Uma civilização ecológica: Como a China pretende liderar a governança ambiental global

Por Rubia Cristina Wegner*

Muitos países discutem o equilíbrio entre desenvolvimento econômico e sustentabilidade. Mas a China vem construindo um conceito próprio: a civilização ecológica, isto é, um projeto nacional que busca conciliar progresso econômico, proteção ambiental e liderança internacional. A governança ambiental global desde a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) em 1992 ganha novo impulso com a Estrutura Global da Biodiversidade Kunming-Montreal (K-M GBF), aprovada na COP15 em 2022. O acordo estabeleceu metas ambiciosas para conter a perda de biodiversidade até 2030, mobilizando recursos e cooperação internacional. Nesse contexto, o conceito do Partido Comunista da China (PCCh) de civilização ecológica e o princípio de “convivência harmoniosa entre o homem e a natureza” adquirem relevância estratégica como diretrizes internas, mas como proposta de governança global baseada na solidariedade e na responsabilidade compartilhada.

A China incorporou essa visão como eixo do desenvolvimento nacional desde o 18º Congresso Nacional do PCCh (2012). Sob a liderança de Xi Jinping, a civilização ecológica se transformou em uma arquitetura política que integra crescimento econômico, bem-estar social e proteção ambiental. O lema “águas limpas e montanhas verdes são tão valiosas quanto montes de ouro e prata” simboliza essa síntese entre progresso e sustentabilidade. O 14º Plano Quinquenal (2021–2025) reforça essa estratégia, como orientações para promover a transição energética, o rejuvenescimento rural e a modernização agrícola com baixo carbono. São exemplos programas como o de distritos de demonstração ecológica e o sistema nacional de parques – que hoje cobre mais de 230 mil km².

Esses esforços coincidem com as orientações da CDB, que defende a conservação, o uso sustentável e a repartição justa dos benefícios da biodiversidade. A China não apenas reduziu a intensidade de emissões de CO30 e expandiu a cobertura florestal de 10% em 1980 para mais de 20% em 2020, como lidera investimentos em tecnologias verdes. Em 2024, o país destinou quase US$ 1 trilhão ao setor de energia limpa, tornando-se referência em energia solar, eólica e veículos elétricos. Iniciativas como a Shan-Shui, voltada à restauração ecológica, já recuperaram milhões de hectares degradados e projetam ampliar esses números até 2030.

A revitalização ecológica na China constitui um eixo estruturante do projeto nacional de desenvolvimento de longo prazo, articulando políticas territoriais, climáticas, agrícolas, energéticas e socioeconômicas. A estratégia parte de uma concepção sistêmica, que é identificada por “civilização ecológica”. Dessa forma, o PCCh busca orientar o país para integrar proteção ambiental, modernização produtiva e projeção internacional, consolidando-se como ator central na governança ambiental global. Nesse marco, a China não se limita a combater a degradação ambiental interna e busca se posicionar como referência normativa e tecnológica no desenvolvimento sustentável.

No plano territorial, de acordo com dados e informações dos relatórios de trabalho do governo dos últimos 5 anos, o governo central da China tem implementado instrumentos de coordenação inter-regional que visam equilibrar crescimento econômico e proteção dos ecossistemas. Regiões estratégicas como Beijing-Tianjin-Hebei, o Cinturão Econômico do Rio Yangtzé, o Delta do Rio Yangtzé e a Grande Área da Baía de Guangdong-Hong Kong-Macau constituem laboratórios institucionais para a integração entre urbanização planejada, reestruturação industrial, conectividade logística e restauração ecológica. Ao mesmo tempo, a bacia do Rio Amarelo, historicamente associada à formação civilizacional chinesa e a problemas de erosão e escassez hídrica, foi elevada a prioridade nacional para o desenvolvimento ecológico.

