Por Zhang Yage
O impulso global para alcançar a neutralidade de carbono depara agora com um momento crucial. Uma década após a adoção do Acordo de Paris para combater o aquecimento global, as nações trilham caminhos complexos para transformar seus compromissos em ações concretas. Dentro desse cenário, foi realizado em Pequim, em 26 de setembro, o Fórum Global de Neutralidade de Carbono, promovido pela Universidade Tsinghua, quando foi lançado o Relatório Anual de Progresso Global de Neutralidade de Carbono de 2025. Esse fórum constituiu uma plataforma fundamental para alinhar estratégias e reforçar o impulso.
Presidido por He Kebin, reitor do Instituto de Neutralidade de Carbono de Tsinghua, o evento reuniu especialistas de destaque de governos internacionais, do meio acadêmico e de outras instituições. Em seu discurso de abertura, He Kebin destacou que, apesar de algumas economias desenvolvidas terem desistido de seus compromissos, a transição global para o desenvolvimento verde e de baixo carbono é uma tendência irreversível, conclusão essa fortemente apoiada pelos dados documentados no Relatório Anual de Progresso Global em Neutralidade de Carbono de 2025. De acordo com o documento, a grande maioria dos países já estabeleceu metas de neutralidade de carbono, e a capacidade global de energia renovável tende a triplicar até 2030.
Práticas orientadas por políticas –Desde que anunciou suas metas duais de carbono em 2020, isto é, alcançar o pico de emissões de carbono antes de 2030 e a neutralidade de carbono antes de 2060, a China integrou essas metas ao seu quadro mais amplo de civilização ecológica. Nos últimos cinco anos, o país estabeleceu um sistema abrangente de políticas de redução de carbono e alcançou avanços em áreas-chave, como transição energética e otimização da estrutura industrial.
Em 24 de setembro, em seu discurso por vídeo na Cúpula da ONU sobre Mudança Climática, o presidente chinês Xi Jinping apresentou as novas “Contribuições Nacionalmente Determinadas” do país. Até 2035, a China reduzirá suas emissões líquidas de gases de efeito estufa em 7-10% em relação ao pico de 2030; aumentará a cota de energia não fóssil no consumo total de energia para mais de 30%; aumentará a capacidade total instalada de energia eólica e solar para pelo menos seis vezes os níveis de 2020; aumentará o volume do estoque florestal, ou o volume total dos troncos de todas as árvores vivas em uma determinada área florestal, para mais de 24 bilhões de metros cúbicos — em comparação com os mais de 20 bilhões de metros cúbicos no final de 2024; tornará os veículos de nova energia a parte principal das novas vendas de veículos; expandirá o mercado nacional de carbono para cobrir os principais setores de alta emissão; e concluirá em grande parte a construção de uma sociedade resiliente ao clima. Tal sociedade será capaz de prever, se preparar, absorver, se recuperar e se adaptar aos impactos negativos da mudança climática.
Liu Yang, vice-diretor-geral do Departamento de Mudanças Climáticas do Ministério de Ecologia e Meio Ambiente, falou sobre uma mudança no foco da China. “O recém-introduzido Indicador Líquido de Taxa de Redução de Emissões de Gases de Efeito Estufa é a primeira meta absoluta de redução de emissões da China para o período após o pico de emissões”, disse ele no fórum. “Representa uma grande mudança do foco, passando do dióxido de carbono para abranger todos os gases de efeito estufa, e do controle da intensidade de carbono para a redução das emissões totais. Na comparação com países desenvolvidos em estágio de desenvolvimento similar, a China alcançará uma redução comparável em um período de tempo mais curto — e almejamos fazer ainda melhor.”
Cooperação global – No âmbito global, o progresso da neutralidade de carbono é caracterizado por um desequilíbrio estrutural, afirmou o relatório de 2025, pois enquanto metas e inovações tecnológicas conferem tração, o financiamento climático e a cooperação internacional ficam defasados.
O relatório avaliou o progresso de 198 países e regiões quanto aos compromissos de neutralidade de carbono, tecnologia de baixo carbono e investimento e financiamento climático.
Wang Can, principal autor do relatório e professor da Escola de Meio Ambiente da Universidade Tsinghua, resumiu seus achados essenciais: “No 10º aniversário do Acordo de Paris, nosso relatório conclui que a neutralidade global de carbono entrou em estágio crucial. Os custos de energia renovável caíram significativamente, e as ações de cidades e de empresas continuam avançando. Essas tendências, coletivamente, sinalizam que a transição para baixo carbono não pode mais ser detida”.
