O encontro entre Xi Jinping e Donald Trump, em Washington, interessa muito além da China e dos Estados Unidos. As decisões das duas maiores economias do mundo afetam investimentos, cadeias produtivas, preços, acesso à tecnologia e outros temas que impactam os países que não participaram da conversa. Por isso, há uma pergunta que todos se fazem: conseguirão Washington e Beijing encontrar um terreno comum capaz de sustentar uma cooperação benéfica para seus povos e, também, para o restante do mundo?
Quando uma disputa que inicialmente era sobre tarifas se estende à tecnologia, às finanças ou à segurança nacional, seus custos se espalham rapidamente. Logo, espera-se que a competição entre as duas potências ocorra dentro de limites que preservem a cooperação entre elas e, sobretudo, fortaleçam o multilateralismo. Cabe aos dois países reconhecerem essa responsabilidade. Naturalmente, as questões mais difíceis não desaparecerão apenas porque os presidentes se reuniram por alguns dias. A diplomacia tem seu próprio tempo para produzir resultados. E o tempo diplomático não tem a mesma velocidade dos avanços tecnológicos nem dos riscos neles embutidos.
Para avaliar o alcance do encontro, convém distinguir duas pautas. A primeira reúne assuntos com maior margem de negociação. A segunda envolve interesses estratégicos e concepções distintas sobre segurança, capacidade militar e ordem internacional. A fronteira entre elas não é rígida: uma decisão comercial sobre preços, quantidades e prazos pode adquirir significado estratégico. Ainda assim, a distinção ajuda a medir o que um acordo pode resolver e o que terá de ser administrado ao longo dos anos.
A soja pertence principalmente à primeira pauta. As vendas para a China são importantes tanto para os produtores americanos quanto para a política interna dos Estados Unidos. Para o governo chinês, o produto integra uma cadeia essencial ao abastecimento de óleo vegetal e de ração animal. Beijing pode negociar o aumento de sua importação de soja dos EUA, mas precisa considerar os preços e a segurança do abastecimento. Além disso, deve levar em conta que tal decisão alterará rotas comerciais e as expectativas de produtores de outros países. Tarifas também admitem negociação, embora revelem desacordos mais profundos. Os Estados Unidos questionam práticas industriais chinesas e alegam defender suas próprias indústrias. A China, por sua vez, critica as restrições americanas que dificultam as exportações chinesas, as quais violam princípios caros ao livre-comércio.
Já outros temas estão em campo minado para a diplomacia. É o caso das terras raras. Aparentemente um assunto comercial, mas que inevitavelmente atravessa a fronteira da pauta negociável para a pauta estrutural. As terras raras são utilizadas, entre outras aplicações, na fabricação de ímãs para veículos, equipamentos industriais e tecnologias de defesa. A posição da China no processamento desses materiais lhe confere influência sobre cadeias produtivas internacionais e, por isso, considera legítimo administrar as exportações de recursos e tecnologias que julga estratégicos. A inteligência artificial é outro tema crítico na agenda bilateral. Washington procura preservar sua liderança em chips avançados e tecnologias relacionadas. Beijing, por sua vez, quer desenvolver capacidade própria e rejeita a ideia de que seu progresso dependa permanentemente da autorização americana. A boa notícia é que Xi e Trump reconhecem que há riscos comuns, como o uso indevido da IA. Ambos os líderes defenderam a continuidade do diálogo e da cooperação nessa área para desenvolver protocolos que evitem incidentes relacionados ao uso da IA, como ciberataques e potenciais riscos biológicos. É um sinal útil, desde que se reconheça a dificuldade de negociar a segurança da tecnologia enquanto se disputa o acesso aos meios de desenvolvê-la.
Taiwan é outro tema da agenda estrutural, mas situado em outro patamar. Trata-se de uma questão central de soberania e de integridade territorial para a China. Aqui, a expectativa realista não é a de uma solução por meio de concessões comerciais; mas de comunicação cuidadosa, capaz de impedir que gestos, interpretações equivocadas ou cálculos de curto prazo provoquem uma crise cujas consequências atingiriam o mundo inteiro. A China espera que este assunto seja resolvido sem qualquer intervenção americana e respeitando a vontade do povo chinês envolvido. Há outras divergências tais como as relacionadas às sanções e às crises internacionais. China e Estados Unidos avaliam de maneira diferente os conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia.
