Falando a mesma língua

Com as relações Brasil-China em alta, aprender mandarim se tornou essencial

Os brasileiros familiarizados com o mandarim se multiplicam, desde o primeiro it de investimentos chineses no Brasil. Apenas pelo Instituto Confúcio da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), o primeiro do país, inaugurado em 2008, na capital paulista, já passaram 11 mil alunos do idioma. Desde então, são dez Confúcios em território nacional, com o número de matrículas aumentando exponencialmente. Essas entidades existem graças à parceria entre o Hanban e universidades particulares e públicas locais. Vêm se instalando pelos estados da federação a uma velocidade de, praticamente, uma unidade ao ano, sendo o primeiro meio de aprendizado da língua chinesa em terras verde-amarelas.

Além da entidade abrigada pela Unesp, há o Instituto Confúcio em outras dez universidades brasileiras. Todos eles ensinam a língua chinesa, mas, sob esse escopo, o foco das formações ora envolve negócios, ora aspectos culturais, em objetivos propostos sob intercâmbios, festivais, seminários, cursos complementares, livres ou de extensão.

Mais do que negócios

Depois que a China se tornou o maior parceiro comercial do Brasil, “aprender chinês passou de curiosidade, hobby, a necessidade”, avalia Luís Antonio Paulino, diretor do Instituto Confúcio da Unesp, que lembra que as relações entre brasileiros e chineses acabaram se estendendo, de forma bem estreita, a outros campos. “Difícil, hoje, ver uma universidade sem um acordo de cooperação com a China”, ressaltou.

Professor Luis Paulino, diretor do Instituto Confúcio da Unesp.

Nanotecnologia, saúde, infraestrutura e agropecuária, dentre outras técnicas – são muitas as temáticas dos tratados bilaterais em vigência. Nessas e noutras searas, a globalização opera exigindo comunicação interpessoal precisa, sob o domínio de uma língua comum e das expressões culturais capazes de interferir nessa interação. O inglês ainda permitiria “ruídos” nesse sentido, entende Paulino. Já o idioma chinês possibilitaria melhor integração.

Essa harmonia seria um dos grandes benefícios da atuação dos Institutos Confúcio pelo mundo, entende, por sua vez, Ana Qiao, diretora chinesa do Instituto Confúcio da PUC-Rio. “Os institutos ensinam a compartilhar e compreender melhor línguas, culturas, histórias, economias etc. Também ajudam a melhorar a qualidade da educação local e o intercâmbio entre países e pessoas de etnias diferentes”, compreende a diretora. A comunhão já se inicia no modelo de gestão dessas entidades, em que um diretor brasileiro e um chinês, como Ana, interagem de forma positiva para garantir um ensino de qualidade.

Repertório ampliado

As experiências promovidas pelos Institutos Confúcio não apenas integram pessoas e países, como enriquecem, no âmbito individual, o repertório pessoal e profissional de seus alunos e professores. Lourdes Zilberberg, diretora do Instituto Confúcio para Negócios da Faap, destaca o potencial dessas entidades em ampliar a visão de mundo de estudantes e docentes, além de valorizar o exemplo chinês.

“Os Institutos Confúcio telam os profissionais chineses ao exterior, desenvolvendo sua experiência como professores visitantes, e trazem estrangeiros para a China através de missões de quatro semanas em várias cidades e de programas de bolsas de estudo”, explica Lourdes. “Eles também expõem as virtudes de um país que em 40 anos fez muito para seu desenvolvimento.”

Com olhar atento a essa expansão e à resiliência chinesa, Arthur Henrique Marrero Soares, 23 anos, graduando em Engenharia Civil, é aluno do Instituto de Negócios da Faap. Durante um mês, o estudante participou de missão na China pela entidade. Sua meta é atuar no setor de energia sustentável, em que esse país desponta, e avalia que, ao optar pela formação em chinês, terá mais chances de obter um emprego. Sobretudo se incluir no pacote o conhecimento da cultura chinesa. “Aprender chinês não é só sobre escrita e ideograma”, diz o estudante, “Precisa ter a conversação, todo o aspecto cultural.” Soares destaca positivamente o preparo que teve no Instituto Confúcio para falar fluentemente e lidar com situações do dia a dia chinês, incluindo ambientes de negócios.

“Principalmente nessa área, a cultura é completamente diferente. Ao entregarmos um cartão de visita, por exemplo, devemos fazê-lo com as duas mãos, em sinal de reverência”, pontua, sobre algo que aprendeu, e levará para o resto da vida profissional e pessoal – o respeito não só ao potencial parceiro comercial do outro lado do balcão, mas às diferenças a uma cultura milenar.

