Diplomacia e inteligência cultural

Diferenças culturais são obstáculos diplomáticos entre China e Estados Unidos

Recentemente tenho me debruçado sobre o livro Selected Philosophical Writings of Fung Yu-Lan que reúne vários escritos deste renomado filósofo chinês que, em 1924, doutorou-se pela Universidade de Columbia e foi reitor da Escola de Artes Liberais e catedrático no Departamento de Filosofia da Universidade de Tsinghua. Segundo ele, o ocidental que começa a estudar a filosofia chinesa é imediatamente confrontado com dois obstáculos: a barreira da língua e o modo peculiar no qual os filósofos chineses se expressam. Fung Yu-Lan disse que é difícil ter um completo entendimento dos textos filosóficos se não se pode lê-los no original. Além disso, acrescentou, os filósofos chineses expressavam-se na forma de aforismos, apotegmas, alusões ou ilustrações. As ideias dos pensadores chineses não seriam suficientemente articuladas de um modo que revelasse um sentido evidente. Segundo Fung Yu-Lan, “quando se começa a ler obras filosóficas chinesas, a primeira impressão que se tem é, talvez, a brevidade e a desconexão das palavras e escritos de seus autores. Abra os Analectos de Confúcio e você verá que cada parágrafo consiste em apenas algumas palavras, e dificilmente há qualquer conexão entre um parágrafo e o próximo.”1

Esta economia das palavras na articulação das ideias expressas no texto é compensada por sua sugestividade. A filosofia chinesa, para ser compreendida e sentida, exigiria a sofisticação e a sensibilidade de um poeta. “Na poesia, o que os poetas pretendem comunicar muitas vezes não é o que é dito diretamente na poesia, mas o que não está dito nela”, explica o filósofo chinês2 . Eis aí uma das características essenciais da cultura chinesa que a distingue das culturas ocidentais. Ela é uma cultura de alto contexto – o oposto da cultura estadunidense que é considerada por Edward T. Hall (para alguns, o “pai da comunicação intercultural”) uma cultura de baixo contexto. Esta última dá ênfase nas palavras ditas. Já na cultura de alto contexto, a mensagem será melhor compreendida se se levar em conta, também, o não dito. Assim, neste caso, tão importante quanto as palavras pronunciadas é saber quem as pronunciou, quando as disse, em que lugar, como as expressou etc. Cada variável ajuda a compreender o significado da mensagem. As culturas de baixo contexto, por sua vez, seriam mais literais e denotativas; já as de alto contexto seriam menos explícitas e mais conotativas. As primeiras atêm-se ao que está escrito, as segundas atentam para as entrelinhas. Para a cultura de baixo contexto, a responsabilidade pelo significado recai quase que exclusivamente sobre o emissor do discurso; para a de alto contexto, a compreensão do significado exige a participação ativa do ouvinte interlocutor. Logo, a responsabilidade pelo sucesso ou fracasso da comunicação é atribuída a ambas as partes.

Feitas estas breves considerações, ponho-me a refletir sobre alguns desentendimentos diplomáticos entre os Estados Unidos e a China. Quando os chineses tentam se expressar segundo o modo típico das culturas de “baixo contexto”, erram frequentemente o tom por não dominarem a comunicação literal do tipo ocidental. Por sua vez, quando os estadunidenses tentam se arriscar na comunicação de “alto contexto”, frequentemente se perdem e logo a paciência lhes escapa por não dominarem a arte dos subentendidos e dos implícitos. E se cada um permanecer aferrado ao seu modo de comunicação, o diálogo fica irremediavelmente prejudicado. O desafio está posto para encontrar a justa medida.

No período da China imperial, conforme explicou Ruth Roland, os postos de trabalho dedicados às relações exteriores eram de baixo prestígio “porque envolviam o contato com ‘bárbaros’ desprezados.”3 Naquela época, as relações exteriores para a China exigiam habilidades linguísticas em apenas dez idiomas falados nos seus estados satélites na Ásia. Mas hoje é bem diferente. A China tem uma presença global com uma diplomacia atuante em diversas áreas e é a maior parceira comercial de mais de uma centena de países, superando os Estados Unidos. O país tem investido no ensino dos mais diversos idiomas em suas universidades a fim de ter profissionais capacitados para falar a língua do estrangeiro. Os postos diplomáticos são cobiçados e, cada vez mais, contam com um pessoal diplomático e consular muito preparado.

Segundo Confúcio, 辞达而已矣, isto é, “se as palavras [são capazes de] expressar [seu sentido], isso basta”. Parece que o sábio chinês valorizava a literalidade. Não se resume a isto. Trata-se de buscar a correspondência do sentido com a verdade dos fatos. Em tempos de fake news nas relações internacionais, a lição confuciana lembra que os significados das palavras devem seguir uma ética da tradução entre as culturas. Este é um pressuposto mínimo da comunicação para que possamos retomar o caminho da diplomacia construtiva.

Por Evandro Menezes de Carvalho. Editor-Chefe da Revista China Hoje. Professor de direito internacional e coordenador do Núcleo de Estudos Brasil-China da FGV Direito Rio e da Universidade Federal Fluminense. Foi Senior Scholar da Universidade de Shanghai de Finanças e Economia e Visiting Researcher na Universidade Fudan, Shanghai. É consultor do China Desk do Veirano Advogados.

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