O som das cidades perdidas

A banda RTD resgata a música da Rota da Seda e faz sucesso na China

O nome da banda, Route to Diomira (RTS), foi inspirado no livro Cidades Invisíveis, d italiano Ítalo Calvino

Toda banda de música tem a sua história sobre como o grupo foi formado. O que reuniu os membros da Route to Diomira (RTD) foi o livro Cidades Invisíveis.

Era uma noite comum em Pequim, tomando cerveja Yanjing, um símbolo forte do longo passado da cidade, e comendo soja verde na vagem num restaurante ao ar livre com alguns amigos. De repente descobrimos que todos na mesa tínhamos algo e comum: todos haviam lido o livro Cidades Invisíveis, do escritor italiano Italo Calvino, em algum período da sua vida e haviam sido influenciados por ele.

Mais tarde, planejamos montar um grupo musical com amigos que tivessem interesse por música e tocassem algum instrumento. Nenhum de nós era músico profissional, portanto, não sabíamos por onde começar ou como criar ideias diferentes. O livro foi o que nos deu inspiração.

Cidades Invisíveis é baseado em diálogos imaginários entre o viajante veneziano Marco Polo e Kublai Khan. Após suas conversações com Khan, Marco Polo sai em viagem pelo país de Khan, cidade por cidade. No final, Khan ouve com atenção as observações sobre o que aquele viajante estrangeiro havia visto e ouvido.

Como foi que nos inspiramos nesse livro para formar a banda? Bem, embora a história seja ficção, ela descreve a experiência de um viajante pela China. Além disso, o escritor inspirou-se na histórica Rota da Seda ao escrever essa novela. Os membros do RTD vêm todos de diferentes cantos da histórica Rota da Seda: Cenk e eu somos da Turquia; Massimo, da Itália; Amir e Mahiar do Irã. Todos moramos na China e viajamos por suas cidades, como vez o viajante veneziano. Na nossa experiência da China, conhecemos várias cidades, pessoas diferentes, e aprendemos sobre a sua vida cotidiana. Então um dia decidimos expressar esta experiência por meio da música.

Os membros da banda vêm de diferentes partes da histórica Rota da Seda: Turquia, Itália e Irã

A música foi feita para soar na estrada Diomira, a primeira parte de Cidades Invisíveis, serviu como um bom nome para a nossa banda e virou também o nome da nossa primeira música. Calvino descreve Diomira:

“Partindo de lá e caminhando três dias em direção ao levante, você chega a Diomira, cidade com sessenta cúpulas de prata, estátuas de bronze de todos os deuses, ruas pavimentadas de estanho, um teatro de cristal e um galo de ouro que canta todas as manhãs no alto de uma torre. Todas essas belezas já serão familiares ao visitante, que as terá visto também em outras cidades. Mas a qualidade especial desta, para muitos dos homens que chegam ali numa noite de setembro, quando os dias estão ficando cada vez mais curtos e as luminárias multicoloridas se acendem todas juntas nas portas das estalagens, e de um terraço uma voz de mulher grita: uh, é que ele sente inveja daqueles que agora acreditam já ter vivido uma noite idêntica a essa e pensam que naquela ocasião foram felizes”.

Cada um de nós contribuiu para esta música combinando o que sentia lendo esse trecho do livro com as melodias que trouxemos de nossas geografias distantes. Diomira, como primeira música de nossa banda, é uma boa música de trabalho nesse sentido. Ela marca uma viagem infinita. O propósito desta jornada espiritual não é chegar a algum lugar, ao contrário. O objetivo é prosseguir na estrada. Porque, como um escritor turco disse uma vez, a estrada educa um homem. E acabamos achando que era apropriado chamar a banda de Route to Diomira (Estrada para Diomira). Na realidade, este nome foi o que usamos temporariamente no início, mas com o tempo acabamos adotando-o. Não se tratava de encontrar Diomira, a questão era seguir em direção a ela.

A histórica Rota da Seda passava por uma série de cidades. Quando você ouve a canção Diomira, você se vê numa jornada de Roma a Istambul, dali até Teerã, depois até as antigas cidades da Ásia Central, que eram centros de cultura e arte há vários séculos, e finalmente chega a “Tianxia”, o mundo sob os céus.

O RTD ao longo do tempo também captou inspiração de outras fontes. Compusemos uma peça baseada no Mesnevi de Rumi, e num poema de Ahmet Hamdi Tanpinar, um dos maiores escritores e poetas da moderna literatura turca. Além disso, cantamos músicas folclóricas da Turquia, do Irã e da Itália. Quando nos pediram para cantar em chinês, nossa primeira escolha foi Ganlan Shu (Oliveira). Nesta canção, descobrimos nossa própria história:

Não pergunte de onde venho

Meu lar fica distante, muito distante

Por que você vaga tão longe

Atrás do passarinho que voa no céu

Atrás do regato azul que corre na montanha

Atrás da vasta campina verde

Eu vago, vago até muito longe./

E assim, há mais do que a oliveira no meu sonho

 

O baglama, símbolo da Turquia

Quando cheguei à China pela primeira vez, em 2011, não trouxe o meu baglama, achei que um instrumento tradicional como ele não iria atrair nenhuma atenção na China. Eu estava totalmente enganado.

Mais tarde, quando trouxe meu baglama para a China e comecei a fazer algumas pequenas apresentações, descobri que o som do baglama despertava muito interesse nas pessoas. Toda vez que eu tocava baglama em público, as pessoas logo vinham até o palco para ver o instrumento de perto.

