Um novo futuro para as relações sino-americanas

Intensificação do diálogo e intercâmbio cultural criam bom ambiente entre China e EUA

As escolhas políticas da China e dos EUA há muito tempo se estendem além das relações bilaterais, que, em grande medida, determinam a estabilidade e a prosperidade da região Ásia-Pacífico e do mundo inteiro, e estão intimamente relacionadas ao rumo do desenvolvimento global. Após quase quatro décadas, China e EUA têm um relacionamento altamente complexo e interdependente em todos os aspectos. Nos primeiros seis meses da administração Trump, o presidente americano adotou uma abordagem puramente transacional das relações diplomáticas com a China, o que tornou o relacionamento apático e indefinido.

O vice-primeiro-ministro chinês Wang Yang discursa no primeiro Diálogo Econômico EUA-China, em Washington, em julho de 2017.

Os debates em 2015 sobre as estratégias dos EUA em relação à China já prenunciavam esse estado de coisas. Hoje, alguns problemas difíceis continuam a testar as relações bilaterais, especialmente a questão nuclear da Coreia, o sistema de defesa antimíssil (THAAD, de Terminal High Altitude Area Defense ou Defesa Terminal de Área de Alta Altitude), os atritos entre China e Japão no Mar do Leste da China e as disputas territoriais entre a China e alguns países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN, na sigla em inglês), no Mar do Sul da China.

No entanto, as relações China-EUA progrediram a um nível que vai além da suscetibilidade a mudanças cognitivas, quer individuais, quer unilaterais. A ascensão da China e sua influência crescente, o período de sucesso do modelo de desenvolvimento da China, assim como o próprio desenvolvimento dos EUA e sua confiança na participação da China nas grandes questões tanto globais quanto regionais, tornaram-se fatores estruturais na estabilidade das relações China-EUA. Portanto, as relações atuais entre os dois países permanecem no geral equilibradas.

No eventual surgimento de dúvidas estratégicas ou diferenças a respeito de certos problemas importantes, a própria existência dessas dúvidas ou diferenças sinaliza para os dois países a importância de diálogos objetivos que esclareçam as respectivas intenções e pontos principais. A avaliação dos custos e benefícios das várias opções políticas impelem a China e os EUA a uma formulação contínua de um novo equilíbrio cognitivo baseado no padrão regional existente. Esse processo tem ressaltado que a melhor opção é promover ajustes e adaptações mútuos no que se refere às diversas áreas problemáticas, por meio de diálogo e consultas.

Com base nesse contexto, a linha de pensamento sobre as relações China-EUA começa a sofrer uma mudança fundamental, que é confrontar as divergências entre as duas nações em relação aos diversos problemas e detalhes, em vez de simplesmente discutir a importância e a irreversibilidade dos laços bilaterais em nível estratégico. É justamente esse pressuposto otimista que pode evitar muitos dos efeitos negativos dos intercâmbios anteriores entre os dois países.

O diálogo entre os líderes chinês e americano tem desempenhado claramente dois papéis. Um de estabilização, o outro de propulsor das relações sino-americanas.

Diálogo direto

Após seu encontro no resort de Mar-a-Lago na Flórida, os dois líderes estabeleceram vários níveis de comunicação numa ampla gama de ocasiões internacionais. Essas ocorrências refletem a moldagem consciente das relações China-EUA por ambas as partes e o fortalecimento de uma comunicação efetiva, buscando criar condições favoráveis para as relações China-EUA.

Desde a posse de Trump, um novo aspecto dos intercâmbios China-EUA veio se somar ao diálogo apoiado em nível funcional: é a manutenção de diálogos e conversações mais frequentes em nível de liderança. Apenas no último mês de setembro, o presidente Xi Jinping teve dois contatos telefônicos com o presidente Trump, a pedido dele, para discutir questões regionais, entre elas a questão nuclear coreana e a visita do presidente americano à China.

O diálogo entre os líderes chinês e americano desempenhou claramente dois papéis. Um é a estabilização. Embora o presidente Trump se incline a expressar opiniões discordantes pelo Twitter, as frequentes ligações telefônicas entre os dois líderes mantêm claramente as relações China-EUA em um patamar estável. O outro papel é o de propulsor. A razão dessas recorrentes chamadas é a necessidade de confirmar consensos e espaços de cooperação. As ligações diretas entre os líderes sem dúvida aumentam a confiança mútua, e também reduzem o potencial de erros de informação que poderiam ocorrer nas comunicações em nível funcional, puramente de trabalho, que os intercâmbios telefônicos entre os dois líderes também testam e permitem supervisionar. Essas ligações pessoais, portanto, ajudam a China e os EUA a desenvolver parcerias mais maduras.

