Zhejiang, exemplo de bons resultados

Província foi eleita para liderar a criação de uma zona de demonstração de políticas de sucesso

Por Tao Xing

Na aldeia de Hongguang, cidade de Chihuai, distrito de Kaihua, província de Zhejiang, Li Linfeng deparou com um fenômeno que vem se tornando frequente: uma cantina dedicada a atender aldeões idosos. Cantinas como essa têm surgido em áreas relativamente ricas por toda a China, para lidar com uma das questões mais prementes que afetam os idosos deixados para trás: comida.

“Não é que sejam pobres demais para obter comida, é mais porque são velhos demais para cozinhar para eles mesmos”, declarou Li, um doutorando de desenvolvimento e gestão rural da Universidade Agrícola da China, à Beijing Review. Essa aldeia fez algo ainda melhor, já que não só abriu uma cantina para que esses residentes façam suas refeições, mas também garante a entrega de comida na porta para aqueles que estão fracos demais para sair e comer fora.Tais cantinas para idosos, oferecendo refeições a preços populares ou mesmo gratuitas, costumam operar em regiões de condições financeiras sólidas, afirma Li.

Como uma das áreas mais desenvolvidas da China, Zhejiang teve em 2020 um PIB de 6,46 trilhões de yuans (cerca de US$ 1,01 trilhão), e um PIB per capita superior a 100 mil yuans, ou US$ 15.667. A renda per capita disponível dos residentes locais foi 1,63 vez maior que a média nacional. A renda per capita disponível dos residentes urbanos na província vem obtendo primeiro lugar entre as regiões de nível provincial há 20 anos consecutivos, e há 36 anos consecutivos para os residentes rurais.

“A província assentou uma base firme para os cuidados com idosos, assim como para a governança e desenvolvimento rural”, acrescentou Li.

O Comitê Central do Partido Comunista da China (PCCh) e o Conselho de Estado publicaram conjuntamente um guia em 10 de junho apoiando Zhejiang para liderar a criação de uma zona de demonstração para a promoção da prosperidade comum em âmbito nacional.

Tendo esse pano de fundo, Li chefiou um grupo que realizou um estudo de campo de nove aldeias localizadas no distrito de Kaihua, de 13 a 29 de outubro. “Nosso foco foi estudar de que modo a governança rural e a economia coletiva contribuem para a prosperidade comum em Zhejiang”, explicou Li. Coletivos rurais, obtendo lucros de recursos de posse coletiva, têm conseguido alguns resultados marcantes em diminuir a diferença entre residentes urbanos e rurais em Zhejiang.

Redução de disparidades – Jiang Tieying, codiretor de Estudos de Políticas Públicas na Pesquisa Nova China, um think tank que faz parte da Agência de Notícias Xinhua, declarou o seguinte à Beijing Review: “O desenvolvimento desigual e inadequado da China acabou virando um problema. A excessiva disparidade de renda colocou severa pressão no desenvolvimento econômico e social do país, bem como no desenvolvimento coordenado entre regiões e entre as áreas urbanas e rurais”. “Diminuir essa disparidade de renda é, portanto, uma questão principal que deve ser corrigida, a fim de se alcançar a prosperidade comum”, acrescentou Jiang.

A nova orientação defende reduzir a disparidade de renda entre regiões, entre áreas urbanas e rurais e entre indivíduos, com prioridade para melhorar a renda das pessoas nas áreas rurais, nas unidades do interior, nas áreas relativamente subdesenvolvidas, bem como das pessoas vivendo em circunstâncias extremamente adversas.

Permitir que algumas regiões e pessoas enriquecessem primeiro para depois gradualmente promover a prosperidade comum foi uma política implementada após o lançamento da Reforma e Abertura há mais de 40 anos. Desde então, a China alcançou conquistas econômicas reconhecidas mundialmente, em especial no desenvolvimento urbano. No entanto, o desenvolvimento de suas áreas rurais está bem atrasado em relação ao das cidades, em razão de complicações como a localização, recursos e a estrutura dual urbano-rural. Esse último aspecto, uma peculiaridade da China, surgiu na década de 1950, mas hoje se tornou um obstáculo à conquista da prosperidade comum.

