As relações entre o Brasil e a China no contexto do BRICS ampliado no ano de 2025

Por Sérgio Ricardo Rodrigues Castilho*

Uma análise, ainda que breve como esta, acerca das relações entre o Brasil e a China no contexto do BRICS no ano que se passou, não pode deixar de levar em consideração os fatores macro-históricos e estruturais. Estes fatores apontam, como a imensa maioria dos analistas e centros de geopolítica mundial não deixam dúvidas, que a liderança dos EUA secundada pela Europa no cenário global e a arquitetura institucional construída após a Segunda Guerra Mundial perdem crescentemente sua legitimidade política e seu caráter exemplar no plano econômico.

É no contexto do protagonismo global da China, bem como de ascensão dos países do chamado Sul Global e, especialmente do Leste Asiático, que devemos analisar as relações do Brasil com o país asiático e com o BRICS Ampliado. Como sabemos, desde 2022 o BRICS vem discutindo sua ampliação e, em 2023, se tornaram membros o Egito, a Etiópia, o Irã, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos; em 2024, na Cúpula de Kazan foi criada a figura do País Parceiro e, em janeiro de 2025, foi anunciado que a Indonésia se tornou membro, assim como foram anunciados nove países parceiros: Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda e Uzbequistão (Marques da Silva e Lima, 2025: 9-12). Com essa configuração o BRICS Ampliado representa mais de 50% da população mundial e cerca de 40% do PIB global.

A parceria com a China, portanto, está longe de ser ideológica, como acusa a extrema direita irresponsável, impondo-se tanto em termos pragmáticos quanto em termos da possibilidade da construção de um projeto de desenvolvimento. As relações com a China e os BRICS ampliados são convergentes, com os BRICS funcionando como plataforma amplificadora dessa relação bilateral. Isso porque o engajamento com esses últimos permite a participação numa “(…) plataforma de diálogo e projeção para os países em desenvolvimento, permitindo fortalecer um conjunto de iniciativas que busca retomar a questão da representatividade no âmbito da governança global” (Rached e Rodrigues, 2025: 27).

Quanto à relação entre o Brasil e a China, especificamente, o ano de 2025 representou um momento de consolidação e evolução. Embora persistam assimetrias que cabe ao Brasil transformar (buscando reduzir a dependência de commodities e pressionando por mais transferência de tecnologia e industrialização, principalmente), a parceria atingiu um novo patamar, priorizando segurança alimentar e energética, transição verde e reforma da governança global. As projeções indicam que o ano de 2025 apresentará, desde o aspecto do comércio bilateral, um crescimento moderado entre 4% e 6%, com valores entre US$ 160-175 bilhões. O estoque de investimentos chineses no Brasil ainda é menor do que o da Europa e dos EUA, mas cresce aceleradamente, e provavelmente ultrapassou a marca dos US$ 100 bilhões.

O ponto alto do ano desde nossa perspectiva foi, evidentemente, a realização da 17ª Cúpula do BRICS realizada nos dias 6 e 7 de julho de 2025, no Rio de Janeiro, sob a presidência rotativa do Brasil. O encontro reuniu líderes e representantes dos onze países-membros e abordou temas centrais para a cooperação global do Sul Global. A cúpula aprovou a “Declaração do Rio de Janeiro”, que inclui 126 compromissos em diversas áreas, como: apoio ao multilateralismo e à defesa do direito internacional; defesa de reformas na ONU, no FMI e no BM de forma a garantir uma maior representação de países em desenvolvimento; utilização de moedas nacionais em negociações intra-BRICS e fortalecimento de plataformas alternativas ao dólar; financiamento climático colaborativo para mitigar os efeitos das mudanças climáticas; etc.

Dessa forma, a 17ª Cúpula do BRICS foi um momento estratégico para aprofundar a cooperação entre países em desenvolvimento e fortalecer uma visão alternativa de governança global. Nesse sentido ela deve ser entendida como a síntese política do ano que 2025, sinalizando a potencialidade daquela cooperação.


*Sérgio Ricardo Rodrigues Castilho é doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor Associado IV do Departamento de Sociologia e Metodologia das Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense. Membro do NUBRICS/UFF.

Este texto foi publicado originalmente na revista China Hoje. Clique aqui, inscreva-se na nossa comunidade, receba gratuitamente uma assinatura digital e tenha acesso ao conteúdo completo.

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