda nas dinastias Song e Yuan (960-1368). A produção de obras de arte em leques é também um gênero exclusivo da pintura chinesa. Como o espaço é limitado, os pintores precisam prestar muita atenção à composição no semicírculo do leque, portanto a criação de imagens ou cenários elegantes e únicos exige ainda maior habilidade e precisão.

Por milhares de anos, o povo chinês nunca parou de inovar no desenho e na confecção de leques, adotando diferentes materiais, como bambu, folhas de palma, madeira, papel, penas, seda, ossos e madeira de sândalo, e fazendo leques de vários tipos – circulares, quadrados, ovais, com pétalas de flores ou em formas hexagonais.

Hoje, a maioria das pessoas utiliza ventiladores ou ar-condicionado para aliviar o calor, mas em muitos lugares, especialmente entre os idosos, ainda se vê uma preferência pelos leques tradicionais. Vemos a serenidade instalar-se na mente quando imaginamos uma noite de verão com tons dourados no céu, e as mães abanando os filhos, ao som de crianças correndo em volta das ruas e tendo ao fundo mulheres agitando seus leques em danças elegantes numa praça.

Tiras entrelaçadas

Os leques com tiras de bambu entrelaçadas da província de Sichuan foram inventados pela família Gong, e por isso são chamados de leques Gong. Com uma história de mais de um século, essa arte tem sido transmitida e chega hoje à quinta geração de herdeiros.

O criador foi Gong Juewu, que demonstrava engenhosidade desde bem jovem. Além de trabalhar no campo, ele confeccionava alguns acessórios para uso diário com tiras de bambu, e os vendia para aumentar sua renda. O verão em Sichuan é escaldante, então ele fez alguns leques, que agradaram muito aos consumidores. Ao sentir que faziam sucesso, concentrou-se na produção dos leques. Ao ver que alguns acessórios de bambu ostentavam caracteres e padrões muito atraentes, sentiu-se inspirado a usar padrões e iconografia similar em seus leques. Por meio de tentativa e erro, adotou diferentes padrões em seus leques, utilizando variações de cor nos dois lados das tiras de bambu. Continuou a aprimorar as suas obras, tornando as tiras de bambu mais finas, de modo que os padrões alternados de seus leques ficassem mais refinados e complexos. Os leques Gong costumam ter o formato de pêssego, com uma largura de 20 centímetros, borda de bambu mossô (um tipo de bambu chinês, de grande porte), cabo feito de osso de boi ou de jade e padrões de flores na superfície.

Gong Yuzhang, filho de Gong Juewu, é o herdeiro de segunda geração dos leques Gong, e cuidou de aprimorá-los e de promover os produtos. Ele começou a entretecer cenas de montanhas e rios, figuras humanas, flores e pássaros, peixes e insetos, além de caracteres da caligrafia chinesa. Uma vez, um homem de negócios trouxe uma foto de uma linda mulher chinesa com metade do rosto semioculta atrás de um leque transparente. O homem queria que Gong reproduzisse a cena mostrando essas gradações. Gong, utilizando tiras de bambu de grossura e densidade diferentes, fez uma vívida recriação da foto da mulher, com o rosto atrás do leque. Desde então, sua reputação se expandiu. Algumas autoridades e personagens eminentes convidaram Gong às suas casas para que fizesse seus leques característicos.

Fazer um leque Gong envolve um processo intrincado. Como matéria-prima, deve-se selecionar um tipo especial de bambu local, com um ano de idade, que permite que as tiras de bambu processadas cm ferramentas especiais fiquem cristalinas e um pouco lustrosas. A preparação do material requer trabalho manual, com a ajuda apenas de uma faca. Os procedimentos seguintes incluem entretecer o padrão e a borda, além de colar certas partes. A superfície do leque é tão fina quanto as asas de uma cigarra, deixando-o muito leve. Muitas pessoas chegam a supor equivocadamente que é feito de fios de algodão.