Por trás de cada ponto crítico, há um obstáculo mais profundo: chineses e americanos adotam métodos distintos para identificar um problema, estabelecer prioridades e buscar uma solução. O método de cada um revela, implicitamente, suas distintas formas de ver o mundo. O modo como lidam com os problemas entre eles e os problemas da humanidade expressa o que cada sociedade aprendeu com sua história, quais valores procura proteger e que papel atribui ao Estado, ao mercado e às instituições internacionais. Os Estados Unidos desenvolveram uma cultura diplomática marcada pela defesa intransigente de sua liderança, pela negociação de compromissos específicos que não comprometessem seus interesses nacionais e pelo uso de instrumentos de pressão. Na China, ganham destaque a atenção às tendências de longo prazo, com uma diplomacia orientada para ganhos mútuos, a coordenação entre o desenvolvimento doméstico e a política externa, com foco nas parcerias econômicas, e a busca de condições para administrar as diferenças sem interromper a boa relação diplomática com seus parceiros. Essas descrições não esgotam a diversidade de práticas de nenhum dos dois países. Trump imprime às negociações um estilo pessoal e uma urgência próprios. Diferentemente, Xi atua dentro de uma tradição política e diplomática que valoriza a a estabilidade e a continuidade das relações, o respeito aos ritos, o não improviso nas ações diplomáticas e a formulação de objetivos duradouros.
Durante muito tempo, hábitos, valores e métodos associados às potências ocidentais influenciaram decisivamente a linguagem da diplomacia internacional. Com a China, isto está mudando. Por isso, é bem-vindo o anúncio feito por Xi, durante a visita, de um convite para que 100 mil jovens americanos visitem a China para intercâmbio e estudo nos próximos cinco anos. A iniciativa não resolverá divergências sobre chips ou Taiwan, mas permitirá que mais americanos conheçam diretamente uma sociedade sobre a qual frequentemente formam opiniões à distância. Compreender o método do outro exige contato com as pessoas e as experiências que o formaram.
Ao fim da visita, Xi observou que a China e os Estados Unidos possuem histórias, culturas, sistemas sociais e trajetórias de desenvolvimento diferentes, embora seus povos compartilhem a aspiração a uma vida melhor. Recordou o sonho americano de prosperidade e o sonho chinês de rejuvenescimento nacional. Daí decorre uma questão diplomática concreta: como cada país pode perseguir seu futuro sem exigir que o outro renuncie ao seu? E mais: sem prejudicar os sonhos de outras nações, sobretudo as que estão em desenvolvimento?
Os realistas são céticos quanto à pertinência destas questões. A sombra da chamada “Armadilha de Tucídides” os faz desistir antes mesmo de tentarem. Afinal, acredita-se, a potência estabelecida temeria tanto a ascensão da outra que acabaria por levar ambas ao confronto. A metáfora alerta para um perigo real, mas perde utilidade quando converte o risco em destino. Para pensar a atitude de Trump, temos proposto outra imagem, a Síndrome de Gulliver. Tal como o gigante da narrativa, os Estados Unidos conservam uma força extraordinária, mas descobriram que não podem mover-se sem sentir os efeitos dos vínculos que os ligam aos demais. Trump pode elevar tarifas, restringir tecnologias e exigir concessões. Cada medida, porém, provoca reações que também atingem interesses americanos. A metáfora não diminui o poder dos Estados Unidos. Ela apenas lembra que grandeza e liberdade de ação não são a mesma coisa. Quanto maior a presença de um país na economia mundial, maior será sua exposição às consequências de seus próprios atos. O governante que ignora esses vínculos arrisca-se a descobrir tarde demais que sua força foi comprometida pela forma como a exerceu.
A Armadilha de Tucídides pergunta se uma potência dominante aceitará pacificamente perder o pódio para a potência concorrente. A Síndrome de Gulliver nos leva a perguntar se essa potência saberá agir em um mundo em que já não controla sozinha os resultados. Em outras palavras, o destino da humanidade não está apenas nas mãos dos EUA e da China, mas também nas mãos de todos os países. Para Trump, cooperar com a China em assuntos de interesse mútuo exige reconhecer limites sem abandonar os interesses americanos. Ocorre que os EUA demonstram dificuldade em reconhecer seus próprios limites. É exatamente aí que os demais países do mundo devem entrar em ação, não para amarrar o gigante, mas para não se deixarem pisar por ele. E, para isso, a China é uma aliada importante.
O chão comum entre China e Estados Unidos será construído quando ambos obtiverem resultados práticos na pauta negociável, reconhecerem que a pauta estrutural exige uma nova preparação diplomática para esta nova realidade e, sobretudo, mantiverem abertas as vias de diálogo. Os demais países têm interesse direto nisso e uma expectativa legítima. Afinal, China e Estados Unidos têm o direito de realizar seus projetos de prosperidade, e o restante do mundo tem, por sua vez, o direito de esperar que o façam com a consciência de que os caminhos para o desenvolvimento se cruzam e de que a cooperação entre eles pode beneficiar muito mais a humanidade do que seus próprios cidadãos.
Evandro Menezes de Carvalho
Editor Executivo-chefe da revista China Hoje, professor convidado da Universidade Politécnica de Macau, professor de direito internacional da Universidade Federal Fluminense. Recipiente do Prêmio de Amizade do Governo Central da China (2023)







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