Aos 22 anos, Zou Yu começa o dia às 5h da manhã. Estudante da classe de ópera do Colégio Técnico Profissional de Fuzhou, na Província de Jiangxi, ela e seus colegas passam cerca de oito horas diárias em treinamentos intensivos que envolvem técnicas corporais, canto, movimentos básicos e ensaios de palco. A rotina rigorosa reflete o desafio de dominar a Kunqu Opera, uma das formas mais antigas e refinadas da ópera chinesa.
O caminho não é simples. Há três anos, Zou sofreu uma queda durante um movimento acrobático e machucou o rosto. Mesmo assim, decidiu seguir adiante. “Meus pais choraram e pediram para eu desistir, mas nunca esqueci a primeira vez que assisti a O Pavilhão das Peônias. Aquela beleza vale uma vida inteira de dedicação”, conta.
Escrita em 1598 por Tang Xianzu, a obra narra a história de amor entre Du Liniang e o jovem erudito Liu Mengmei, um dos maiores clássicos da Kunqu, arte que combina poesia, música, figurinos elaborados e movimentos delicados, e que foi reconhecida em 2001 como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO.
A intensidade do treinamento também reflete a urgência em preservar essa tradição. Segundo Wu Lan, diretora do centro de desenvolvimento cultural e artístico de Fuzhou, por volta de 2010 a cidade enfrentava um sério déficit de talentos: a idade média dos artistas profissionais ultrapassava 48 anos, e menos de 10% eram jovens, colocando alguns gêneros locais de ópera à beira do desaparecimento.
O cenário começou a mudar em 2016, quando o governo local lançou um projeto de herança e inovação da ópera, incluindo a criação de turmas especializadas no colégio técnico. Entre 2017 e 2024, foram investidos 6,8 milhões de yuans na iniciativa, resultando na formação de 198 jovens artistas. Hoje, cerca de 40% dos praticantes de ópera em Fuzhou pertencem à nova geração.
Além da formação, políticas públicas têm ampliado o acesso do público. Em Linchuan, distrito histórico da cidade, quase 200 apresentações gratuitas foram realizadas no ano passado com apoio governamental. Para artistas como Zhu Xudong, líder de uma trupe local, os subsídios permitiram que idosos, famílias e crianças voltassem a ocupar as plateias. “É um banquete cultural”, resume uma moradora que costuma levar o filho pequeno para assistir às apresentações.
A tradição também dialoga com o presente por meio da inovação. Espetáculos imersivos, como Dreaming of the Peony Pavilion, encenado em ruas históricas da cidade, e o uso de vídeos curtos nas redes sociais ajudam a aproximar a Kunqu do público jovem. “Ópera não é uma arte do passado. Novas tecnologias podem levá-la ainda mais longe”, afirma o jovem artista Zhou Zhiqian.
Entre disciplina, paixão e reinvenção, a Kunqu encontra em Jiangxi um novo fôlego, sustentado por jovens que, como Zou Yu, transformam sacrifício em continuidade cultural.

Sem Comentários ainda!