Trabalhar e viver com o Sol

Há milênios os chineses cultivam a terra e vivem de acordo com os 24 termos solares do calendário

Já no seu nome, o calendário tradicional chinês indica explicitamente suas origens: Nongli quer dizer,  literalmente, “calendário da agricultura”. Também é chamado de Xiali, nome derivado da dinastia Xia, a primeira da China (2070-1600 a.C.), suposto período do seu surgimento, ou ainda e equivocadamente de Yinli, calendário lunar.

O Nongli é na realidade um calendário solilunar, isto é, os meses expressam o ciclo das fases lunares sincronizado com um ciclo completo do Sol. Assim, ele reflete não apenas os fluxos e refluxos das marés, mas também o ciclo das quatro estações.

O calendário Nongli divide o ano solar em 24 segmentos, cada um com seu termo correspondente. Criados ao longo de gerações de observação e prática, esses 24 termos solares desempenham até hoje um papel-chave na vida dos chineses. Definem as festas tradicionais, como a Festa da Primavera, fazem parte da cultura popular e da identidade do país. Desde 2006, integram o  Patrimônio Cultural Intangível da China.

Os 24 termos solares refletem mudanças nos fenômenos celestes, no clima, nas precipitações e nas sequências fenológicas ao longo do tempo.

Conotações – Ainda no Período da Primavera e do Outono (770-476 a.C.), os povos antigos estabeleceram os primeiros quatro termos solares para indicar os equinócios de primavera e outono e os solstícios de verão e inverno. Os demais termos solares, contudo, foram completados séculos depois, em 104 a.C., com o Calendário Taichu, o primeiro calendário escrito da história chinesa, com as posições astronômicas dos 24 termos solares. Cada um destes termos associa mudanças no clima a aspectos do céu.

Originado na bacia do rio Amarelo, um dos berços da civilização chinesa, o sistema foi aos poucos se difundindo pela antiga China, uma típica sociedade agrícola à época. Até hoje auxiliam na organização do trabalho na agricultura, nas atividades sociais, nas festas e no cotidiano das famílias.

Alguns dos termos solares evoluíram para costumes como o Dia de Qingming (Dia da Varrição dos Túmulos), Lichun (início da primavera), Lixia (começo do verão) e Dongzhi (solstício de inverno). Os solstícios de verão e de inverno são celebrados com comidas especiais e várias atividades folclóricas.

Ao longo de gerações, foi sendo acumulada uma miríade de heranças culturais relacionadas com os 24 termos solares. Provérbios, canções folclóricas, lendas e obras de arte, até a produção de ferramentas e utensílios, como uma verdadeira joia da civilização agrícola, os 24 termos solares têm um alto valor para a pesquisa histórica e cultural.

Sacrifício em Sanmen

Na cultura popular, o solstício de inverno ocupa um lugar tão importante quanto o Festival da Primavera, a festa do ano novo chinês.

Nos tempos antigos, imperadores realizavam uma grande cerimônia de adoração dos céus, enquanto as pessoas comuns ofereciam sacrifícios a seus ancestrais. Ainda hoje é realizada em Yangjiacun, uma aldeia no condado de Sanmen da cidade de Taizhou, na costa leste da Província de Zhejiang, uma cerimônia sacrificial de solstício de inverno, com mais de 700 anos de história.

Nas primeiras horas da manhã do dia de solstício de inverno, a cerimônia se desenrola de modo ordenado diante do templo ancestral do clã Yang. Vestindo trajes tradicionais amarelos com padrões coloridos, o oficiador primeiro lava as mãos, ajeita suas prendas de roupa e faz oferendas de incenso e vinho. Em seguida faz prostrações aos Céus nas quatro direções, e, acompanhado por dezenas de outros adoradores, entoa um canto de louvor aos ancestrais da família.

Ao longo de gerações, foi sendo acumulada uma miríade de heranças culturais relacionadas com os 24 termos solares, desde provérbios, canções folclóricas, lendas e obras de arte, até a produção de ferramentas e utensílios.

Sob uma saudação de fogos de artifício, a comunidade entra em seguida no templo e oferece sacrifícios aos seus ancestrais. A cerimônia toda dura cerca de duas horas e conta com a presença de representantes dos ramos do clã de todo o condado. Para aqueles que vivem longe, a sacrifício do solstício de inverno é o evento que faz com que voltem à cidade, num compromisso considerado sagrado.

Localizado na baía de mesmo nome, o Condado de Sanmen é conhecido por seu litoral recortado e ligação com o mar. Seus habitantes dão muito valor à educação e à família, valores essenciais da cultura tradicional, e mostram  grande reverência pela natureza. O sacrifício do solstício de inverno é um destacado exemplo da coexistência de diferentes culturas.

Em Sanmen, pessoas do mesmo clã usualmente vivem juntas, formando aldeias naturais. Os antepassados construíram grandes templos para que o clã pudesse reverenciar seus ancestrais. Os templos foram aos poucos se tornando locais públicos para encontros do clã e para diversas atividades, como espetáculos e reuniões. A elaborada e majestosa cerimônia do sacrifício do solstício de inverno em Sanmen  foi incluída na lista do Patrimônio Cultural Intangível da China em 2014.

Festival Ganqiu

Ganqiu (literalmente, “acertando o passo com o outono”) é um dos maiores festivais do grupo étnico Miao em Huayuan, Feng-huang, Jishou e Luxi, na Província de Hunan. Celebrado no dia de Liqiu, início do outono, as pessoas participam da festa com suas melhores roupas e se reúnem para brincar num balanço, dançar e cantar.

 

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