Mai Jia: o Dan Brown da China?

A trajetória do ex-militar introvertido que se transformou no grande sucesso da literatura chinesa moderna

Mai Jia foi apresentado pelo The New York Times como um autor best-seller de romance de espionagem e como ex-militar que há anos escreve sobre segredos. O mundo em código que ele criou em suas obras é desconhecido para a maior parte dos chineses, e mais ainda para os leitores estrangeiros.

Durante a semana da Beijing Publishing Fellowship do último mês de junho, Mai reviu sua carreira literária e expôs alguns pensamentos sobre suas obras publicadas no exterior. “Meu romance Decoded foi escrito num período de 11 anos e rejeitado 17 vezes. Foi uma experiência sofrida que a maior parte das pessoas desconhece, e mesmo para um escritor é algo raro”, disse Mai.

Hoje afastado dos holofotes da mídia, nos últimos anos Mai Jia deu início a uma livraria sem fins lucrativos em Hangzhou, destinada a ser um espaço complementar para jovens escritores.

As batidas do coração de uma história

Decoded foi traduzido para 33 idiomas e projetou Mai internacionalmente. O personagem principal, Rong Jinzhen, é um gênio matemático afetado por depressão. Recrutado por órgãos de inteligência, é incumbido de decifrar dois conjuntos de códigos secretos, o que o leva a uma aventura de tirar o fôlego.

A maior parte dos protagonistas dos livros de Mai são heróis solitários altamente inteligentes. Ele confessa que é obcecado por esse tipo de personalidade, na qual vê um pouco de si mesmo. Por um lado, os personagens são extremamente talentosos; por outro, são incrivelmente vulneráveis.

A solidão do próprio caráter de Mai entrou em cada uma de suas obras. Ele compara seu gênio a fios de tungstênio, que se forem iluminados demais podem inflamar-se.

Depois de Decoded, Mai criou vários livros de espionagem, como In the Dark, Sound of the Wind e Whisper of the Wind, todos best-sellers, e com adaptações para TV de grande audiência. O sucesso na comercialização de produções com temas de espionagem foi além da imaginação de Mai. Ele acredita que isso foi mudando ao longo do tempo.

Segundo ele, literatura é, antes de mais nada, contar uma boa história. Se você consegue contar a mesma história, mas de uma maneira original ou pouco familiar, isso é o que se classifica como moderno, ou de vanguarda.

No início da década de 1990, Mai passou três anos no Tibete. Durante um ano inteiro, mergulhou na coleção de contos O Livro de Areia, de Jorge Luis Borges, um autor de vanguarda de renome mundial com técnicas brilhantes de contar histórias. “Ele tem sido saudado como ‘o escritor dos escritores’, com um status muito elevado dentro da comunidade literária”, diz Mai. “Num exame mais detido, Borges na realidade contou histórias filosóficas que parecem contos das Mil e Uma Noites.”

Alguns traçam um paralelo entre Mai Jia e Dan Brown, autor de O Código da Vinci. Mai disse que não é merecedor desse elogio, e que Dan Brown não é seu ícone. Ele não tem o desejo de criar um novo tipo de literatura, mas deseja focar o destino dos humanos e explorar a profundidade da condição humana.

Decoded, ainda não traduzido para o português

Quando Decoded foi publicado, as resenhas em geral destacaram os temas eternos e universais de Mai, da condição humana e da solidão, mais do que os enredos de decodificação.

“Nas histórias usuais, há sons de passos; mas as boas novelas devem ter um batimento cardíaco”, diz Mai. “Por que choramos em cenas de O Sonho da Câmara Vermelha, Anna Kariênina e Pavilhão das Peônias?  Por causa do encontro e da partida, do amor e do ódio, e dos sentimentos e da violência que temos hoje e que ainda estão relacionados com a humanidade de quinhentos anos atrás. Bons livros transcendem o tempo e continuam no coração das pessoas.”

O escritor chinês obrigatório

Em uma viagem a Paris, Mai visitou sua livraria favorita, a Shakespeare Books, que se transformou em um salão para amantes de livros graças ao seu proprietário, George Whitman. O ambiente livre e puro da livraria atraiu Mai.

Nascido no campo, a luta de Mai como escritor não foi fácil, e é por isso que ele tem empatia verdadeira com as inquietudes da juventude literária atual.

“Jovens que gostam de literatura começam na solidão e na adversidade. Quanto a mim, não sabia se o que estava escrevendo era bom ou ruim, nem sabia para onde deveria mandar. Sempre acho que a literatura me deu muita coisa e que eu deveria dar algo em troca, especialmente para jovens escritores.”