O baglama é similar ao dombra das culturas da Ásia Central, mas sua estrutura e sua técnica de execução são muito diferentes. É um instrumento de sete cordas, um dos mais básicos na cultura folclórica turca, e um importante símbolo desta cultura popular. Costuma ser feito de madeira de amoreira, junípero, faia e nogueira. É possível encontrar diferentes tipos deste instrumento nos países da histórica Rota da Seda. O dombra dos uigures e dos cazaques, o komuz dos quirguizes e o dutar iraniano são todos “parentes” do baglama.

Comecei a aprender a tocar baglama levando adiante uma tradição de família. Depois entrei numa escola de música, aos oito anos de idade, para aprimorar meu conhecimento musical. O baglama agora se tornou uma escola e uma cultura para mim.

Na realidade, só depois que comecei a viver no exterior é que descobri os verdadeiros benefícios do baglama. Eu nunca me sinto só quando estou com meu baglama, é como ter uma pequena Turquia no meu quarto. Quando tenho saudades da minha terra natal, da família e dos amigos, da minha aldeia na região do Mar Negro, do meu avô cortando lenha, da minha avó rezando, pego o meu baglama. O timbre do baglama foi enviado pela rota mais direta da China até a Turquia.

Companheiros de viagem

Quanto aos demais membros da banda que trabalharam comigo para criar o projeto RTD, digo que são meus companheiros de viagem.

Massimo, de Roma, toca contrabaixo. Ele chegou à China em meados da década de 1990. É um especialista em China, que lê e escreve poesia clássica chinesa e gosta de praticar caligrafia. A jornada espiritual de nossa canção Diomira começa com uma passagem em italiano, que Massimo leu num livro.

Segundo Massimo, o RTD é uma plataforma para que ele combine música com suas ideias a respeito de viagens. Representa uma jornada ideal numa linha que conecta lugares geográficos, que são, na realidade, lugares no coração. Em suas próprias palavras:

“Às vezes não somos plenamente conscientes destes pontos dentro de nós, mas, se quisermos, podemos ter a chance de descobri-los ou aprender melhor a respeito deles graças à presença dos outros. Talvez por esta razão também, uma jornada, na minha compreensão, não é outra coisa senão uma aventura compartilhada com outros companheiros. No caso específico do RTD, esta é uma jornada que me trouxe do Ocidente para o Oriente em uma aventura que me lembra a Viagem ao Oriente, mencionada por Carl Gustav Jung em seu Livro Vermelho. No meu caso, sendo um ocidental, o Oriente representa uma parte de mim que ainda contém possibilidades desconhecidas e áreas inexploradas. No entanto, o Oriente não é um lugar preciso. Há várias gradações dele expressas por diferentes países e localizações geográficas, como Turquia, Irã e Ásia Central, até chegarmos à China. Este último local é um símbolo cultural do Extremo Oriente, mais próximo do lugar em que o sol nasce, onde mós – junto com outros – podemos alcançar uma compreensão mais profunda de nós mesmos e consequentemente do mundo à nossa volta.”

Amir, percussionista. Tocando percussão persa tradicional, ele encanta a plateia com seus dedos mágicos. Depois de cinco anos na China, Amir infelizmente decidiu ir embora. Mas, em razão de seu trabalho, ele volta com frequência à China, e toda vez que vem, sobe ao palco conosco de novo.

Mahiar, iraniano, violonista. Ele é o membro do RTD que mais trabalha e produz. Toca o setar, um instrumento tradicional iraniano, além de violão e guitarra, e tem a aptidão de cantar em várias línguas, como persa, turco, italiano, inglês, espanhol e outras línguas.

Cenk é de Bursa, antiga capital do Império Otomano. Ele mora na China há oito anos. Toca guitarra e é fã da banda britânica de heavy metal, Iron Maiden. Seus solos transportam nossas canções para além das dimensões usuais.

A banda e seus fãs, tanto da China quanto do exterior, em uma casa de música ao vivo de Pequim

O RTD às vezes trabalha também com alguns músicos chineses. Como a música é o segundo mundo para todos nós, só conseguimos nos reunir quando temos tempo livre de nossos empregos. Todas as nossas apresentações têm sido em Pequim. Tivemos oportunidade de tocar em locais como DDC, Camera Stylo, Caravan, Labas, Sasha, que são alguns pontos famosos da animada cena musical de Pequim. No ano passado, fizemos uma apresentação inesquecível numa livraria, dentro do projeto Sofar Sounds.

Linguagem sem fronteiras

A música é uma linguagem que transcende diferenças e enfatiza os aspectos comuns da humanidade. A histórica Rota da Seda proporcionou não apenas o comércio de bens, mas também o intercâmbio de estilos musicais e de instrumentos, que percorrem grandes distâncias geográficas. Hoje, nossa interação com pessoas ao longo da moderna Rota da Seda compõe um tecido muito rico. Não há necessidade de estabelecer separações. Um exemplo é a conhecida canção folclórica Sari Gelin (Noiva Amarela) na Anatólia. As pessoas estão sempre debatendo a que país ela pertence, porque Azerbaijão, Turquia e Armênia afirmam que a canção é de seu país. Mas, o que isso importa afinal? Assim, estamos nos preparando para cantar as diferentes partes da canção Sari Gelin em turco, armênio, persa e até em chinês, porque sabemos que a música não pode ficar confinada às fronteiras de um único país ou língua. A música é uma linguagem universal que vai além de obsessões ideológicas e fronteiras políticas. A música encurta distâncias, reduz a separação entre Roma e Pequim a umas poucas notas musicais.

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