Neste Festival do Meio Outono, uma padaria de Kunming, na província de Yunnan, passou a vender bolos lunares, doce típico da data, recheados com presunto local e trufa negra. A combinação ilustra uma mudança no mercado de alimentos da China. Ingredientes antes associados a preços altos e à alta gastronomia estão chegando a mais consumidores, à medida que a produção cresce, a indústria cria novos produtos e a logística melhora.
O intercâmbio agrícola entre a China e outras regiões tem mais de 2 mil anos: uvas e romãs chegaram ao país pela antiga Rota da Seda. Hoje, oliveiras de origem mediterrânea são cultivadas em Longnan, na província de Gansu, e Yunnan tem cerca de 296 mil hectares de macadâmia, segundo as autoridades florestais da província.
Yunnan também é uma das principais regiões produtoras de trufa da China, onde o fungo cresce de forma silvestre. Empresas locais passaram a fabricar molho, bolo lunar, chocolate e linguiça com o ingrediente, e a trufa de Yunnan já é exportada para França, Alemanha e Emirados Árabes Unidos.
As exportações agrícolas chinesas somaram US$ 53 bilhões no primeiro semestre de 2026, alta de 7% na comparação anual, segundo dados da alfândega. Para Lin Faqin, professor da Universidade Agrícola da China, o crescimento em volume e qualidade reflete o desenvolvimento de categorias de produtos diferenciados e a abertura de mercados emergentes.
No caso de alimentos muito perecíveis, a rapidez na entrega pesa tanto quanto a produção. Guo Jinyun, gerente-geral de uma empresa de alimentos de Shangri-La, explica isso com os cogumelos silvestres frescos. “Exportá-los um dia antes significa mais frescor e mais competitividade”, disse.
Em julho, num evento do setor de matsutake, cogumelo nobre da região, a empresa de logística SF Express informou que vai operar mais de 100 voos exclusivamente de carga neste ano. Segundo a empresa, produtos podem sair direto de Shangri-La, Kunming e Lijiang para o exterior, com entrega em até 28 horas em mercados como Incheon, na Coreia do Sul, e Singapura.
A melhora no transporte amplia o alcance de outros produtos. O distrito de Tongnan, em Chongqing, exporta limões para quase 40 países e regiões, segundo as autoridades agrícolas do município.
O Novo Corredor Internacional de Comércio Terra-Mar, que liga produtores do oeste chinês a mercados no exterior, ganhou neste mês uma nova conexão: o Canal Pinglu, de 134 km, em Guangxi, foi aberto à navegação.
O canal liga o sistema do rio Xijiang ao golfo de Beibu e dá às cargas do sudoeste da China um caminho mais direto até o mar. Na rota com a Asean, a associação das nações do Sudeste Asiático, o trajeto fluvial encurta em mais de 560 km, e os custos logísticos caem de 18% a 30% em relação às rotas tradicionais.
Para Zhao Yongchang, pesquisador da Academia de Ciências Agrícolas de Yunnan, a trufa deixou de ser um fungo silvestre das montanhas para se tornar uma especialidade valorizada dentro e fora do país, impulsionada pela mudança no gosto do consumidor chinês e pelos avanços da ciência agrícola.







0 comentários