A Penguin Books e a FSG Books publicaram Decoded em março de 2014 e a tradução inglesa foi vendida em mais de 35 países, entre eles Estados Unidos e Reino Unido. Inserido nos “Penguin Classics”, Decoded bateu em 24 horas o recorde para uma obra literária chinesa em mercados estrangeiros. Mai diz que para a literatura chinesa se tornar global, devem ser adotados temas mais acessíveis a leitores estrangeiros.

Em seguida à versão inglesa de Decoded, 21 editores dos Estados Unidos, Reino Unido, Espanha, França, Rússia, Alemanha, Israel, Turquia, Polônia, Hungria, Suécia e República Tcheca começaram a promover Decoded e In the Dark em seus países. Até agora, o livro foi traduzido em 33 idiomas.

“Em comparação com a popularidade da literatura estrangeira na China, o impacto da literatura chinesa no mundo ainda é limitado. No pano de fundo, o grau de atenção do exterior a Decoded excedeu minhas expectativas”. Mai admitiu que pode ter sido auxiliado pela sorte.

Ele diz que, em primeiro lugar, gostaria de expressar seus agradecimentos a Olivia Milburn, a tradutora para o inglês de Decoded, já que “um tradutor é o segundo pai da obra original”.

Como sinóloga britânica trabalhando na Universidade Nacional de Seul, Milburn concentra-se principalmente em estudos do período chinês pré-Qn (221-206 a.C.). Devido a um atraso de voo, ela pegou um Decoded da livraria do aeroporto de Xangai e terminou-o num só fôlego. Quando chegou em sua casa, traduziu vários capítulos como entretenimento. Sua colega de classe, a sinóloga Julia Lovell, levou a tradução a um editor da Penguin Books, que demonstrou interesse pelo trabalho dela.

Mai acredita que é melhor traduzir a partir da língua original. Entre as 33 traduções da obra, sete ou oito foram feitas a partir do inglês, e ele acredita que perdem um pouco do sabor original da história.

Longe dos holofotes, o escritor se dedica a promover a leitura

Além da tradução e das promoções feitas por grandes editoras estrangeiras, o tema em si transcendeu regionalismos, o que é muito útil para aqueles que não têm conhecimento da história chinesa.

Nos últimos anos, Mo Yan, Cao Wenxuan, Liu Cixin e outros escritores chineses têm recebido muitas homenagens e prêmios por suas obras literárias. Mai acredita que o sucesso deles é como uma viagem de um quebra-gelo para a literatura chinesa. A partir de agora, espera-se que a literatura chinesa atraia mais atenção do mundo inteiro, à medida que aumenta o status internacional da China.

A façanha de incentivar a leitura

Muitos leitores supõem que Mai seja um alto intelectual. Ao contrário, Mai, como ele mesmo diz, se julga bastante tosco na vida real. “Minha inteligência é um pouco abaixo da média, e não me envergonho disso. Na nossa era, há muitas pessoas inteligentes e muitas coisas inteligentes, como a internet e os smartphones. Mas eles complicam e aceleram nossa vida. Costumo dizer que o valor da inteligência às vezes é negativo.”

“Um escritor obstinado”, é o comentário de Mai a respeito de si mesmo. Depois de passar doze anos escrevendo sem sucesso ou realizações, Mai não desistiu. Ele não curte o agito de ser famoso porque “um escritor não deve ser condescendente com a fama; escrever é um ato solitário”.

Mai escreve devagar, num ritmo diário de centenas de caracteres. Se ele escreve mil caracteres, à tarde metade disso é descartada. Mai observa: “Antes meus romances eram meu fardo, ou um adereço pessoal que me diferenciava dos outros. Mas agora, vivo minha própria vida, na qual angústia e felicidade são espontâneas. Agora, vejo que livros não são um pertence pessoal, ao contrário, são como um bem mundano que eu viesse desejando há algum tempo”.

Desde 2012, ele inaugurou a Vale Ideal da Literatura Mai Jia, uma livrara que ele montou a partir do zero. É um projeto público inspirado no modelo da Shakespeare Books. A livraria não cobra ingresso. Além do café grátis e da leitura de livros, oferece um espaço de escrita para jovens que tenham entrado na lista do programa Guesthouse Producers. O lugar é ponto de encontro de quem gosta de livros, e está sempre cheio.

Para estimular as pessoas a ler mais, a Vale Ideal lançou o programa sete dias por um livro. Ao ler toda manhã 15 minutos, é possível terminar um livro em usa semana e 52 livros num ano. Como disse Borges, se existe paraíso, deve ser parecido com uma biblioteca.

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