Por Evandro Menezes de Carvalho (高文勇)*
O livro intitulado “Histórias sobre os que não temiam fantasmas”, publicado pela Edições em Línguas Estrangeiras, da China, reúne trechos de contos chineses que narram o encontro de pessoas com figuras fantasmagóricas, umas até mesmo belas e refinadas a ponto das personagens humanas se sentirem atraídas.
No conto Fênix Verde, um jovem de 21 anos chamado Geng Qubing, descrito como “exuberante e bom conversador”, decide entrar na mansão de sua família que havia sido abandonada, mas que, à noite, se ouvia risos, cantos e músicas. Qubing se depara com uma família de fantasmas que estavam à mesa e indaga o fantasma mais velho: “Estes são os nossos aposentos privados, mas vocês apoderaram-se deles e estão aqui para beber sem convidar o vosso anfitrião. Não lhe parece uma mesquinhez?”
O velho fantasma convida Qubing para sentar-se à mesa e oferece-lhe uma taça. A esposa, o filho e a sobrinha do homem-fantasma, que haviam se assustado com a presença inesperada de Qubing, retornam à mesa atravessando as cortinas da sala. Qubing encanta-se com a sobrinha que se chamava Fênix Verde. E disse exaltado e bêbado: “Se um homem tivesse uma mulher assim, não a trocaria por um reino!”. Ele retorna na noite seguinte na esperança de encontrá-la. Mas sente apenas o perfume dela. Desolado, decide sentar-se à uma escrivaninha no andar de baixo da casa abandonada para ler. Então “apareceu um fantasma de cabelo crespo e face negra como o carvão, que o olhou fixamente de olhos arregalados. Qubing riu-se, mergulhou o dedo no tinteiro e, depois de lambuzar a cara com tinta, esbugalhou também os olhos para o fantasma. Humilhado, este desapareceu.”¹
No conto O que diz Cao Zhuxu, um homem decide dormir na biblioteca da casa de um amigo, mesmo advertido de que aquela biblioteca era assombrada. A certa altura da noite aparece-lhe uma mulher fantasma de cabelos soltos e uma língua pendida na boca “como fazem os enforcados”. Cao não se assustou. Pelo contrário, riu e falou: “O cabelo, embora bastante desgrenhado, continua a ser cabelo. E a língua, apesar de um pouco saída, continua a ser uma língua. Que tem isso de assustador?” A fantasma retirou sua própria cabeça do corpo e pôs em cima da mesa. Cao novamente riu e disse: “Se eu não te temo com cabeça, porque te hei-de temer sem ela!”² A fantasma sumiu. Provavelmente, penso eu, tão desapontada como um mágico que tem os seus truques revelados por uma criança.
Qubing e Cao desprezaram e enfrentaram, cada um ao seu modo, os fantasmas que lhes apareceram. Quando se os desafia, descobre-se que nada há neles de assustador. O fantasma de outro conto intitulado Sete Contos da Garrafa de Ouro faz uma honesta confissão: “A verdade é que são os fantasmas que temem os homens”.³
Este livro é uma ótima analogia para ref letirmos sobre os tempos atuais. Há muitas pessoas que passaram a acreditar em fantasmas com tal facilidade que os assusta a simples possibilidade de encarar a realidade de que eles não existem. Estes contos lembram da importância de se olhar a realidade de maneira objetiva, científica e destemida; e não com base em miragens, ilusões e medos. Além disso, nos faz pensar sobre a nossa relação com quem é diferente de nós. Não se pode associar o estrangeiro como alguém que devemos temer como se fossem fantasmas. Daí a importância do diálogo entre os povos que define a Iniciativa de Civilização Global proposta pelo presidente chinês Xi Jinping.
Em seu discurso no Diálogo de Alto Nível entre o PCCh e Partidos Políticos do Mundo, realizado em Beijing em 2017, Xi Jinping fala da importância de continuar a contribuir “para o intercâmbio e a aprendizagem entre as civilizações”. Afinal, disse ele, “como diz um ditado chinês, usam-se pedras de outras montanhas para polir jade.” É preciso aprender com outras civilizações, tais como a chinesa, a latino-americana, a africana, a persa, a islâmica, a hindu, por exemplo. É neste contato direto com outras civilizações que afastamos os fantasmas que assombram a humanidade devido a visões simplistas e distorcidas da realidade sobre a vida dos diversos povos da humanidade. O medo que devemos ter é da nossa ignorância. Este é o verdadeiro fantasma que assombra a humanidade.
*Editor Executivo-Chefe da China Hoje, professor de direito internacional da UFF e da FGV.
Este texto foi publicado originalmente na revista China Hoje. Clique aqui, inscreva-se na nossa comunidade, receba gratuitamente uma assinatura digital e tenha acesso ao conteúdo completo.
1 . Instituto de Literatura da Academia de Ciências Sociais da China. Histórias sobre os que não temiam fantasmas. Beijing: Edições em Línguas Estrangeiras, 2023, pág. 77.
2 . Instituto de Literatura da Academia de Ciências Sociais da China. Histórias sobre os que não temiam fantasmas. Beijing: Edições em Línguas Estrangeiras, 2023, pág. 102-103.
3 . Instituto de Literatura da Academia de Ciências Sociais da China. Histórias sobre os que não temiam fantasmas. Beijing: Edições em Línguas Estrangeiras, 2023, pág. 9.

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