Como incrementar o comércio com a China

Precisamos entender a forma chinesa de fazer negócios

Por Sergio Quadros

A China é o maior exportador do mundo com um volume de US$ 2,48 trilhões e o segundo maior importador do mundo, somente atrás dos Estados Unidos, com um volume de US$ 2,13 trilhões em 2018. É a economia que mais cresceu no mundo. Depois de se tornar a “fábrica do mundo”, gerando uma nova divisão nos meios de produção internacional, a China tem obtido cada vez mais poder nas relações multilaterais e negociações bilaterais, exercendo seu poder no tabuleiro geopolítico e geoeconômico mundial.

A entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC), em dezembro de 2000, depois de cerca de 15 anos de negociação, foi de grande significado não somente para a economia chinesa, mas para a economia mundial. A corrente de comércio com o mundo saiu de um patamar de US$ 474,4 bilhões em 2000 para um patamar de US$ 4,62 trilhões em 2018. Com um grande volume nas transações comerciais com o mundo, a China se tornou um centro de importância industrial. Seu Produto Interno Bruto cresceu de US$ 1,3 trilhão em 2001 para US$ 13 trilhões em 2018, tornando-se a segunda maior economia do mundo.

Em relação ao Brasil, a China é, atualmente, o seu maior parceiro comercial. O volume da corrente de comércio parte de um montante de US$ 36,5 bilhões em 2008 para um montante de US$ 98,94 bilhões em 2018. Em termos de participação, a China representa 26,8% das exportações brasileiras e 19,2% das suas importações.

Entretanto, considerando as origens e destinos das exportações e importações chinesas, percebe-se que a região onde se concentra o maior volume de exportações e importações chinesas está na Ásia. Cerca de 47,8% das exportações são destinadas para a Ásia e 56% das importações chinesas têm origem naquela região. Quanto ao Brasil, o valor de destino das exportações chinesas representa 1,35% do total e as importações representam 3,63% do destino total importado pela China em 2018.

A pujança da economia chinesa tem se constituído em um instrumento do poder político chinês, que sabiamente o utiliza para impulsionar e proteger sua economia, garantir o suprimento de recursos naturais, grande parte commodities – agrícolas, minerais e energéticas – e na aquisição de tecnologias fundamentais para seu desenvolvimento econômico.

Bacharel em ciências contábeis e pós-graduado em administração financeira, Sergio Quadros foi gerente geral e responsável pela instalação da primeira agência do Banco do Brasil na China, em Xangai, onde morou por nove anos

Desde a crise financeira mundial em 2008, a China decidiu-se por um avanço no processo de internacionalização da sua moeda, depois de anos de hesitação. Aproveitando a situação gerada pela crise financeira mundial e a ameaça à hegemonia do dólar, o governo chinês se tornou otimista sobre a internacionalização do yuan. Com o acirramento da guerra comercial com os Estados Unidos, essa estratégia se torna cada vez mais primordial e necessária para manter sua hegemonia no comércio mundial.

A China tem importantes laços econômicos, financeiros e políticos com outros países além da Ásia. Através de acordos de livre-comércio e acordos de swap de moedas firmados e designando bancos chineses como centros financeiros offshore em yuan em acordos com os bancos centrais com países da Europa, América do Norte, África, Oriente Médio, América Latina, a China vem desenvolvendo seus mercados financeiros buscando maior profundidade e liquidez. Como resultado dessa decisão, alguns bancos centrais já têm incluído o yuan em suas reservas cambiais. Da mesma forma, as iniciativas políticas como o lançamento do projeto Rota da Seda e do Banco de Investimento em Infraestrutura, os quais já têm mais de 97 países signatários, auxiliam no projeto de internacionalização da sua moeda.

Conjuntamente com essas iniciativas, a China tem incentivado suas empresas a se internacionalizarem – going global. Investindo em países, notadamente aqueles situados no foco do BRI (Rota da Seda) ou onde a China tem grande dependência da importação de recursos naturais. Esse é um passo importante no processo de internacionalização da moeda, pois muitos investimentos têm o suporte dos bancos chineses de fomento com acordos de utilização dessas linhas de crédito para compras de mercadorias e serviços da China.

Diante dessa situação, seria o caso de o Brasil avançar nas relações com a China analisando a possibilidade do uso da moeda chinesa, pelas empresas brasileiras, nas transações de comércio e investimento com a China. Assim como já adotado por diversos países, inclusive o Chile aqui na América Latina, o uso da moeda chinesa poderia aumentar o volume de comércio e investimentos, seja através da exportação de produtos ou na atração de investimentos, sem a necessidade da utilização do dólar ou euro como moeda intermediária. Essa medida certamente expandiria consideravelmente o escopo dos negócios com a China, além da pauta de exportação junto com a redução dos custos de transações.

Outro aspecto também relevante a ressaltar é que a COSBAN – Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível e Concertação e Cooperação, criada em 2004, ainda é um instrumento muito pouco utilizado pelo governo e pelas empresas brasileiras. Através das suas várias subcomissões, o Brasil poderia desenvolver uma estratégia mais eficiente de negociação com a China. Ou seja, é preciso uma estratégia. Da mesma forma em relação aos projetos de investimentos, deveria ser criado um órgão centralizador e negociador desses projetos dentro do governo de forma a dar mais transparência e credibilidade na busca de investimentos por infraestrutura no Brasil. Incluindo Estados e municípios.

Nos quase nove anos que permaneci na China, onde coordenei a abertura da agência do Banco do Brasil, primeira de um banco latino-americano naquele país, e atuando como presidente do Foro Brasil China, uma associação informal das empresas brasileiras na China, pude perceber a forma como o país se organiza e se planeja nas suas negociações com o mundo. Tudo articulado internamente. Por outro lado, algumas missões do Brasil com dificuldades de entender como funcionava a economia e a forma de se fazer negócios, além do desconhecimento da cultura daquele país. Por isso, ainda a ínfima presença de empresas brasileiras naquele país.

Enquanto ficarmos discutindo essa parceria somente olhando o volume exportado pelo Brasil, sem o conhecimento profundo da economia chinesa e sem estabelecer uma estratégia de médio e longo prazo e da forma de se fazer negócios, o Brasil tende a ser somente um grande exportador de commodities. E não por culpa da China. Para isso é preciso entender realmente o que significa socialismo com características chinesas e como funciona o capitalismo de Estado chinês.

A próxima reunião da Cúpula dos Brics, em novembro, será no Brasil. A China já deve ter elaborado sua estratégia e certamente abordará a adesão do Brasil no projeto da Rota da Seda. E o Brasil? O que é prioritário? Uma ferrovia transoceânica ligando o Brasil com a América Latina, Ásia e Oceania beneficiando grande parte da cadeia produtiva ou a construção de ferrovias em outras regiões que aumentam muito pouco a nossa competitividade? Está na hora de fazermos o nosso dever de casa e aproveitarmos as nossas vantagens competitivas sustentáveis e entender como negociar com os chineses, que têm demonstrado uma enorme boa vontade e disposição em negociar com o Brasil.

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