Do ponto de vista normativo e fiscal, a China vem aperfeiçoando mecanismos de incentivo à transição verde. Instrumentos financeiros públicos, restrições sobre setores poluentes, subsídios para energias renováveis e expansão das compras governamentais de produtos verdes convergem para construir uma economia de baixo carbono e fortalecer cadeias tecnológicas estratégicas. O Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) estabelecido em 1997 pelo Protocolo de Quioto e encerrado em 2020, mas ampliado no âmbito do Acordo de Paris, possibilitou à China recepção, pelo menos até os primeiros anos da década de 2010, de volumes consideráveis de créditos de carbono. A China desenvolveu instrumentos próprios de uso e aplicação de receitas advindas das emissões de carbono, tais como a criação em 2008 da China Beijing Environment Exchange (CBEEX) e do Fundo do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo da China (CCDMF). De acordo com informações mais recentes das Nações Unidas, o CCDMF totaliza mais de US$ 81 milhões de subsídios estatais distribuídos em 200 projetos e redução das emissões em mais de 7 milhões de toneladas, usando financiamento de empresas, operações de mercado aberto e certificações e comprovações de reduções de emissões de gases de efeito estufa.

A transição energética representa outra dimensão central da estratégia chinesa de revitalização ecológica e sempre ressaltada em documentos oficiais. Mesmo que ainda dependente de combustíveis fósseis, o país busca reconfigurar sua matriz energética por meio da expansão acelerada de fontes renováveis, exploração de gás natural não convencional e fortalecimento de reservas e mecanismos de segurança energética. A política tarifária de redução de custos para setores produtivos e o estímulo à eletrificação eficiente reforçam o caráter híbrido da transição chinesa, que combina pragmatismo energético com ambição climática.

No meio rural, a lógica da revitalização ecológica se encontra com a revitalização do rural. Dessa forma, articula-se sustentabilidade, equidade social e modernização produtiva. O PCCh e CE incentivam modelos agrícolas de negócios diversificados, integração entre agricultura, indústria e serviços e o desenvolvimento de parques agroindustriais. Ao mesmo tempo, políticas de qualificação profissional, apoio ao empreendedorismo rural e expansão do crédito fortalecem o dinamismo social e econômico no rural. Esse conjunto de medidas busca evitar a marginalização das áreas rurais no processo de modernização, preservando funções ecológicas e estimulando trajetórias de desenvolvimento rural moderno e ambientalmente responsivo.

Em relação ao controle da poluição e à proteção ecossistêmica, o governo central intensificou programas e ações voltadas para despoluição de rios urbanos, ampliação do saneamento em regiões centrais e ocidentais, eliminação progressiva de veículos altamente poluentes e ações contra erosão do solo e desertificação. A iniciativa “China Bela” reflete a integração dos esforços ambientais nacionais com a reabilitação de paisagens naturais estratégicas, incluindo grandes “escudos ecológicos” e “cinturões de proteção” distribuídos ao longo do território.

Os programas de reflorestamento, proteção de florestas naturais, restauração de áreas marginais e expansão de zonas úmidas consolidam uma abordagem territorializada de pagamentos por serviços ecossistêmicos. Ademais, mecanismos de compensação ecológica interprovincial reforçam a cooperação e reduzem desigualdades regionais na distribuição de responsabilidades ambientais.

Esse conjunto de programas e ações revela que a China adota uma estratégia planejada e centralizada em vez de um modelo de governança ambiental liderado apenas pelo mercado, que é predominante em boa parte dos países desenvolvidos. Ao construir um arcabouço normativo, tecnológico e institucional de longo prazo para a transição verde, a China busca não apenas resolver desafios domésticos, mas se posicionar como líder na formulação de novos padrões globais de desenvolvimento sustentável. A revitalização ecológica chinesa aparece como parte de um projeto político mais amplo, capaz de combinar competitividade internacional, responsabilidade climática e modernização ecológica do território e do sistema produtivo.

