Unicamp recebe primeira unidade da CASS da América Latina

Parceria entre Unicamp e Academia Chinesa de Ciências Sociais desvendará o “caminho das pedras” da sociedade chinesa

O prédio da Biblioteca Central da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) agora abriga a primeira unidade latino-americana da Academia Chinesa de Ciências Sociais (ou CASS – sigla para o nome em inglês da entidade). A inauguração ocorreu no último mês de maio, após acordo firmado entre as duas instituições em 2018. O novo CASS Unicamp – Centro de Estudos Sobre a China, como foi nomeado, tem como objetivo ampliar o conhecimento da sociedade chinesa no Brasil, o que, por sua vez, pode levar ao desenvolvimento de novas parcerias educacionais, científicas, culturais e comerciais entre os países.

Para Tom Dwyer, professor titular de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Unicamp, à frente do projeto, “as pesquisas produzidas no âmbito da nova parceria irão iluminar o caminho de brasileiros na sociedade chinesa, com o potencial de ajudar nas atividades econômicas”. Segundo o professor, a aposta é que esta nova parceria, ao permitir aos brasileiros uma melhor compreensão do povo chinês, de suas mudanças sociais, sua juventude, seus valores, entre outras possibilidades, ajudará a identificar oportunidades e riscos no relacionamento com seu maior parceiro comercial. “Os chineses, por sua vez, através do contato com nossos alunos, professores, pesquisadores e sociedade desenvolverão sua percepção de nosso país”, destaca.

Dwyer observa, ainda, que a inauguração do novo centro auxiliará o Brasil a corrigir um déficit acadêmico, que certamente se reflete em suas políticas econômicas e diplomacia. “Enquanto na França se estabeleceu, há mais de 200 anos, uma cátedra sobre China e sua civilização, no Brasil a China é um tema explorado há pouco tempo nas universidades – e raramente por especialistas”, enfatiza.

Estrutura à disposição

Seja pela tradição europeia a influenciar o pensamento social local, seja por quaisquer outras razões, “os olhares parecem estar mais voltados à sociologia política no Brasil”, entende Dwyer. Foco que poderá ser impactado pelo rico intercâmbio que deve ocorrer com a nova parceria. “Teremos acesso a dados sobre a China que são produzidos em grande volume e com muita qualidade, e que são traduzidos em importantes diagnósticos da situação social naquele país”, explica o professor.

Não que os estudos de sociologia política não tenham se desenvolvido na China, mas variadas estatísticas sobre a sociedade local vêm sendo produzidas maciçamente pela Academia Chinesa de Ciências Sociais desde sua fundação, no final da década de 1970. Cinco áreas de pesquisa (Filosofia, Literatura e História; Economia; Direito, Estudos Sociais e Estudos Políticos; Estudos Internacionais e Estudos Marxistas) reúnem a produção de 35 institutos. Mais de 5000 pesquisadores estão envolvidos nesse trabalho – duas vezes e meia o contingente de professores disponível na Unicamp, contabiliza Dwyer. O Brasil torna-se “sócio” de toda essa estrutura, ao ser um dos poucos países parceiros do CASS, que também implantou unidades nos Estados Unidos, Canadá, França e Finlândia.

O novo centro na Unicamp também receberá aporte financeiro da CASS, que irá custear suas atividades e publicações. Duas missões (uma delas marcando a vinda da delegação chinesa para acompanhar a inauguração do centro) já integram o orçamento previsto para este ano e a agenda dos estudos sobre a China desenvolvidos no âmbito da CASS campineira.

Laços antigos

A parceria entre a CASS e a Unicamp faz parte de um histórico consistente de cooperações envolvendo a universidade brasileira e entidades acadêmicas da China nos últimos anos. Nesse sentido, a Unicamp abriga uma unidade do Instituto Confúcio desde 2015, promovendo o ensino da língua e da cultura chinesa no Brasil e também viagens de estudantes e docentes para conhecer e pesquisar a China. Um Grupo de Estudos Brasil-China já funciona na universidade desde 2011, promovendo seminários, executando pesquisas, publicando papers e livros, dando cursos na graduação e na pós-graduação. Seu conteúdo incorpora diversos temas, tais como sociedade, inovação, meio ambiente, filosofia e a economia chinesa.
“Hoje a China é considerada a segunda potência científica do mundo, porém ainda existem poucos intercâmbios científicos com o Brasil”, ressalta Dwyer. No final do ano passado, a Unicamp assinou quatro acordos com entidades chinesas, incluindo o que previa a parceria com a CASS e o apoio da sede do Instituto Confúcio campineiro para a tradução de clássicos da literatura chinesa, com selo criado pela Editora da Unicamp. Parcerias da Unicamp envolvem, hoje, instituições como a Pequim University, Beijing Jiaotong University e a Shangai University of Electric Power, ampliando os intercâmbios e horizontes acadêmicos.

As relações entre brasileiros e chineses no âmbito das Ciências Sociais vêm se estreitando há longa data, envolvendo, ainda, outras entidades. Como conta Dwyer, em Pequim, 2004, pesquisadores da Associação Chinesa de Sociologia (CSA) acolheram com muita simpatia delegados da Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS) no Congresso do Instituto Internacional de Sociologia. Pouco depois, foi Dwyer, então presidente da SBS, quem convidou o presidente da CSA, Li Peilin, a vir ao Congresso Brasileiro de Sociologia, em 2009. A colaboração entre as duas sociedades científicas já completa 10 anos. “Os resultados da nossa cooperação até agora: um livro baseado em uma pesquisa (survey) sobre valores, estilos de vida e horizontes de jovens universitários na China, que no Brasil foi publicado nas duas línguas [chinês e português] em 2016, pelo IPEA, e por uma editora da CASS; o livro ‘Handbook on Social Stratification in the BRIC Countries’, que foi publicado em mandarim (2011) e inglês (2013); e o ‘Handbook of the Sociology of Youth in BRICS Countries’, publicado em inglês em 2018”, enumera o professor da Unicamp. Aí, ele destaca, foram lançadas as bases de uma primeira cooperação entre membros da CASS e pesquisadores brasileiros, o que se intensificou e deverá se expandir com o novo centro da entidade chinesa criado no Brasil.

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