Bons resultados, grandes desafios

Lourdes Zilberberg, diretora do Instituto Confúcio da Faap

Não há metas específicas estabelecidas pelo Hanban para seus parceiros brasileiros, além do básico – a difusão da língua e da cultura chinesas. Embora Brasil e China colaborem para tanto, “há completa autonomia na gestão dos Institutos Confúcio”, destaca Paulino, da Unesp. O que se reflete na diversidade de cursos e atividades oferecidas pelas entidades brasileiras. “São os próprios Institutos que estabelecem seus planos estratégicos de acordo com as circunstâncias locais e os submetem ao Hanban”, reitera Lourdes, da Faap.

A autonomia no lhes poupa desafios, apesar dos resultados positivos que esses institutos vêm obtendo no Brasil. “Não tem sido fácil encontrar professores locais que tenham a qualificação necessária”, diz Paulino, a respeito. Mesmo com esse obstáculo a transpor, o Instituto Confúcio da Unesp foi eleito o melhor do ano por três vezes pelo Hanban, em 2010, 2012 e 2016.

Além dos cursos regulares de língua chinesa na sede ou in-company, intercâmbios, comemorações e seminários de negócios, o esforço do Confúcio da Unesp, atualmente, é no sentido de formar professores locais, desenvolver material em português do Brasil, diminuindo o uso de expressões portuguesas, adaptando as condições para o aluno brasileiro, explica Paulino. “Também tentamos garantir que esse ensino chegue a todos os níveis da população”, acrescenta.

O preparo na língua local também é visto como necessário por Lourdes. “Muitos dos professores enviados pela China falam inglês ou espanhol, eles têm que ser capacitados na língua portuguesa”, diz a diretora. A despeito de qualquer dificuldade, a entidade faapiana, inaugurada em 2012, também foi considerada a melhor do ano pelo Hanban, mas em 2015. O Instituto é um dos oito para negócios no mundo e prepara o lançamento de um novo curso híbrido, on-line, com aulas presenciais no campus ou em empresas.

Já entre os problemas enfrentados pelo Instituto Confúcio da PUC-Rio, Ana Qiao enumera os que demandam soluções urgentes, mas que estão além da alçada da instituição: “Gastamos muito tempo, muita paciência, muita energia com a prorrogação de vistos dos professores. O registro na Polícia Federal está sempre mudando…”

Cada vez mais cedo

Em sua sede, o Confúcio da PUC-Rio oferece portfólio de cursos com Taiji, pintura, música e caligrafia chinesas, além do diferenciado chinês para turismo e dos cursos da língua com enfoque cultural geral e para negócios.

Somando esforços à sua grade curricular, vem desenvolvendo atividades em outros estados, como Espírito Santo e Goiás, envolvendo outras universidades e escolas públicas. A entidade anda dá suporte a aulas de mandarim junto à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e à Universidade Federal Fluminense (UFF), que mantém o recém-inaugurado Confucius Classroom.

No Centro-Oeste, a principal parceria ocorre com o departamento de Línguas da Universidade Federal de Goiás (UFG) para cursos de mandarim dirigido ao público geral. Já no Espírito Santo, o Confúcio da PUC-Rio dá suporte a aulas de mandarim para alunos do ensino médio estadual, difundindo a língua chinesa para adolescentes.

Foi na cidade de Niterói (RJ), no entanto, que a entidade se tornou responsável pelo primeiro projeto da escola bilíngue português-chinês do Brasil, sediado no Colégio Estadual Matemático Joaquim Gomes de Sousa, conhecido como Intercultural Brasil-China. Com o ensino médio em tempo integral e foco no mandarim e nas ciências exatas, a escola foi destaque do índice de Desenvolvimento de Educação Básica (Ideb) já em sua criação, em 2015. Até setembro de 2018, o Intercultural Brasil-China já havia mandado seis alunos brasileiros para intercâmbio em cidades chinesas.

Um destaque do Confúcio PUC-Rio para intercâmbio dos jovens em ensino médio é a organização do Summer Camp de futebol, levando à garotada à China para jogar e aprimorar o mandarim. Trata-se de iniciativa pioneira no mundo entre os Institutos Confúcio. Essas ações vêm acontecendo com total aprovação de pais e reputação positiva entre os próprios estudantes.

Assim, o público interessado em aprender chinês no país vai se tornando cada vez mais jovem. O ensino básico brasileiro vai chegando próximo do modelo educacional do modelo educacional preconizado pela Unesco para o século XXI – do aprendizado de novos idiomas ao conhecimento interdisciplinar aplicado, passando pelas competências socioemocionais que também podem ser promovidas com o auxílio do trabalho dos Institutos Confúcio.

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