Como indicador-chave de desenvolvimento equilibrado, a relação entre a renda de residentes urbanos e a de residentes rurais em Zhejiang caiu para 1,96:1 no último ano, mais baixa que a média nacional, que é de 2,56:1. A província empreendeu vários experimentos, como o lançamento de um plano de ação de três anos para eliminar o número de aldeias economicamente fracas por meio de desenvolvimento coletivo em 2017, que teve resultados positivos. O modelo Pinghu-Qingtian fazia parte dessa iniciativa.

Localizado na cidade de Jiaxing, província de Zhejiang, e próximo à megacidade de Xangai, o distrito de Pinghu abriga uma base industrial e muitos recursos de negócios, embora uma escassez de terrenos restrinja sua expansão. O distrito de Qingtian, em outra cidade de Lishui, poderia prover esses terrenos.

Um funcionário local de Pinghu contou à Beijing Review que suas empresas têm assinado acordos com aldeias de Qingtian que totalizaram um investimento inicial de 195 milhões de yuans (cerca de US$ 30,55 milhões) desde 2017. Superar essas limitações de terreno pode aumentar a capacidade de Pinghu de captar mais investimentos e maior variedade de indústrias. Nos primeiros cinco anos, as 156 aldeias de Qingtian que participaram do projeto terão condições de responder por 10% da quantia investida; nos cinco anos posteriores, poderão ganhar o aluguel da terra e 50% dos impostos locais pagos pelas empresas. Após um período de 10 anos, todas as partes envolvidas poderão renegociar as cotas de pagamento, dependendo do seu desenvolvimento.

A província vem tendo grande número de colaborações desse tipo. Lu Guoming, secretário da seção da aldeia Puguang do PCCh no distrito de Nanhu, cidade de Jiaxing, contou à Beijing Review: “A receita coletiva de Puguang vem principalmente de projetos colaborativos em diferentes níveis, assim como do aluguel de terrenos e casas da aldeia”.

“Usaremos o dinheiro para melhorar o nosso dia a dia e a infraestrutura agrícola, investindo em construção de estradas, instalações para conservação da água usada na lavoura e parques públicos”, acrescentou Lu. Além disso, os aldeãos estão sendo encorajados a trabalhar e a montar os próprios negócios, promovendo assim vários modelos de geração de renda.

Mais melhorias estruturais criam mais oportunidades. Depois do upgrade no ambiente e na sua infraestrutura, a aldeia de Lizu na cidade de Yiwu, maior mercado atacadista do país para pequenas commodities, transformou-se numa moderna comunidade cultural e criativa, que tem apelo tanto para investidores quanto para turistas. Portanto, residentes locais podem operar seus próprios restaurantes e pousadas para incrementar sua renda.

Esforços conjuntos – Promover uma economia coletiva é uma das muitas maneiras pelas quais Zhejiang tem dado impulso às suas áreas rurais no caminho da prosperidade comum.

Han Wenxiu, vice-diretor executivo do Escritório da Comissão Central para Assuntos Financeiros e Econômicos, disse numa coletiva de imprensa em Pequim, em 26 de agosto, que a China incentiva as pessoas a trabalhar com afinco a fim de enriquecer. A pressão para prosperidade comum permite que algumas pessoas enriqueçam primeiro, e depois ajudem outras a adquirir maior riqueza material.

“Com suas realizações econômicas, Zhejiang também promove um espírito de auxílio e apoio mútuo”, disse Jiang. Muitas regiões da província têm criado um ambiente de caridade, no qual “aqueles que se deram melhor ajudam os que ainda lutam”.

O distrito de Nanhu em Jiaxing inaugurou um centro para organizar atividades públicas de serviço social. “Nosso centro criou um fundo especial com uma quantia inicial de 5 milhões de yuans (cerca de US$ 782 mil) a partir de contribuições de diversas companhias e indivíduos”, declarou Xu Lihua, funcionário distrital, à Beijing Review.

