A China está entrando em um período decisivo de cinco anos em sua estratégia de desenvolvimento, com o objetivo de avançar rumo à modernização de sua população de 1,4 bilhão de pessoas até 2035. O plano faz parte do rascunho do 15º Plano Quinquenal (2026-2030), atualmente em análise na sessão anual da Assembleia Popular Nacional.
Segundo o documento, o país pretende estabelecer bases sólidas para dobrar o Produto Interno Bruto (PIB) per capita registrado em 2020, elevando-o para mais de 20 mil dólares até 2035, nível típico de economias moderadamente desenvolvidas. A meta também inclui avanços significativos na força econômica, capacidade científica e tecnológica, defesa nacional e influência internacional do país, além da melhoria das condições de vida da população.
A escala do desafio é inédita. Até hoje, menos de 30 países e regiões alcançaram níveis avançados de modernização, somando juntos menos de 1 bilhão de habitantes, muito abaixo da população chinesa.
Desafios estruturais
O tamanho da população impõe desafios significativos. A disponibilidade per capita de terras agrícolas, água e petróleo na China é inferior à média global. Além disso, o país enfrenta mudanças demográficas importantes, como queda nas taxas de natalidade e envelhecimento acelerado da população, fatores que pressionam políticas sociais e econômicas.
Para o pesquisador Fu Zheng, da Academia Chinesa de Ciências Sociais, essas condições tornam impossível simplesmente replicar modelos de modernização adotados por países ocidentais. Segundo ele, a China precisa seguir um caminho próprio, adaptado às suas circunstâncias e características.
Desenvolvimento de alta qualidade
O núcleo dessa estratégia é o chamado desenvolvimento de alta qualidade, guiado por um novo modelo de crescimento baseado em inovação, coordenação regional, sustentabilidade ambiental, abertura econômica e desenvolvimento compartilhado. De acordo com o plano, os investimentos em pesquisa e desenvolvimento deverão crescer mais de 7% ao ano durante o período de 2026 a 2030.
Também está prevista a ampliação da economia digital, que deverá representar 12,5% do PIB até o final do período. A transição ecológica também é uma prioridade. A China pretende reduzir em 17% as emissões de dióxido de carbono por unidade de PIB e elevar para 25% a participação de fontes de energia não fósseis no consumo energético total.
Para especialistas, essas metas indicam uma mudança estrutural no modelo econômico, substituindo o crescimento intensivo em recursos por um desenvolvimento baseado em tecnologia e sustentabilidade.
Melhorias nas condições de vida
O plano também estabelece metas sociais concretas para os próximos anos. Entre elas estão elevar a expectativa média de vida para 80 anos, aumentar o número de médicos para 3,7 por mil habitantes e elevar a taxa de urbanização permanente para 71%. Na área alimentar, a meta é atingir capacidade de produção de grãos de 725 milhões de toneladas até 2030.
Programas de renovação urbana também deverão melhorar as condições habitacionais nas cidades, enquanto investimentos em infraestrutura continuarão expandindo redes de energia, ferrovias de alta velocidade e telecomunicações.
População como motor econômico
Apesar dos desafios demográficos, autoridades e especialistas apontam que a grande população chinesa também representa uma vantagem estratégica.
O país possui um vasto mercado consumidor, um grande contingente de talentos e inúmeros cenários de aplicação para novas tecnologias. O plano prevê medidas para aproveitar esse potencial, incluindo políticas de incentivo à natalidade, melhor distribuição de recursos educacionais e expansão dos serviços de cuidados para idosos.
Segundo Zhang Shuibo, professor da Universidade de Tianjin, essas medidas podem fortalecer o mercado interno e impulsionar a inovação tecnológica.
Impacto global
Se a China alcançar seus objetivos de modernização até 2035, a proporção da população mundial vivendo em sociedades modernizadas poderá mais que dobrar, passando de cerca de um sétimo para aproximadamente um terço da humanidade. Além disso, o enorme mercado interno chinês deverá continuar funcionando como um importante motor da economia global.
A China já é o segundo maior mercado importador do mundo, e o crescimento da classe média tende a ampliar ainda mais a demanda por bens e serviços. Segundo o ministro do Comércio, Wang Wentao, o país continuará abrindo seu mercado e ampliando importações, ao mesmo tempo em que busca manter o crescimento das exportações.
Empresas estrangeiras também veem oportunidades no país. Grupos internacionais como a LEGO Group e a Airbus já indicaram planos de ampliar investimentos no mercado chinês.
Para especialistas internacionais, a experiência chinesa também pode servir de referência para países em desenvolvimento, mostrando que a modernização pode seguir caminhos diferentes, adaptados às realidades nacionais.

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