80º aniversário da Vitória na Guerra de Resistência do povo chinês contra a Agressão Japonesa e na Guerra Antifascista Mundial.

Ao celebrarmos o 80º aniversário da vitória na Guerra Mundial Antifascista, somos chamados a uma reflexão que vai além da memória comemorativa. Estamos aqui porque milhares de chineses, assim como incontáveis homens e mulheres de diversas nações, enfrentaram a violência do fascismo com coragem e sacrifício. Essa vitória, marcada pelo sofrimento e pela resistência, não pertence apenas ao passado: ela nos recorda que soberania e dignidade são conquistas coletivas, resultado de lutas compartilhadas, e que permanecem vulneráveis diante das recorrentes ameaças do extremismo político.

A Guerra de Resistência do povo chinês inscreve-se como parte essencial desse esforço global em defesa da paz. Afinal, a China contribuiu de modo decisivo para a derrota das potências do Eixo ao defender a sua integridade nacional diante das invasões do exército japonês. É importante destacar que as primeiras hostilidades japonesas contra a China, no século XX, ocorreram alguns anos antes do início da Guerra Antifascista Mundial com a invasão japonesa na Manchúria em setembro de 1931. A Liga das Nações condenou o Japão, mas sem resultados práticos. Afinal, nenhum país da Liga havia tomado medidas contra o invasor. No máximo, fizeram apenas uma morna manifestação de censura, deixando uma lição para todos nós: combater o fascismo exige coragem das instituições e dos países para agir de maneira decisiva e preventiva antes que o ódio se alastre e conduza o mundo para a destruição.

A invasão japonesa avançou em larga escala no território chinês a partir de julho de 1937, dando início à fase mais sangrenta da Guerra de Resistência contra a Agressão Japonesa que marcou, também, o início da Segunda Guerra Mundial na Ásia e que se estendeu até 1945. Em novembro de 1937, mais de 200.000 soldados japoneses capturaram a então capital da China, Nanjing, e cometeram execuções em massa e milhares de estupros contra civis chineses. Foram mais de 300.000 chineses mortos. O Massacre de Nanjing foi um dos eventos mais violentos da história da humanidade. Um fato pouco contado nos livros de história do Ocidente e, também, da América Latina.

A guerra resultou na morte de 20 milhões de pessoas, a maioria civis chineses. Porém, do esforço heroico do seu povo, a China venceu a guerra e recuperou os territórios perdidos. Além disso, o país foi reconhecido como uma das quatro grandes potências aliadas na Segunda Guerra Mundial, tornando-se um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU.

Tal experiência histórica da China ilumina um ponto crucial: nenhuma luta contra o nazifascismo é isolada, mas sempre conectada a dinâmicas internacionais. Hoje, revisitar esse legado nos convida a pensar criticamente sobre os riscos contemporâneos de erosão do tecido social e ascensão de movimentos extremistas, sobretudo no Ocidente, e a reafirmar o valor da solidariedade antifascista como fundamento ético e político para o século XXI.

Dez anos atrás, por ocasião da celebração do 70º aniversário da vitória na Guerra de Resistência do povo chinês contra a agressão japonesa, eu estava morando na China e visitei o Memorial das Vítimas do Massacre de Nanjing pelos Invasores Japoneses. Esta visita me fez adquirir uma consciência histórica mais profunda do significado doloroso deste triste episódio para o povo chinês e para a humanidade.

Olhando para o presente, a comemoração dos 80 anos da vitória na Guerra Mundial Antifascista nos convida a uma reflexão urgente. O nazifascismo que acreditávamos derrotado em 1945 não desapareceu. Ele ressurgiu nos anos recentes, muitas vezes mascarado por discursos nacionalistas extremos, ódio contra minorias, manipulação da verdade e ataques às instituições. Nações do Ocidente, que outrora combateram o fascismo, hoje elegem governantes e veem setores de suas sociedades flertando perigosamente com ideias e práticas que lembram aquele passado sombrio.

A história nos adverte: o fascismo não retorna de um dia para o outro, mas se infiltra de forma sutil, normalizando a intolerância, o revisionismo histórico e a lógica da exclusão. É por isso que a memória da resistência chinesa, e do esforço mundial na Guerra Antifascista, precisa ser preservada e transmitida. É por isso que precisamos estar vigilantes. É por isto que estamos aqui. E só estamos aqui porque milhares de chineses, bem como milhares de pessoas dos países que lutaram contra o nazifascismo, morreram e venceram por nós.

Ao celebrarmos esta data, reafirmamos nosso compromisso de que o sacrifício daqueles que tombaram não terá sido em vão. Que as gerações presentes e futuras saibam que a paz é fruto da união, e que a história da resistência chinesa permanece como um farol contra todas as formas de opressão e tirania.

 

 

Por Evandro Menezes de Carvalho

Professor Associado da Faculdade de Direito da UFF e Professor da FGV do Rio de Janeiro. Professor da Cátedra Wutong da Beijing Language and Culture University. Prêmio Amizade do Governo Central da China 2023.

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