O passo crucial é fazer as tiras de bambu. Quanto mais finas as tiras, maior a nitidez e o efeito realista. Gong Yuzhang inventou um conjunto de ferramentas, com as quais consegue fazer tiras de bambu da grossura de um fio de cabelo, além de outras similares a penas, que podem ser usadas para representar pardais com diversos tipos de plumagem. Às vezes, ele faz pequenos furos nas tiras finas para criar sobrancelhas humanas. Também utiliza tiras de bambu de cores diferentes para produzir efeitos de luz e sombra. As imagens nos leques podem ser de cenários naturais, aves, animais e flores, e todos têm um aspecto vívido e realista.

Gong Daoyong, o herdeiro da quarta geração, reduziu ainda mais a grossura das tiras de bambu, de 0,025 mm para 0,01-0,015 mm e encolheu a largura em 30%. Isso significa que a tira de bambu tem a impressionante finura de um sétimo de um fio de cabelo. Com isso, a superfície do leque fica ainda mais fina e produz um efeito de semitransparência. A filha e a sobrinha de Gong Daoyong são a quinta geração de herdeiros dos leques Gong. Elas afirmam que o segredo para manter a popularidade dos leques Gong é o esforço constante para alcançar a perfeição.

Em 2008, a habilidade de confeccionar leques Gong foi designada como um bem cultural imaterial do país.

Leques dobráveis

Os leques dobráveis feitos em Rongchang, distrito da Municipalidade de Chongqing, são populares em todo o país por seu design único, técnica sofisticada, materiais bem escolhidos e peso leve. Como Chongqing ficava sob a administração da província de Sichuan, os leques dobráveis de Rongchang são também chamados de leques Chuan.

A história dos leques dobráveis de Rongchang remonta à dinastia Song (960-1279). Durante o reinado do imperador Yongle (1402-1424), da dinastia Ming, os leques de Rongchang eram produzidos em larga escala, o que tornou Rongchang um dos três maiores produtores de leques do país, com mais de 10 mil de seus refinados leques sendo oferecidos à corte imperial todos os anos. A partir de meados e do final da dinastia Qing (1644-1911), os leques de Rongchang tiveram grande desenvolvimento, deixando de ser negócios familiares e adotando uma produção profissional.

Em 1842, foi criada uma associação industrial para produzir leques de Rongchang, a fim de reunir os produtores, expandir a escala da produção e melhorar a administração e as técnicas, incrementando com isso o desenvolvimento geral dos leques de Rongchang. Ao final da dinastia Qing, Rongchang tinha mais de 200 oficinas de confecção de leques e mais de 2 mil empregados, com uma produção anual de quatro milhões de leques dobráveis.

A produção de um leque de Rongchang envolve intenso trabalho manual em seus cerca de 145 procedimentos, incluindo tingimento, cola, pintura, gravação e entalhe.

No entanto, com a chegada dos ventiladores e dos condicionadores de ar, os tradicionais leques de Rongchang enfrentaram a obsolescência. Diante desse dilema, Chen Zifu, que nasceu numa família de artesãos de leques em Rongchang, começou a pensar em inovação.

Tradicionalmente, a superfície dos leques dobráveis é feita de papel ou de seda, mas Chen escolheu o tecido rami local, em cores simples, mas elegantes, com uma textura um pouco mais rústica e rígida. Por meio de tentativa e erro e tomando emprestadas as técnicas tradicionais de montar telas numa moldura para a pintura ou caligrafia, Chen criou seus leques de tecido rami, que acabaram ficando muito populares no mercado.

Por ocasião das celebrações pelo 50° aniversário da Fundação da República Popular da China, Chen concebeu e produziu um conjunto de leques comemorativos, empregando várias técnicas, como pirogravura, desenhos coloridos e incisões. Sua iniciativa popularizou ainda mais os tradicionais leques dobráveis de Rongchang.

A nova técnica trouxe boa sorte a Chen, e ele se dispôs a compartilhá-la com seus pares, convidando-os ao seu estúdio e mostrando-lhes o processo da produção, já que seu desejo é que cada vez mais pessoas dominem a técnica e aumentem a produção de leques de tecido rami. Ele acredita que com a expansão da produção e o enriquecimento da variedade de desenhos, a reputação dos leques dobráveis de Rongchang irá aumentar, e isso trará novas oportunidade de desenvolvimento e maiores perspectivas de crescimento.

Em 2008, a técnica de confecção dos leques dobráveis de Rongchang foi incluída na lista nacional dos bens culturais materiais.

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