O centro faz uma cuidadosa seleção dos projetos sociais que lança, disse Xu, e recruta voluntários por meio de atividades online e offline.

Segundo Xu, este ano seus voluntários se apresentaram para trabalhar 4.510 vezes, entre outras coisas, para auxiliar os idosos do distrito e as famílias em necessidade

No modelo Pinghu-Qingtian, o espírito de auxílio e apoio mútuos tem desempenhado um papel substancial desde 2020. Famílias de baixa renda nos dois distritos podiam comprar participações do projeto colaborativo. Se não tivessem como adquirir essas participações, indivíduos ou organizações locais – como membros do PCCh, bancos, empresas, entidades de caridade e autoridades – iriam ajudá-las a obter os fundos. Em Qingtian, 10,6 mil famílias com cotas ganharam uma renda total de 17,2 milhões de yuans (cerca de US$ 2,69 milhões) no primeiro ano.“As experiências de Zhejiang poderiam ser promovidas em todo o país”, disse Jiang.No entanto, como a China tem prometido promover a prosperidade comum por toda a nação, várias pessoas apresentaram uma visão peculiar disso, algumas com a interpretação de que criar prosperidade comum consiste em “tirar dos ricos para dar aos pobres”.

Han negou clichês desse tipo numa coletiva de imprensa em Pequim, em 26 de agosto, declarando que o objetivo da prosperidade comum não é tirar dos ricos para dar aos pobres. Em vez disso, trata-se de aumentar o bolo da prosperidade, para que cada um possa obter dele uma fatia maior.

Um dever que intimida – Segundo Jiang, de uma perspectiva histórica, o conceito de prosperidade comum não é novo. É uma meta importante do PCCh para a governança e rejuvenescimento do país, e tem sido mencionada pela liderança da China em diferentes estágios do desenvolvimento nacional.

Reconhecendo que a prosperidade comum é um requisito essencial do socialismo e faz parte das aspirações comuns das pessoas, a orientação afirma que ela está relacionada não só a aspectos econômicos, como constitui uma questão política importante para o próprio alicerce da governança do Partido.

“A China erradicou a pobreza extrema e alcançou sua meta de construir uma sociedade moderadamente próspera”, disse Jiang. Agora é hora de definir claramente as futuras metas da nação.

“Claro que não se trata de uma tarefa fácil para o país alcançar a meta seguinte”, disse Jiang. A realização da prosperidade comum deve apoiar-se em desenvolvimento econômico sustentado, constante e de alta qualidade. No presente momento, a pandemia da COVID-19 e a mudança na economia da China, de um crescimento de alta velocidade para um de alta qualidade, poderia criar muitas incertezas, explica Jiang. Isso talvez também colocasse obstáculos à evolução da prosperidade comum.

Zhejiang está sendo selecionada para compor uma zona de demonstração por ter alcançado notável progresso em resolver o problema do desenvolvimento desequilibrado e inadequado, diz a orientação. Além disso, a província oferece amplo espaço para melhora e grande potencial para expansão.

Por volta de 2025, Zhejiang já deverá ter feito sólido progresso na criação de sua zona de demonstração, com seu PIB per capita alcançando o nível das economias moderadamente desenvolvidas. Além disso, a província a essa altura deverá apresentar uma estrutura social no formato geral de azeitona, no qual a população de renda média componha a maioria, diz a orientação.

Famílias com uma renda anual disponível de 100 mil a 500 mil yuans (de cerca de US$ 15.667 a US$ 78.200) são consideradas na China como de renda média. A proporção dos que têm renda média deve alcançar 80%, segundo o plano de ação para prosperidade comum divulgado pelo governo provincial de Zhejiang em 19 de julho.

“Esperamos que Zhejiang possa transformar essas ambições em realidade e que, com isso, inspire outras partes da China”, acrescentou Jiang.

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