Novamente na China, desta vez como sinóloga

Acabo de retornar ao Brasil após uma intensa experiência de três semanas na China como jovem sinóloga. Fui a convite do governo chinês, através do Ministério do Turismo e Cultura da República Popular da China, para participar do Programa de Visitas para Jovens Sinólogos. O grupo contava com mais de trinta especialistas em China de diferentes países do mundo e eu fui a única representante brasileira desta edição xangainesa, organizada pela Academia de Ciências Sociais de Xangai (SASS, na sigla em inglês). Senti-me pequena diante de tantas mentes brilhantes, cujo nível de fluência no mandarim falado e escrito muito me surpreendeu.

A diversidade de países representados no programa – Índia, Bósnia, Estados Unidos, Geórgia, Tadjiquistão, Holanda, Colômbia, Fiji, Tailândia, Nigéria, Rússia e muitos outros – permitiu uma rica troca de experiências sobre a crescente presença e influência chinesa em diferentes locais do globo. Cada jovem sinólogo do programa era parte integrante do processo de criação de conhecimento sobre a China em seu próprio país, carregando consigo, portanto, uma grande dose de responsabilidade. Com vários de meus colegas de programa, o único idioma comum era o mandarim.

Os campos de interesse do grupo foram divididos em economia; sociologia; relações internacionais; linguística; literatura e cultura. Professores da SASS nos acompanharam ao longo do programa e nos ofereceram aulas e discussões sobre temas como reforma e abertura econômica, política externa e estado de direito. Tivemos a oportunidade de fazer visitas guiadas a uma empresa de engenharia; uma corte local – onde assistimos a um julgamento; a centros comunitários; e a uma fábrica de aviões; entre outras atividades que procuraram mostrar diferentes aspectos da organização da sociedade chinesa e das prioridades de desenvolvimento do governo. Experimentamos na pele a sensação de viver em uma sociedade pós-papel moeda e comprar o café nosso de cada dia pagando a conta com o aplicativo do celular. A revolução nos meios de pagamento estava ali, à nossa frente, e parecia mesmo trivial até voltarmos para casa e para os cartões de crédito e débito.

Viajamos a Pequim, capital com jeito imperial. Comemos o delicioso pato laqueado e brindamos às amizades internacionais em diferentes idiomas. Lá, pudemos conviver com aqueles que nos inspiram e com quem gostaríamos de parecer daqui a alguns anos: os verdadeiros sinólogos, os seniores, oriundos de algumas das melhores universidades do mundo, que estavam reunidos em Pequim para o Simpósio de Estudos da China. Do simpósio também participou o grupo de jovens sinólogos de Pequim, que tinha o editor desta revista, Evandro Carvalho, como um dos seus membros, e cuja anfitriã era a Academia Chinesa de Ciências Sociais (CASS, na sigla em inglês).

Na volta a Xangai, cada jovem sinólogo pôs-se a trabalhar sobre o tema se seu maior interesse, orientados por experientes tutores da SASS. Cada um deverá submeter, até o final de outubro, um artigo de sua autoria. Os artigos serão compilados para uma publicação conjunta. O foco do meu interesse é a expansão internacional das empresas chinesas, sobretudo seus investimentos no Brasil. Decidi escrever sobre a nova lei de investimentos diretos da China no exterior, que entrou em vigor em março, e analisar os investimentos chineses do Brasil até o momento, refletindo sobre como o novo quadro regulatório poderá impactar o direcionamento dos fluxos para o nosso país. O assunto não poderia ser mais oportuno, tendo em vista o papel cada vez mais relevante das empresas chinesas nas transações internacionais e considerando que o Brasil responde pelo quarto lugar como destino dos investimentos chineses no globo, com um estoque de recursos já investidos da ordem de US$ 55 bilhões.

Com tudo o que vi e ouvi, voltei ao Brasil ainda mais inspirada a continuar meu trabalho como especialista em China em um país que tanto carece de conhecimento sobre a Ásia de modo geral. Estar cercada por colegas que falavam mandarim muito melhor do que eu foi um desafio diário que me motivou a estudar ainda mais o idioma, e a incentivar todos os jovens ao meu redor, em especial os internacionalistas, a fazerem o mesmo. É preciso difundir o conhecimento sobre China no Brasil. A China é importante demais para ser mal compreendida.

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