“Ao mesmo tempo”, acrescentou Wang Can, “o progresso na neutralidade de carbono enfrenta ventos contrários. A ambição política entre os países continua sendo obstáculo para atingir as metas coletivas de redução de emissões. Há atraso em desenvolver tecnologias-chave. Precisamos ampliar os esforços em algumas soluções essenciais. Alguns países desenvolvidos não cumpriram seus compromissos de financiamento climático. As projeções mostram que, até 2035, considerando a tendência atual, apenas cerca de 13% dos US$ 300 bilhões necessários terão sido disponibilizados. Este relatório pede ações para reduzir a lacuna de implementação, injetar novo impulso em tecnologias relacionadas, corrigir gargalos e reconstruir a confiança na cooperação internacional”.
O desenvolvimento do mercado de carbono foi tema principal no fórum. Um mercado de carbono é um sistema de negociação em que as empresas podem comprar e vender o direito de emitir dióxido de carbono, criando um incentivo financeiro para reduzir as emissões de forma mais rápida e barata.
O mercado nacional de carbono da China agora cobre os setores de energia, aço, cimento e fundição de alumínio, regulando mais de 60% das emissões de dióxido de carbono do país e tornando-o o maior mercado de carbono do mundo em termos de cobertura.
“O mercado de carbono da China ainda está em seus estágios iniciais, enfrentando problemas como a insuficiente vitalidade de mercado e o atraso nos métodos de alocação de permissões. Há uma necessidade urgente de reformas, com base em experiências da União Europeia e dos Estados Unidos, e de aprofundar o alinhamento com regras internacionais, como o Acordo de Paris, para ampliar sua influência global”, disse Wang Jinnan, pesquisador da Academia Chinesa de Engenharia.
No nível corporativo, iniciativas de parques industriais de carbono zero estão sendo aceleradas em todo o país. Esses parques visam alcançar um equilíbrio entre emissões de carbono e absorção dentro de uma área definida por meio de estruturas energéticas otimizadas, transformação industrial de baixo carbono e reciclagem de recursos. Em julho, a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma da China emitiu um aviso promovendo a construção desses parques.
Zhao Hualin, ex-presidente do Conselho Supervisor para Grandes Empresas Estatais-Chave da Comissão de Supervisão e Administração de Bens Estatais do Conselho de Estado, acredita que os parques industriais terão um papel maior na luta contra as mudanças climáticas e na busca da neutralidade de carbono em um futuro próximo.
“Parques industriais na China representam menos de 3% da área territorial do país, mas contribuem com mais de 50% do valor agregado industrial. Cerca de 80% das empresas estão localizadas nesses parques, tornando sua transição de baixo carbono essencial para alcançar as metas duais de carbono da China. Os governos locais estão agora promovendo ativamente a transformação circular e os caminhos de desenvolvimento de baixo carbono para esses parques”, acrescentou Zhao.
A cooperação internacional continua sendo uma pedra angular da ação climática. Zhu Xian, ex-vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, um banco multilateral de desenvolvimento criado pelos países originais do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) para financiar projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável nos BRICS e em outras economias emergentes, destacou a persistente inadequação no apoio dos países desenvolvidos aos países em desenvolvimento. “Embora a mudança climática seja um consenso global, o apoio financeiro e tecnológico das nações desenvolvidas ainda está longe de ser adequado”, observou.
Em relação à inovação tecnológica das empresas, Xu Hao, vice-presidente de Valor Social Sustentável do conglomerado multinacional tecnológico chinês Tencent, compartilhou os esforços da empresa para avançar em tecnologias de ponta, como captura, utilização e armazenamento de carbono, por meio de iniciativas como o Carbon Quest Plan, que direcionam avanços laboratoriais para aplicações no mercado.
“Além de aprimorar nossas próprias capacidades, estamos trabalhando para promover o compartilhamento global de informações e a transparência”, disse Xu. “Apoiamos empresas africanas que abrigam inúmeros projetos adequados ao desenvolvimento de baixo carbono. Por exemplo, uma startup na Namíbia já está usando energia solar para produzir ferro — em pequena escala, mas com tecnologia avançada. A África é rica em recursos minerais e continuaremos apoiando essa exploração em estágio inicial.”
Este texto foi publicado originalmente na revista China Hoje. Clique aqui, inscreva-se na nossa comunidade, receba gratuitamente uma assinatura digital e tenha acesso ao conteúdo completo.

Sem Comentários ainda!