Nesse contexto, o país busca consolidar uma liderança internacional. Em 2024, durante a COP16 realizada na Colômbia, a China atuou de forma decisiva para contribuir com o relativo êxito da COP16. Como forma de apoiar os países em desenvolvimento em financiar programas e ações de conservação, lançou o Fundo para a Biodiversidade de Kunming com US$ 200 milhões iniciais e o ‘Fundo Cali’ – um mecanismo multilateral que busca repartir benefícios do uso de informações de sequências digitais (DSI) sobre recursos genéticos. Esse mecanismo é resultado da COP 15 da Biodiversidade, realizada na China, e é uma forma de a comunidade internacional lidar com a obrigação de gerir recursos recebidos e reparti-los aos países ou provedores.

O caráter multilateral de medidas para o clima e meio ambiente exige lideranças que saibam conduzir negociações entre partes com interesses naturalmente distintos. Ao mesmo tempo, a cooperação sino-brasileira tem se intensificado. Em 2025, os dois países firmaram acordo voltado à restauração da vegetação nativa e criação de sumidouros de carbono. Enquanto o Brasil lançou o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg – 2025-2028) como instrumento para materializar a Política Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Proveg – instituída em 2017). A meta de restaurar 12 milhões de hectares até 2030 ganha impulso com o uso de tecnologias chinesas de monitoramento, reflorestamento e inteligência artificial (IA). Essa parceria combina as vantagens comparativas de cada país: tecnologia e escala industrial da China, biodiversidade e recursos naturais do Brasil.

É possível afirmar que Brasil e China são países que defendem uma governança climática baseada no multilateralismo e na cooperação Sul-Sul. O Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) do BRICS já destinou cerca de US$ 40 bilhões para projetos de energia limpa e eficiência energética. A realização da COP30 em Belém do Pará deverá consolidar essa aliança estratégica, ampliando o protagonismo do Sul Global. Frente às tensões geopolíticas e à lentidão dos países desenvolvidos em cumprir compromissos financeiros, Brasil e China podem oferecer um modelo alternativo de liderança: sustentável, inclusivo e solidário.

A China avança na inovação em tecnologias limpas e em programas estratégicos de transformação estrutural centradas na civilização ecológica, enquanto o Brasil é potência em biodiversidade, matriz energética renovável e conhecimento tradicional. A civilização ecológica chinesa e a bioeconomia tropical brasileira não são apenas experiências nacionais bem-sucedidas, mas paradigmas convergentes que podem indicar um novo ciclo de governança ambiental global.

Como enfatiza Xi Jinping, “a prosperidade humana depende da coexistência harmoniosa entre humanidade e natureza”. Ao combinar tecnologia e biodiversidade, ciência e tradição, China e Brasil demonstram que o desenvolvimento verde é possível e que o futuro da governança internacional pode ser guiado pelo Sul Global. A consolidação dessa parceria, especialmente diante da COP30 e da implementação do Acordo de Paris, representa não só uma estratégia diplomática, mas uma contribuição decisiva para o equilíbrio ecológico e o futuro compartilhado da Terra.

A civilização ecológica chinesa constitui um projeto político-estratégico que combina coordenação do PCCh e CE, inovação tecnológica e diplomacia climática para estruturar uma alternativa de governança ambiental global. Sua influência se expande cada vez mais no Sul Global, porém enfrenta desafios internos e críticas externas quanto a transparência e coerência ambiental internacional. O recente discurso do presidente chinês, Xi Jinping, permite deduzir uma diretriz do país de que o meio ambiente e o clima não são exclusivos a um conjunto de países desenvolvidos; todos dependem dele. A cooperação técnica internacional e financeira é o caminho para que o desenvolvimento verde seja uma realidade global.


*Rubia Cristina Wegner é professora do Departamento de Ciências Econômicas do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

Este texto foi publicado originalmente na revista China Hoje. Clique aqui, inscreva-se na nossa comunidade, receba gratuitamente uma assinatura digital e tenha acesso ao conteúdo completo.

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