Globalização dá lugar à comunidade de futuro compartilhado

Por Evandro Menezes de Carvalho, Editor-Chefe da Revista China Hoje

Muito se discute sobre o que será do mundo após a pandemia da COVID-19. Há diversas análises e opiniões nas redes sociais e na mídia tratando deste tema. Sob a sombra da incerteza, buscamos respostas. Do ponto de vista da economia global, os dados já mostram uma queda substantiva das projeções de crescimento para 2020. Diante deste cenário, cada país discute as medidas a serem tomadas para reduzir ao máximo o impacto negativo da pandemia sobre a economia nacional, sobre o emprego e as condições de vida das suas respectivas populações. Mas será possível retomar o caminho da prosperidade sem que esta ação no plano nacional seja, também, seguida de uma ação global?

Duas narrativas contraditórias disputam a resposta a tal questão. Uma delas sustenta que a pandemia, como uma crise de saúde pública global, reforça a importância do multilateralismo e das organizações internacionais, tais como a Organização Mundial da Saúde (OMS). A outra narrativa defende o oposto e é apoiada por países que têm assumido uma postura mais unilateralista diante do mundo. Este é o caso, surpreendentemente, dos EUA.

Desde que anunciou a doutrina do “America First”, o presidente Donald Trump tem demonstrado impaciência para lidar com o multilateralismo. As suas atitudes vão desde a abandonar uma reunião da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e do G7 a retirar-se do Acordo Climático de Paris. Desde 2018, Trump ameaça excluir os Estados Unidos da Organização Mundial do Comércio (OMC) alegando, contrariamente ao que dizem os fatos, que seu país não tem obtido êxito em quase nenhuma disputa comercial travada com a China no âmbito do mecanismo de solução de controvérsias da organização. No ano passado, retirou oficialmente os EUA da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) sob o argumento de que esta agência internacional tem assumido um viés anti-Israel. No ano passado, Washington suspendeu as contribuições financeiras à Organização da Aviação Civil Internacional (OACI). E, mais recentemente, em meio à pandemia da Covid-19, Trump anunciou a suspensão do financiamento da OMS arguindo que a organização teria falhado em relatar a gravidade da situação na cidade de Wuhan, além de acusar que ela estaria “muito centrada na China”.

Com essas decisões e declarações os EUA manifestam sua discordância sobre os rumos da ordem internacional que eles próprios arquitetaram e que havia sido impulsionada na década de 1990 sob o signo da “globalização”. Do ponto de vista econômico, a globalização significou a redução das barreiras tarifárias e não tarifárias para a integração sem fronteiras dos mercados e transações financeiras de diferentes países favorecida pela redução dos custos dos meios de transporte e comunicação. Mas tal expressão polissêmica envolvia, também, a ideia de maior interação social e cultural entre os povos diante da intensificação do fluxo de pessoas. Para os mais críticos, a “globalização” nada mais seria do que a promoção da uniformização dos costumes e valores dominantes; em outras palavras, ela embalava o processo de “ocidentalização” do mundo. Desde este ponto de vista, é curioso que o país que saiu vitorioso da Guerra Fria e liderou o mundo no projeto da globalização esteja, agora, promovendo o seu paulatino desengajamento.

Diferentemente dos EUA, a política externa da China tem sido mais vigorosa na defesa da expansão do multilateralismo e do papel dos organismos internacionais. O presidente Xi Jinping tem pedido maior apoio à agenda de desenvolvimento sustentável proposta pela ONU com metas até 2030 e ao Acordo Climático de Paris que considera irreversível. Em discurso na Cúpula do Brics, no ano passado em Brasília, chamou a atenção para a importância de “defender o sistema multilateral da OMC”. Pequim se tornou o maior contribuinte líquido da UNESCO e, também, o principal apoio da OACI. Em 2018, a China aumentou a sua contribuição ao orçamento regular da ONU para 12,01% ante os 7,92% dos três anos anteriores, e continua sendo o segundo maior contribuinte ao orçamento de manutenção de paz da ONU com uma colaboração na ordem de 15%. Em abril deste ano de 2020, a China anunciou que fornecerá US$ 30 milhões adicionais à OMS.

Todas essas ações estão em consonância com o conceito de “Comunidade de Futuro Compartilhado para a Humanidade” defendido pelo presidente Xi Jinping. Este conceito é, no meu ponto de vista, a versão chinesa de “globalização”. Ambos têm em comum a defesa do comércio livre no plano internacional. Mas diferem em um ponto essencial: enquanto a globalização advoga uma uniformização de valores, de ideias e, até mesmo, de um sistema político-econômico, o conceito chinês defende o respeito às diferenças de cada país. Neste sentido, a “globalização” da China não significa uma sinização do mundo, mas um mundo cuja ordem internacional é estruturada em respeito à diversidade dos sistemas políticos e das culturas dos povos. Paradoxalmente, o desengajamento dos EUA do multilateralismo reforça a globalização ao estilo chinês e prenuncia a emergência de uma nova ordem internacional, menos uniformizada, mais diversificada em seus diversos aspectos e, portanto, mais complexa.

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