Changsha: Bastião de antigas e novas culturas

Capital da província de Hunan, no centro do país, Changsha é uma importante cidade no curso médio do rio Yang-tsé

Fundada há 3 mil anos, Changsha foi palco de importantes eventos históricos, como a Reforma dos Cem Dias (1898), a Velha Revolução Democrática (1840-1919) e a Nova Revolução Democrática (1919-1949) e berço de notáveis da história da China

Cidade famosa da cultura Chu, o nome de Changsha aparece bem documentado na história da dinastia Zhou Ocidental (1046-771 a.C.) Changsha, nos seus primórdios, já era uma cidade importante do Estado Chu. Em 221 a.C., depois de conquistar outros seis estados, a dinastia Qin transformou Changsha na capital de um distrito administrativo homônimo. Na dinastia Han Ocidental (202 a.C. – 8 d.C.), a autoridade centrar estabeleceu o Reino de Changsha.

O Estado Chu (1115 – 223 a.C.), onde Changsha ficava localizada, era um estado vassalo nas áreas das Planícies Centrais (nas extensões médias e baixas do rio Amarelo), na dinastia Zhou Ocidental. À medida que Chu expandiu seu território travando guerras durante anos, acabou dominando toda a área da atual província de Hunan e estabeleceu a cidade de Changsha como uma fortaleza no sul. Os imigrantes de Chu das áreas das Planícies Centrais trouxeram know-how para o sul e compartilharam seu sofisticado conhecimento com o povo nativo.  Juntos criaram a característica cultura Chu, que herdou e desenvolveu a cultura das Planícies Centrais. A cultura Chu, que abrange arte, história, educação, literatura, filosofia e costumes folclóricos, tornou-se uma das fontes da cultura chinesa tradicional, que deriva principalmente das áreas das Planícies Centrais.

Qu Yuan (339-278 a.C.), um filho de Chu, foi o primeiro poeta patriota da história da China, fundador do romantismo chinês e criador e representante da balada de Chu. Nascido na aristocracia, Qu foi exilado, devido às suas visões políticas. Quando seu amado Estado Chu foi anexado pela dinastia Qin, ele morreu como mártir, suicidando-se nas águas do rio Miluo. Ao saber de seu suicídio, o povo Chu correu para o rio para resgatar seu corpo. Atiraram pudins de arroz no rio, na tentativa de evitar que os peixes e camarões comessem o corpo de Qu. Assim nasceu a Festa do Barco do Dragão, na qual pessoas conduzem barcos de dragões e comem pudins de arroz enrolados em folhas de bambu. Em 2009, a Festa do Barco do Dragão foi listada como evento integrante do Patrimônio Cultural Intangível da Unesco.

Qu teve um impacto de longo alcance na literatura chinesa. Seu estilo poético enriqueceu intensamente a expressividade dos poemas, abrindo um novo caminho para a literatura. Mesmo hoje, ele continua a ser modelo para os escritores, por seu idealismo, seu amor ardente pelo país, sua busca incansável da verdade e sua coragem para criticar as autoridades.

O pavilhão Aiwan no inverno

Como oficial rebaixado de Changsha, distante de seu reino, Qu mesmo assim se preocupava-se com o destino de seu país e de seu povo. Suas viagens aos rios Xiangshui e Yuanshui inspiraram seus imortais poemas patrióticos, Tristeza após a Partida e Nove Corações. Dizem que procurava ajudar seus vizinhos e que falava com frequência com os habitantes da cidade. Foi visto lavando suas roupas ao lado de um poço numa alameda tranquila. Em sua homenagem, a alameda foi renomeada como Zhuojinfang, que literalmente significa “lugar para lavar roupas”. Ainda hoje, a alameda Zhuojinfang pode ser encontrada ao longo da rua Taiping, no distrito de Tianxin, em Changsha.

Mais de um século após a morte de Qu, na dinastia Han Ocidental, Jia Yi (200-168 a. C.), outro brilhante estadista também marginalizado, teve um destino similar ao de Qu. Removido dos corredores do poder e relocado a Changsha, Jia foi rebaixado de posto e virou professor do Rei Changsha, basicamente um cargo confortável. Ele mandou construir uma residência para ele perto do poço que Qu Yuan frequentava, instalou uma cama de pedra e plantou árvores frutíferas no pátio.

Todos os das, em sua estada de três anos aqui, os assuntos de Estado sempre ocupavam a mente de Jia, e ele com frequência dava conselhos ao imperador a respeito de questões sociais, mesmo sem ser solicitado. Suas visões a respeito da governança ajudaram a dinastia Han a salvaguardar sua unidade.

Qu Yuan e Jia Yi, dois autores de poemas imortais e artigos em Changsha, deixaram um rico e profundo legado cultural na cidade.

As origens de Mao Zedong

Personagem central da moderna história da China, Mao Zedong (1893-1976) foi um dos fundadores da República Popular da China, que mudou o curso da nação chinesa e deixou uma marca indelével na história mundial.

