A ferrovia Qinghai-Xizang, que liga o noroeste ao sudoeste da China, completa duas décadas de operação como o principal corredor de integração do Planalto Tibetano.
Atualmente, um trem de carga percorre os quase dois mil quilômetros entre Xining (capital de Qinghai) e Lhasa (capital da Região Autônoma de Xizang) em apenas 48 horas, transportando desde automóveis até produtos refrigerados.
No passado, o mesmo trajeto exigia três ou quatro dias de caminhão, e, em séculos anteriores, levava meses em caravanas de camelos.
De 500 contêineres por mês a 500 por dia
Segundo Ji Min, despachante no centro logístico de Xining, a eficiência da linha transformou a economia local. Quando a ferrovia foi inaugurada, em 1º de julho de 2006, menos de 500 contêineres chegavam a Xizang por mês. Hoje, esse volume é processado em um único dia. “Podemos operar um trem diário para Xizang, e o custo de transporte caiu cerca de 60%”, afirma Ji Min.
Até abril de 2026, a linha já havia movimentado mais de 100 milhões de toneladas de carga. O sucesso impulsionou a expansão da malha: enquanto em 2012 Xizang possuía 701 km de trilhos, hoje são 1.359 km, com ramais já conectando Lhasa a Xigaze e Nyingchi.
A mudança na vida dos tibetanos
Para Losum Tsering, motorista tibetano do condado de Zogang, a ferrovia alterou o curso de sua vida. Aos 13 anos, ele pegou um trem pela primeira vez para estudar em Wuhan, em um programa gratuito para estudantes de Xizang. Formado em mecânica ferroviária, ele começou a operar trens de carga em 2003 e, em 2015, migrou para os trens de passageiros. “Uma jornada historicamente associada ao sofrimento tornou-se parte da viagem pública comum”, recorda.
Losum sonha em um dia dirigir um trem elétrico de alta velocidade até Lhasa, uma possibilidade que se aproxima com a eletrificação das linhas que antes dependiam de tração a diesel.
Comércio e preservação ambiental
A agilidade logística revolucionou o comércio local. No mercado de cordyceps sinensis (um fungo medicinal) em Xining, o comerciante Ma Ke lembra que antes precisava viajar por dias para coletar produtos nas áreas pastoris. Hoje, os criadores chegam de trem com suas colheitas, e os pacotes são entregues em diversas partes da China no dia seguinte.
No pátio de cargas de Lhasa Oeste, o que antes era um terreno baldio agora é um parque logístico moderno com 11 linhas férreas. Produtos como maçãs de Nyingchi já são exportados por via férrea ao Nepal.
Paralelamente, a infraestrutura foi desenhada para proteger um dos ecossistemas mais frágeis do planeta. A linha conta com 33 passagens específicas para a fauna, totalizando quase 60 km, permitindo que antílopes tibetanos e asnos selvagens cruzem sob ou ao lado dos trilhos sem perturbação.
Graças a esses esforços de conservação, a população de antílope tibetano na região saltou de 70 mil nos anos 1990 para mais de 300 mil hoje. “No início, era difícil fotografar esses animais. Agora, do trem, você os vê correndo ao nosso lado com frequência”, observa Hao Baojun, ferroviário e fotógrafo da linha há 40 anos.

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