Por Jussara Goyano
Aos 58 anos, a paulistana Rosana Barbosa deu uma guinada em sua carreira. De uma trajetória na área comercial, ela buscou formação em Turismo e hoje, turismóloga, empreende nesse setor, olhando para o potencial turístico das cidades e empoderando mulheres (sobretudo 40+) para que viajem sozinhas e se encantem com novas culturas e horizontes pessoais. Também auxilia aqueles que, como ela, se embrenham nesse universo como empreendedores. Dá aulas e mentorias e fala com grande satisfação de todas essas conquistas. “Encontrei o meu propósito”, ela conta.
A empresária faz parte de uma longeva parcela da população brasileira, que, ao chegar aos 60 anos (marco para ser considerado um idoso no país), terá outras fontes de renda que não a aposentadoria, viverá experiências profissionais e pessoais diversificadas, diferenciadas e satisfatórias, com o suporte da (ou em suporte à) chamada economia grisalha ou prateada. Um movimento que faz circular US$ 7,1 trilhões anualmente no mundo todo e que, no Brasil, está a todo vapor, oferecendo oportunidades de trabalho, negócios, serviços e produtos, com um olhar em direção à maior qualidade de vida da terceira idade em diante.
Essa movimentação se explica pelo fato de que a população brasileira vem envelhecendo – pela progressão, estima-se que em 2030 os idosos ultrapassem os jovens nos resultados dos censos. Segundo a última contagem do IBGE, que realiza essa projeção, eles somam 32.113.490 (15,6% da população). Um aumento de 56,0% em relação a 2010, quando eram 20.590.597 (10,8% da população).
Como Rosana o fez, há uma tendência em empreender com mais de 50 anos no país. O número de novos negócios abertos por empresários seniores chegou a 13,3% em 2024 (o maior percentual desde 2002, segundo o GEM – Monitoramento Global do Empreendedorismo). E quem não fez uma guinada radical ao empreendedorismo, como a turismóloga Rosana, está procurando manter-se no mercado de trabalho, mesmo com idade para a aposentadoria.
Houve um incremento significativo nas vagas sendo oferecidas a esse público. De acordo com a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), do Ministério do Trabalho e Emprego, o grupo dos 50+ cresceu 8,8% entre 2023 e 2024 nos empregos formais (quase 700 mil novos postos de trabalho). Para outras faixas etárias, o crescimento ficou em 2,9% no mesmo período.
A bagagem conta nas entrevistas, segundo a gerente de Recursos Humanos da IBL Logística, Regilane Assunção. “Contratar profissionais acima de 50 anos é investir em maturidade, responsabilidade e inteligência emocional. São pessoas com vivência, capacidade de adaptação e, muitas vezes, com um olhar estratégico que complementa e enriquece qualquer equipe”, avalia.
As vagas, por sua vez, são cada vez mais disputadas. “Desde 2023, promovemos uma semana exclusiva de contratação de pessoas com 50 anos ou mais e tem sido um grande sucesso. Na ocasião, cerca de 400 pessoas se inscreveram, mais que o dobro da quantidade média de candidatos em outros períodos do ano”, conta Paulo Nogueira, Diretor de Gente e Gestão do Grupo Pereira, rede do varejo que atua do centro ao sul do país. Foi a primeira varejista brasileira a receber o selo CAFE (Certified Age Friendly Employer), concedido pelo norte-americano Age Friendly Institute a empresas que promovem a contratação e retenção de funcionários 50+.

Consumo em alta – Com renda anual estimada em R$ 940 bilhões, o público 50+ movimenta cerca de R$ 2 trilhões por ano no consumo de bens e serviços, de acordo com levantamento da consultoria Data8, divulgado pelo Sebrae. Isso representa 23% de todo o consumo nacional — uma fatia que tende a crescer nas próximas décadas.
A Fundação Getulio Vargas (FGV) aponta que 17% das pessoas com mais de 65 anos integram a faixa dos 5% mais ricos do país, o que reforça o protagonismo financeiro da geração 50+. E os hábitos de consumo acompanham esse poder aquisitivo: uma pesquisa do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) mostra que 41% dos idosos gastam mais com desejos do que com necessidades básicas.