Mao nasceu numa família rural em Shaoshanchong de Xiangtan, a cerca de 90 km do centro de Changsha. Na sua juventude, o país estava experimentando mudanças sísmicas e grande turbulência política. Ele sofreu a influência de grandes eventos, como a Primeira Guerra Sino-Japonesa, a invasão das Forças Aliadas das Oito Potências, a fundação da República da China, o Período dos Comandantes Militares e o Movimento 4 de Maio.

Em 1911, aos dezoito anos de idade, Mao veio para Changsha, onde estudou, juntou-se ao exército, e tornou-se um ativista político pelos dez anos seguintes. A década em que viveu na cidade moldou sua mente e seu caráter, despertou seu talento e abriu caminho para a sua ascensão como líder nacional.

Antiga residência de Mao Zedong

Foi nessa cidade que ele pela primeira vez leu jornais, acompanhando por meio deles os grandes eventos e as visões progressistas da sua era. Foram os jornais que o fizeram entrar em contato com as ideias revolucionárias e o apresentaram a pensadores e estadistas contemporâneos, como Sun Yet-sen, o pioneiro da revolução democrática chinesa, Chen Duxiu, um dos fundadores do Partido Comunista da China (PCCh), e Hui Shi, defensor do Movimento da Nova Cultura. Ele logo se tornou um combatente por uma China democrática contra o feudalismo e o colonialismo. Fundou o Instituto Xinmin com seus colegas de classe, discutiu questões globais e negócios de Estado e estudou a Revolução Russa, procurando uma solução para salvar e reformar a China.

A China na época, apesar da queda da dinastia feudal Qing, continuou sendo uma sociedade semifeudal e semicolonizada, ainda atormentada por invasões estrangeiras e dividida entre seus comandantes militares. Mao, que aspirava encontrar um caminho para salvar a nação, abraçou o marxismo e se tornou um firme defensor do comunismo. Em 1920, liderou a fundação do Grupo Marxista de Changsha. Em 1921, compareceu ao primeiro Congresso Nacional do PCCh como representante de Changsha e foi um dos seus fundadores e pioneiros.

Changsha, como centro cultural, político e econômico de Hunan, foi a primeira cidade que deu a Mao o acesso a uma visão mais ampla da China e do mundo, empoderando-o com um conhecimento moderno e ideias revolucionárias.

A estátua do jovem Mao Zedong, na Ilha Orange, atrai sempre muitos visitantes

Núcleo de artes da mídia

O PIB de Changsha não se compara ao de Pequim, Xangai ou mesmo Guangzhou, mas seus canais de tevê têm produzido numerosos programas populares, como Happy Camp, que promovem o setor local de entretenimento. Comenta-se que de cada 10 yuans ganhos por um cidadão de Changsha, sete são gastos em consumo de cultura. O imenso mercado para produtos culturais impulsiona o robusto desenvolvimento do setor cultural de Changsha.

“Sou Miss Ma da Vila Malan da Cidade de Malan da Encosta de Malan da Montanha Malan.” A frase-bordão de Xie Na, apresentadora de Happy Camp, tornou a comunidade de Malanshan (que significa a Montanha de Malan), em Changsha, famosa em Hunan e até mesmo no resto da China.

Malanshan, localizada no distrito de Kaifu, em Changsha, permaneceu na obscuridade por muitos anos. Na década de 1950, fazia parte de uma grande fazenda estatal e, em 1980, havia se transformado em uma fazenda-jardim, mais conhecida pelas rosas que cultivava. Por volta do ano 2000, Date of Rose, um programa de encontros românticos transmitido pela TV por satélite de Hunan e produzido justamente neste antigo jardim de rosas, fez sucesso no país inteiro.

A fama de Malanshan está muito ligada à TV Hunan. Em 1994, Malanshan foi escolhido como local para o Centro de Rádio e Televisão de Hunan. Por volta de 2000, e recolocação da TV Hunan por Satélite e da TV Hunan de Economia para a região transformaram Malanshan. A velha e atrasada comunidade, de estradas lamacentas, lagoas e terras cultiváveis, desapareceu; a nova e moderna Malanshan, que é hoje uma cidade dinâmica com hotéis e restaurantes atraentes, tornou-se sinônimo de moda e modernidade.

Além de programas de TV, Changsha também promove o Festival de TV Arte Águia Dourada, o Festival de Música da Ilha Orange, e o Festival Internacional de Escultura, entre outros. A cidade tornou-se um núcleo cultural criativo da China, graças à sua emergente indústria cultural de grandes ambições e diversidade cada vez maior. Está sendo construído em Malanshan um parque industrial cultural de criatividade visual, com recursos extensos e serviços integrados one-stop. Também foram construídos um distrito universitário e um parque do setor de publicidade, a fim de atrair trabalhadores talentosos e criativos.

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