Em busca de uma colaboração sustentável em educação

Muitos especialistas em ensino superior continuam hoje tecendo comentários sobre a revolução acadêmica contemporânea. 

Entende-se por isso, em geral, quatro processos principais, que juntos determinam radicais mudanças no atual ambiente universitário. São elas: massificação, comercialização, globalização e internacionalização.

Essa transformação é neoliberal em essência, já que um de seus resultados é tratar o ensino superior não como um importante bem público, mas como um produto a ser vendido. A lógica do bem público tem sido substituída aqui pela lógica da marca comercial privada, e a ideia humboldtiana de desenvolvimento individual deu lugar à de serviços educacionais oferecidos por universidades. O resultado é um fenômeno de “capitalismo educacional”, que ameaça erodir os valores não comerciais.

A maior parte das universidades dos países do Sul Global perde na competição por uma fatia no mercado educacional, independentemente de sua participação ativa na corrida. Os que se abstêm perdem desde o início; os que participam acham impossível competir com os centros estabelecidos de poder acadêmico, e acabam perdendo do mesmo jeito. A concorrência em reputações acadêmicas é acompanhada pelo chamado Efeito Matthew, segundo o qual reputações estabelecidas não são de modo algum desafiadas, e sim reforçadas. Essa corrida de reputações se reflete nas principais tabelas de pontuação acadêmicas.

A distância cada vez maior entre o Norte Global e o Sul Global faz com que as universidades dos países de economias emergentes procurem uma estratégia eficaz para superar as diferenças mais graves. A tarefa, no entanto, abrange duas vertentes: levar em conta os problemas característicos das economias emergentes e ganhar a própria fatia no mercado educacional global por meio de participação ativa na corrida mundial por excelência. Essas vertentes resultam em duas estratégias que, em vez de convergirem, com frequência contradizem-se. Uma delas é implementada em vários projetos de excelência, e visa transformar os sistemas de ensino superior de acordo com padrões externos, e aumentar a competitividade das universidades por meio do aumento de suas posições nos rankings mundiais; a outra está associada à busca de uma alternativa para o capitalismo educacional transnacional e à tentativa de construir laços horizontais entre as instituições de ensino superior do Sul Global.

Muitos países, na tentativa de se equiparar aos principais centros de poder acadêmico, implementam projetos de excelência orientados para uma profunda transformação do ensino superior. Considerando que, segundo Ellen Hazelkom, renomada especialista na área, “uma universidade de nível mundial é uma operação de 1 a 1,5 bilhão de dólares por ano”, esses países têm de investir pesadamente. É por isso que, entre os países do Brics, desde 1999, a China têm gasto cerca de 6 bilhões de dólares americanos para os programas dedicados à criação de universidades de classe mundial (world-class universities, WCUs). A Rússia em 2012–2017 investiu 878,5 milhões de dólares em seu bem conhecido projeto 5/100, que dá apoio ao aumento da “competitividade internacional” das 21 melhores instituições russas de ensino superior. A lista de outros importantes programas de excelência ao redor do mundo inclui projetos no Japão (1,1 bilhão de dólares), Taiwan (2 bilhões de dólares), França (5 bilhões de euros), além de Malásia, Espanha e outros países.

No entanto, apesar de alguns resultados interessantes, o desempenho das universidades dos países do Brics nos rankings ainda não impressiona. Mesmo a China, o país mais bem-sucedido nesse sentido, com todo o seu grande investimento tem apenas 7 universidades entre as 200 primeiras do ranking Times Higher Education (THE), e 8 universidades entre as 200 primeiras do QS World University Ranking. Outros países do Brics estão representados entre as 200 primeiras com 1 ou 2 universidades apenas. Por outro lado, o Reino Unido coloca 32 universidades entre as 200 primeiras do THE e 30 instituições entre as 200 primeiras do QS. Esse fato ilustra bem a distância que os países de economias emergentes tentam tão desesperadamente encurtar com seus projetos de excelência. E é também um bom exemplo do Efeito Matthew, presente em todos os rankings globais de universidades.

