O 15º Plano Quinquenal da China: nova fase de modernização e responsabilidade global

Por Evandro Menezes de Carvalho (高文勇)*

A Quarta Sessão Plenária do 20º Comitê Central do Partido Comunista da China adotou recomendações para o 15º Plano Quinquenal (2026–2030) em um momento decisivo na trajetória do país rumo à formação de uma sociedade próspera e avançada. Há uma expectativa da população em relação ao modo como os líderes chineses enfrentarão certas questões estruturais com as quais devem lidar, tais como o envelhecimento populacional, as desigualdades regionais e a necessidade de atualizar indústrias tradicionais. As pressões externas, sobretudo as tensões geopolíticas com os Estados Unidos com o aprofundamento da competição tecnológica, adicionam uma complexidade na implementação e gestão das políticas públicas internas e na condução de sua política externa.

Contudo, tem sido provada ao longo dos anos a capacidade de adaptação do modelo de governança da China ante novas e difíceis circunstâncias. Se analisarmos o período do 14º Plano Quinquenal (2021–2025), a China cumpriu, em grande parte, as metas principais ali estabelecidas mesmo após ter enfrentado os efeitos remanescentes da pandemia de Covid-19. O governo fez, ainda, os ajustes estruturais no setor imobiliário e suportou as pressões externas decorrentes das disrupções nas cadeias globais de suprimentos e do avanço de tendências protecionistas no mundo.

Diversos temas no comunicado final da Quarta Sessão Plenária merecem destaque. A ênfase na autossuficiência tecnológica e nas novas forças produtivas de qualidade reflete a resposta estratégica da China aos riscos decorrentes do desacoplamento tecnológico global. A Iniciativa China Digital denota a intenção de Pequim de assegurar a sua liderança nas tecnologias de fronteira, integrando inovação e modernização industrial. O compromisso com o desenvolvimento verde destaca-se tanto como necessidade nacional diante do objetivo de constituição de uma “civilização ecológica”, quanto como responsabilidade global. Guiada pelas metas duplas de atingir o pico de emissões em 2030 e a neutralidade de carbono em 2060, a China, no âmbito do 15º Plano Quinquenal, acelerará a implementação da Iniciativa Bela China promovendo indústrias e estilos de vida ecologicamente sustentáveis.

Ao colocar os residentes rurais no topo da agenda de trabalho do Partido e ressaltar a Iniciativa China Saudável, os líderes chineses deixam claro para a população que a prosperidade comum e o bem-estar do povo dependem da integração entre zona rural e áreas urbanas, sendo esta uma das prioridades orientadoras das políticas públicas do governo para os próximos cinco anos. Por fim, a busca por uma cooperação de alta qualidade na Iniciativa Cinturão e Rota transmite um sinal importante de que a China continuará a promover uma abertura de alto padrão na relação com os países parceiros das novas rotas da seda, alinhando-se à visão de longo prazo de Pequim de construir uma “comunidade com futuro compartilhado para a humanidade”.

Como segunda maior economia do mundo e principal parceira comercial de, aproximadamente, 140 países, os Planos Quinquenais da China exercerão, cada vez mais, um efeito muito além de suas fronteiras. Para as nações do Sul Global, o modelo de governança chinês representa uma alternativa aos paradigmas de desenvolvimento dependentes de ciclos políticos de curto prazo ou de prescrições externas. Ainda, ele reforça a ideia de que planejamento e inovação podem coexistir, e que previsibilidade política pode caminhar junto com abertura econômica.

Importante ressaltar que o comunicado posiciona o 15º Plano Quinquenal dentro do projeto mais amplo de modernização chinesa, cujo objetivo é alcançar não só a prosperidade comum, mas fazê-la em harmonia entre ser humano e natureza. Diferentemente do modelo ocidental, que historicamente se apoiou na expansão colonial e na exploração desenfreada dos recursos naturais, a modernização chinesa tem enfatizado a sustentabilidade, a inclusividade e a responsabilidade moral com a preservação da natureza para futuras gerações. Essa visão ressoa especialmente entre os países em desenvolvimento que buscam conciliar crescimento com justiça social e proteção ambiental. Há muito a ser feito, de fato. Mas a orientação política do Partido Comunista da China de construir uma “civilização ecológica” aponta para a constituição não só de um novo modelo de desenvolvimento, mas também de sociedade.

Ao demonstrar que a modernização pode seguir caminhos civilizacionais diversos daqueles que foram seguidos pelo Ocidente industrializado, a China desafia a noção de um modelo único e universal de desenvolvimento. A dimensão cultural dessa modernização ancorada no legado da filosofia chinesa acrescenta uma profundidade moral muitas vezes ausente nos paradigmas puramente econômicos. Ao mesmo tempo, o apelo do caminho chinês não está em exportar um modelo fixo, mas em compartilhar experiências: como a continuidade governamental, o investimento público em infraestrutura e a orientação estratégica para a ciência e a educação como fatores capazes de transformar o destino de uma nação em poucas décadas.

À medida que a China se prepara para implementar o 15º Plano Quinquenal, o mundo observará atentamente como o país gerenciará seu duplo papel de reformador interno e ator global de primeira grandeza. Para os observadores estrangeiros, a mensagem é clara: a trajetória futura da China continuará a moldar a ordem econômica e política mundial. Em uma era marcada pela fragmentação e pela desconfiança, a governança chinesa liderada pelo Partido Comunista da China oferece um caminho promissor, mais estável e confiável. Ao estabelecer os princípios orientadores e os principais objetivos para o 15º Plano Quinquenal (2026–2030) na jornada da nação rumo à modernização socialista até 2035, o Partido Comunista da China buscou combinar transformação doméstica com uma estratégia externa voltada para uma globalização cooperativa, inclusiva e, portanto, mais democrática internacionalmente.


*Editor-Chefe da revista China Hoje. Professor da UFF e FGV. Professor da Cátedra Wutong da Universidade de Língua e Cultura de Beijing (BLCU).

Este texto foi publicado originalmente na revista China Hoje. Clique aqui, inscreva-se na nossa comunidade, receba gratuitamente uma assinatura digital e tenha acesso ao conteúdo completo.

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