Os quatro mecanismos de diálogo de alto nível construídos durante a visita do presidente Xi aos EUA incorporam muito bem essa ideia. Ao contrário do diálogo estratégico e econômico anterior entre China e EUA, que marcava todas as questões, os quatro mecanismos de diálogo de alto nível – cobrindo questões diplomáticas e de segurança, economia, aspectos sociais e culturais, manutenção da ordem e segurança cibernética – definem o tipo de diálogo, fortalecem a pertinência de questões específicas, aumentam o controle sobre os tópicos a serem discutidos e permitem aos dois lados uma compreensão mútua mais profunda de suas posições e diferenças. A partir disso, facilitam a discussão de ideias e das maneiras de resolver os problemas abordados.

Quatro mecanismos

As conversações diplomáticas e de segurança mantidas até agora assumem a mesma forma que o diálogo que os EUA mantêm com seus aliados, e reforçam os alicerces de confiança entre China e EUA. O desenvolvimento das relações sino-americanas formula assim uma linha de pensamento “com foco no problema” e “orientada por resultados”.

Nesse diálogo, ambas as partes têm reafirmado a importância de estabelecer uma compreensão mútua e minimizar o risco de um cálculo equivocado por parte de suas respectivas forças armadas. Também reafirmam seus MEs (Memorandos de Entendimento) sobre a implementação de medidas de construção de confiança, incluindo o mecanismo de notificação mútua para grandes operações militares e o código de conduta para encontros marítimos e aéreos fortuitos. Esses mecanismos e linhas gerais de orientação servem como manual de instruções para controlar riscos de potenciais conflitos. O resultado direto disso é que tanto a China quanto os EUA adotaram atitudes mais cautelosas em suas interações diárias, e também uma abordagem marcada por reconhecimento mútuo das diferenças e do risco potencial que elas envolvem.

Durante a visita à China em agosto passado do general Joseph Dunford, presidente do Estado-Maior Conjunto dos EUA, as duas forças armadas assinaram o documento-base para construir um novo mecanismo de comunicação para seus departamentos de Estado-Maior. Esse é um aprimoramento qualitativo inédito, com um efeito que vários anos de diálogo estratégico e econômico sino-americano não poderiam esperar alcançar. As duas forças armadas agora têm mais regras a seguir nas questões envolvendo o Mar do Sul da China, o Mar do Leste da China, e nas questões de segurança tradicionais. As regras e procedimentos desenvolvidos em conjunto constituem uma “válvula de segurança” para o controle de riscos.

Oficiais chineses e norte-americanos compartilham a ação no RIMPAC-2016, exercício naval internacional que contou com a participação de 26 países, em julho de 2016. A Marinha da China conduziu um exercício de tiro com a fragata de mísseis teleguiados Hengshui e com o destroier de mísseis teleguiados Xi’an, na Faixa de Mísseis do Pacífico, na costa noroeste da Ilha Kauai, no Havai.

No nível econômico e de comércio, a razão pela qual China e EUA têm estabelecido um diálogo econômico “abrangente” está na expectativa de uma gama mais ampla de diálogo com conteúdos mais específicos. Mas o processo inevitavelmente traz divergências à tona. Além disso, a alta interdependência e vulnerabilidade comerciais entre os dois países torna impossível que uma parte obrigue a outra a concordar com um programa qualquer sem questionar. A única solução é procurar um novo consenso e formular um mecanismo de resolução de conflitos. É por isso que os dois lados iniciaram em maio um plano de ação de cem dias de cooperação econômica, lançando as bases para a abertura de um diálogo econômico abrangente. O plano de ação já alcançou até agora importantes resultados, com benefícios mútuos. Inclui a volta da carne bovina americana ao mercado chinês após catorze anos, a gradual derrubada de uma política de barreiras à exportação de gás natural liquefeito americano para a China, a aprovação por parte da China dos cinco produtos de biotecnologia americanos, a exportação pela China de aves cozidas para os EUA, e a gradual implementação de aplicativos financeiros.  Esses resultados criam tanto uma boa base de confiança como um clima adequado de cooperação para o diálogo econômico.

Na primeira rodada do Diálogo Econômico Abrangente EUA-China (CED na sigla em inglês, de Comprehensive Economic Dialogue), realizado em Washington, D.C., em julho, ambos os lados discutiram a expansão do comércio em serviços e o crescente investimento mútuo, e instauraram uma cooperação construtiva voltada para reduzir o déficit de comércio. Também chegaram a um consenso sobre a proteção dos direitos de propriedade intelectual, o afrouxamento dos controles de exportação, o fortalecimento do comércio de produtos agrícolas, e outras questões específicas.