Para 66% deles, aproveitar a vida é prioridade – o que, para alegria de Rosana, a empresária do ramo turístico – amplia o interesse por experiências, lazer, turismo e bem-estar. Para além dos interesses, mas em favor de certas demandas do público sênior, um mercado em ascensão é o de cuidados. Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), entre 2012 e 2022, o setor cresceu 547% no Brasil. Já o mercado global de saúde domiciliar, no qual se inclui o cuidado de idosos, movimentou US$ 309,07 bilhões em 2024, projetando uma movimentação de US$ 500,39 bilhões até 2029.
Nem só flores – Ao mesmo tempo que uma população longeva é fato e está sendo acompanhada por um movimento econômico positivo, o etarismo estrutural é relatado na sociedade brasileira. Segundo Regilane, da IBL, “o preconceito ainda é um obstáculo para a inclusão plena no mercado de trabalho”. O clash geracional nas empresas é, talvez, a maior demonstração desse problema cultural: millennials e boomers encontram barreiras de comunicação e desenvoltura tecnológica é tabu que ainda envolve o trabalho sênior.
“Muitos candidatos que chegam às nossas lojas contam que haviam sido rejeitados pelo mercado de trabalho por conta da sua idade”, comenta Nogueira, do Grupo Pereira. “Contudo, a busca por igualdade de oportunidades segue sendo uma pauta importante para o fortalecimento de políticas públicas e ações afirmativas nas empresas”, entende, por sua vez, Regilane.
Fora do Brasil também podem surgir os mesmos problemas. A turismóloga Rosana conta uma experiência vivida no exterior, quando se candidatou como voluntária para diversos trabalhos em empresas do ramo turístico em Portugal. “Eu me candidatei para 18 vagas, para cinco eu fiz entrevistas, e das cinco eu fui aceita em duas, e eu pude escolher. Em uma delas rolou essa questão do etarismo muito nítida. Em nenhum momento me abalou, porque eu já estava trazendo muitas respostas, eu já estava trazendo muitos resultados por empresas onde eu tinha passado aqui”, lembra, sobre a resiliência e a consciência necessárias para enfrentar esse tipo de situação.
Além de uma renda média baixa na aposentadoria (em torno de R$2900,00 segundo a Glassdor), os sêniores ativos no mercado de trabalho muitas vezes persistem em atividades com baixa remuneração e exigência educacional, segundo a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) correspondentes às vagas ocupadas.
Felipe Vella Pateo, coordenador-geral de Estudos e Estatísticas do Trabalho, enfatiza que “a estrutura econômica do Brasil continua gerando predominantemente postos de trabalho em setores básicos de serviços, subutilizando o potencial desses profissionais experientes”. Ele destaca o potencial de transferência de conhecimento em setores mais avançados da economia. “Embora muitos desses profissionais demonstrem resiliência e dedicação ao permanecerem ativos no mercado de trabalho em fases avançadas da vida, é imprescindível abordar os desafios que enfrentam. Baixos salários, falta de oportunidades de progressão na carreira e discriminação etária são questões prementes que merecem atenção”, diz Pateo, em comunicação divulgada pelo Ministério de Trabalho e Emprego sobre o tema.
Entre aposentados, há ainda a disparidade regional na renda, como pode ser visto nas médias das capitais: em Manaus (AM), 1 salário mínimo é o oferecido a quase 50% dessa população; em São Paulo (SP), 32,35% ficam com 1 a 2 salários mínimos; Florianópolis (SC), oferece entre 2 e 5 salários mínimos a 30,35% dos aposentados.
A contar de agora, quando esta reportagem está sendo escrita, até que as projeções do IBGE de que os idosos superem os jovens no censo populacional sejam cumpridas, são aproximadamente 5 anos e meio – tempo curto para fazer com que os rendimentos dos sêniores avancem em paridade ao ritmo da economia prateada global. Políticas públicas e mercado tendem a acompanhar o movimento (como têm feito), mesmo devagar e alguns passos atrás, mas não é só isso. No campo individual, longe da aposentadoria e contra qualquer obstáculo cultural, Rosana Barbosa aconselha: “Abram os olhos, aprendam e se desenvolvam. Porque hoje, as pessoas da minha idade continuam fazendo as mesmas coisas, dentro de crenças limitantes [da velhice]. E elas não abrem os olhos delas para o novo”, entende a empresária, certa de que aprender e se reciclar, e entender sua própria potência, é importante para que a sociedade mais longeva seja também saudável, próspera e encare o envelhecimento de maneira mais positiva.

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