Talvez o que o Brics mais necessite seja resolver problemas comuns mais prementes, por meio de mecanismos alternativos da colaboração Sul-Sul. Há vários aspectos importantes dessa colaboração. Primeiro, é preciso que haja uma colaboração igual e horizontal, voltada para resolver desafios comuns. Segundo, a colaboração deve ser orientada para um desenvolvimento conjunto (codesenvolvimento) das partes envolvidas. Assim, essa colaboração parece implicar uma nova compreensão do desenvolvimento. Esse novo conceito de desenvolvimento tem sido anunciado (mesmo que ainda não tenha sido totalmente elaborado) pelo Centro de Estudos do Brics da Universidade Fudan (Xangai, China). O conceito implica um “jogo de soma diferente de zero”, isto é, um desenvolvimento do tipo ganha-ganha, baseado em princípios de igualdade, autonomia e sustentabilidade. Dentro dessa compreensão, o Brics não é de modo algum orientado contra a ordem mundial predominantemente neoliberal, mas é uma tentativa de oferecer uma visão alternativa do desenvolvimento, desprovida dos vestígios do imperialismo e do colonialismo.

Assim, embora o clube do Brics seja baseado em um consenso mais pragmático do que normativo, se ele pretende desenvolver e constituir de fato uma visão alternativa, está obrigado a ter algo a dizer ao mundo, não só em termos de puro pragmatismo, mas também de valores. No entanto, toda estrutura de valores requer uma área comum, educacional e de pesquisa, assim como ricas interações culturais entre os países. Se o projeto do Brics pretende ser levado a sério, precisa abranger todos esses aspectos.

A colaboração do Brics, portanto, é mais bem entendida em termos de ideia plural de modernidades, do que em termos de teoria da modernização. Em outras palavras, ela é baseada no reconhecimento dos diferentes caminhos igualmente válidos de ser moderno, em vez de numa tentativa de fazer com que tudo corresponda a um suposto estado de coisas idealmente moderno. Ou, como é expresso por um dos criadores dessa teoria, Peter Wagner, a modernidade é entendida agora como uma pluralidade de “experiências e interpretações” da condição moderna, e não como um conjunto rígido de instituições. Obviamente, esse conceito também se encaixa na ideia de mundo multipolar (como algo diferente de uma estrutura de relações internacionais bipolar ou unipolar).

Essa compreensão da cooperação do Brics requer ações comuns em educação e pesquisa. Tais ações, por sua vez, devem se basear em um novo tipo de colaboração horizontal entre as instituições de ensino superior dos países do Brics. Talvez uma das tentativas mais bem-sucedidas nesse sentido seja o projeto da NU, ou Network University, isto é, uma Rede Universitária do Brics. A rede consiste em 55 universidades de todos os cinco países do Brics, com a implementação conjunta de programas de pós-graduação e mestrado nas seis áreas prioritárias: estudos sobre o Brics, economia, recursos hídricos, tecnologia da informação, ecologia e energia. Tendo sido estabelecido pelo MOU, assinado pelos ministros da Educação dos países do Brics, a NU envolve um complexo mecanismo de coordenação horizontal, refletindo os princípios inerentes no novo conceito de desenvolvimento. Em outras palavras, todos os esforços foram feitos para assegurar a igualdade e a autonomia dos participantes no que eventualmente irá se tornar uma colaboração sustentável entre as universidades dos países do Brics.

Portanto, a Network University do Brics não implica a existência de uma secretaria permanente ou de um cargo de reitor. O presidente é apontado anualmente no país que preside o Brics, enquanto todas as decisões estratégicas são tomadas coletivamente pelo Conselho Governante Internacional. Seguindo as regras dos outros organismos do Brics, todas as decisões são tomadas com base em um consenso, e não implicam mecanismos de votação. A complexidade do sistema às vezes torna o processo de tomada de decisões longo e difícil; existe, porém, uma compreensão compartilhada de que apenas um sistema desse tipo poderá corresponder de fato aos princípios de igualdade e autonomia de colaboração do Brics.

Assim, diante das duas estratégias de desenvolvimento do ensino superior, os países do Brics em sua tentativa de integrar melhor a esfera acadêmica mundial devem concentrar-se na colaboração horizontal em rede das universidades, e nesse sentido a Network University do Brics é um excelente exemplo.   

 

Maxim Khomyakov é diretor do Centro de Estudos do Brics e vice-presidente de relações internacionais da Universidade Federal de Ural, Ecaterimburgo, Rússia. Desde 2015 se dedica ao estabelecimento de cooperação entre universidades dos países Brics (nu-brics.ru).

 

 

 

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