“Escolhemos cooperar não pela consideração aos interesses da outra parte, mas por nossos próprios interesses. Isso constitui a motivação para o diálogo continuado entre os dois lados”, declarou o vice-primeiro-ministro chinês Wang Yang, na CED. O Secretário de Comércio americano Wilbur Ross declarou em suas observações finais que, por meio de diálogo construtivo, os dois lados aumentam o respeito e compreensão mútuos, de modo a construir uma base sólida para futura cooperação. Por outro lado, se não há sérias diferenças, ou se surgem problemas que não é possível contornar, a base da cooperação sino-americana desaparece. Determinar as relações  China-EUA com base apenas no resultado de uma ou duas conversações, ou no grau das diferenças, equivale a uma miopia estratégica e a alimentar expectativas não realistas.

China e EUA têm fomentado recentemente o diálogo sobre a manutenção da ordem e da segurança cibernética, e também um diálogo social e cultural. Existe amplo espaço para cooperação nessas áreas, que torna possível explorar novos pontos de crescimento. A segurança da rede é uma preocupação comum cada vez maior dos dois países. O atual mundo cibernético ainda carece de regras e definições claras a respeito dos problemas com que tem de lidar. Os efeitos perniciosos da ausência de controle variam segundo cada país. A China e os EUA precisam fortalecer sua cooperação com as grandes potências mundiais a fim de esclarecer conceitos-chave, desenvolver regras comuns e evitar que a segurança cibernética se torne um fator que afete negativamente as relações China-EUA. Isso irá prover um benefício público global na forma de operação ordenada do espaço cibernético.

Trocas sociais e culturais sempre foram um vínculo importante entre China e Estados Unidos. A compreensão e reconhecimento mútuos são sua base de cooperação em qualquer questão que surja. À luz das significativas mudanças em ambas as sociedades, cada lado precisa expandir a compreensão da cultura do outro, da sua história e maneira de pensar. Só então a China e os EUA serão capazes de compreender um ao outro ao lidarem com grandes questões diplomáticas e políticas, e de formular políticas coordenadas concretas. Nesse sentido, os intercâmbios sociais e culturais continuarão tendo um papel indispensável.

Intercâmbios sociais e culturais sempre foram um vínculo importante entre China e Estados Unidos. Compreensão e reconhecimento mútuos são a base cooperativa com que ambos contam para qualquer problema que surja.

Futuro promissor

Com base nesses diálogos, a cooperação China-EUA precisa alcançar duas metas mais elevadas. Primeiro, como dois grandes países, ambos devem resolver as questões bilaterais por meio de suas práticas nativas, e considerar o arranjo de uma nova ordem. Os quatro mecanismos de diálogo de alto nível estão relacionados à estabilização da ordem em certas áreas, ou à sua remodelação. Isso é de grande relevância para resolver problemas regionais e globais. A cooperação China-EUA irá determinar se a ordem regional do Leste Asiático, que está sendo afetada por várias questões de segurança, poderá ser estabilizada, se a ordem de livre-comércio que beneficia todos os países é sustentável, e se o “desgovernado” mundo cibernético pode operar de maneira ordenada.

Segundo, China e EUA devem alcançar alto nível de compreensão, ou seja, compreensão mútua e respeito ideológico. A razão pela qual se fala tanto hoje sobre a Armadilha de Tucídides e a inevitabilidade do conflito, a “tragédia da política das grandes potências”, é que o Ocidente previu o caminho escolhido pela China segundo seus próprios precedentes históricos.

A vice-premier Liu Yandong (no centro, à direita), ao lado da Secretária dos Transportes dos EUA Elaine Chao (no centro, à esquerda) e da Secretária de Educação Betsy DeVos (quinta a partir da direita), presentes a uma reunião de delegados jovens no primeiro Diálogo Social e Cultural EUA-China, em Washington, D.C., em setembro de 2017.

Esse tipo de pressuposto significa a desconsideração do Ocidente pelas diferenças entre a cultura chinesa e a ocidental. Certas políticas reativas, no contexto da ascensão da China, supõem de maneira simplista que a China irá seguir os passos das grandes potências que, depois que ganharam força, buscaram a hegemonia. China e Estados Unidos precisam chegar a um novo modelo de relações entre grandes potências, e em última instância precisam percorrer essa distância para alcançar um sentido de mútuo reconhecimento. Essa é a importância do diálogo China-EUA, e também a missão histórica dos dois países.

Após décadas de desenvolvimento, as relações sino-americanas ainda enfrentam novos problemas, e experimentam constantes embates que mudam a percepção mútua. E como suas respectivas estruturas sociais, junto com o ambiente internacional, continuam mudando, as relações China-EUA podem ser mais bem retratadas como “cruzando o rio tateando as pedras”, isto é, testando cada passo e avançando com cautela. Há boas razões para crer que China e EUA podem criar um futuro melhor.

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