Um jovem olhar brasileiro sobre a Ásia

Os desafios e oportunidades na relação Brasil-Ásia na perspectiva de jovens diplomatas

A coletânea de artigos Os desafios e oportunidades na relação Brasil-Ásia na perspectiva de jovens diplomatas (Funag, 2017) é excelente contribuição ao debate acerca da política externa brasileira contemporânea, suprindo lacuna de estudos que abordem as tendências e mudanças desta década na qual os mercados e investimentos asiáticos despontam com importância decisiva para a economia do Brasil.

O livro é organizado pelo diplomata Pedro Henrique Batista Barbosa, que com experiência de serviço na China e doutorado em curso na Universidade do Povo de Pequim é exemplar da nova geração de analistas da Ásia. Os 14 artigos da coletânea fornecem amplo panorama das agendas brasileiras para o continente, tratando tanto de relações tradicionais (China e Japão) quanto de parcerias recentes (Brics, Coreia do Sul, Ibas, Irã, Índia, Rússia) e países/sub-regiões pouco examinadas nas análises usuais (Afeganistão, Ásia Central, Austrália, Bangladesh, Paquistão, Sudeste Asiático).

Os textos são de excelente qualidade e mantêm unidade e coerência de visão raras em obras coletivas desse tipo. A estrutura dos artigos é semelhante: uma recapitulação da história recente nas relações do Brasil com o país/sub-região, análise dos dados sobre comércio exterior e investimentos, comentários a partir das experiências profissionais dos autores e perspectivas para o futuro.

Há duas características que se destacam como pontos comuns aos ensaios. A primeira é a centralidade da economia nas relações Brasil-Ásia. No contexto da crise global que eclodiu no fim da década de 2000, o dinamismo asiático tem sido a exceção à regra. A China, claro, é a prioridade, como observam Germano Corrêa e Pedro Barbosa: o país foi responsável por 25% do crescimento mundial desde 2000 e é o maior parceiro comercial de 120 nações, incluindo o Brasil. Cerca de 20% das exportações brasileiras vão para o gigante asiático, concentradas em soja, minério de ferro e petróleo. Os autores ressaltam que nos últimos anos houve a construção de um arcabouço de instituições políticas que acompanham o fortalecimento do intercâmbio econômico e envolvem comissões bilaterais e fóruns de acordos como os Brics.

O elo entre aproximação política e perspectivas econômicas também é destacado em artigos como os de Paulo Antônio Viana (Índia), Igor Abdalla Medina de Souza (Rússia) e o de Gustavo Ziemath e Adriano Higa de Aguiar (Coreia do Sul). Nos três casos, o ambiente internacional do pós-Guerra Fria, mais flexível, possibilitou a gestação de parcerias estratégicas entre o Brasil e esses países, com ganhos comerciais e em acordos em áreas-chave como ciência, tecnologia e defesa. João Vargas aborda a histórica relação com o Japão, chamando a atenção para novas questões, como a segurança internacional.

O segundo ponto é o que Henry Pfeiffer chama em seu artigo sobre a Austrália pela feliz expressão “tirania da distância” – as dificuldades que nascem do afastamento geográfico e cultural entre o Brasil e a Ásia, argumentando que é preciso ir além dela para explorar o potencial que o continente apresenta. O tema atravessa os textos da coletânea dedicados a países ou sub-regiões pouco exploradas nas análises tradicionais de política externa brasileira.

Também são ótimos exemplos dessa abordagem os artigos de Rafael Alonso Veloso sobre o Sudeste Asiático e de Fabiano Joel Wollmann a respeito da Ásia Central. No primeiro caso, trata-se de um mercado de 500 milhões de habitantes e economias de prosperidade crescente. No segundo, de região rica em recursos naturais, sobretudo em energia, de importância estratégica pelas necessidades e investimentos da China e da Rússia. Os autores destacam a relevância de ações como visitas de alto nível, missões empresariais, cooperação cultural e ajuda humanitária para criar pontes entre o Brasil e essas nações.

 

 

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